20 de março de 2016
POR: José Lima Santana - jlsantana@bol.com.br
Fonte: José Lima Santana

A beata e o sacristão :: Por José Lima Santana


José Lima Santana(*)  jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

Margarida. Margarida do finado Pedrinho do Galo Assanhado. Margarida dos ponpons. Por causa dos chinelos com bolotas. Viúva há uns cinco ou seis anos. Desde o início da viuvez, ela se tornou a beata mais esquisita da Paróquia. Vivia, a bem dizer, socada na igreja. Ia de manhã. Ia de tarde. Ia de noite. Bastava a igreja estar aberta. Missa? Não, ela não parecia gostar muito de missas. Assistia à missa quando um cego perdia um vintém. Contudo, ela se apegara à imagem do Senhor Morto, que ficava no seu esquife roxo e de roxo vestida, ao lado esquerdo do altar, quase rente à porta da sacristia. Margarida ajoelhava-se para rezar três vezes ao dia, diante daquela imagem, que metia medo a muitos meninos.


Palpites? Ela os dava a toda hora, todos os dias. O cônego via-se agoniado. E, muito mais do que o velho cônego, aperreado vivia o sacristão, “seu” Marquinho, aposentado da Prefeitura Municipal, como fiscal arrecadador. Igualmente viúvo, o sacristão era um homem de cerca de sessenta e alguns anos, baixo, atarracado, suarento, a avantajada pança o impedindo de ajoelhar-se quando era preciso, na hora do ofício da santa missa. Mas, era o sacristão que a Paróquia tinha. E ele o era há mais quarenta anos. Pobre sacristão! A beata Margarida pegava no pé de “seu” Marquinho, como se fosse carrapato em lombo de besta velha. E magra. Até parecia um encosto ruim. Um anjo gauche, que lhe atazanava a vida. Margarida inventava poucas e boas com “seu” Marquinho, mas ele sempre deixava por menos.


Margarida reclamava de tudo, na igreja. A pobre zeladora, Dona Joana, outra viúva, cujo único filho, que era o seu valimento, e era quem a sustentava, acabou na penitenciária, porque se desentendeu com um figurão, ouvia calada cada reclamação da beata, devota da imagem do Senhor Morto. O filho de Dona Joana não matou, não tentou matar, não causou lesão corporal, mas acabou processado e trancafiado. A mãe chorava dia e noite. O que era ser pobre! Os figurões mandavam e desmandavam. O mundo não tinha jeito. Os pobres eram castigados de toda maneira. Além do sofrimento pela prisão injusta do filho, Dona Joana ainda tinha que ouvir as diatribes da beata. Ora, era uma teia de aranha, dessas teiazinhas de dois ou três fios, de um tipo de aranha miúda que gostava de comer moscas e que não fazia mal a ninguém, a não ser a Margarida. Ora, era um cisco, um pozinho à toa sobre a imagem. Ora, não era nada mesmo. Porém, Margarida implicava com tudo e com todos. Vivia de facho aceso o tempo inteiro. Ninguém a suportava. Imagine o que não sofreu o coitado do Pedrinho, seu defunto marido. Deve ter morrido de desgosto. Era o que o povo dizia.


Naqueles dias, e estou falando de janeiro de 1965, “seu” Marquinho adoecera. Ele sofria de um puxá danado, que lhe corroia os peitos. Coisa que vinha desde o tempo de menino. Reima antiga. O ataque daquele começo de março lhe botara na cama. Uma semana, duas semanas, e nada de melhora. O cônego arranjou um substituto eventual para o sacristão. Era um antigo coroinha, que já entendia mais ou menos dos assuntos litúrgicos e dos serviços próprios de um sacristão. O cônego o instruiu naquilo que ele precisava de aprimoramento. Deu tudo certo. João Fernandes, esse o seu nome, desincumbiu-se a contento. Entretanto, lá foi a beata Margarida importunar o novo sacristão, que não era como “seu” Marquinho. João Fernandes tinha lá os bofes quentes. Tudo o que ela reclamava, ele rebatia na bucha. Com ele, a beata topou da banda podre. Tanto ele rebateu, que a beata fez dele muitas reclamações ao cônego. Este, todavia, fez ouvidos de mouco. Não lhe deu guarida. E o fez muito bem. Sem conseguir o que queria Margarida, então, levantou um aleive danado contra o rapaz. Coisa tão descabida e tão cabeluda que não vale a pena descrever aqui. Chamada aos arreios pelo cônego para se explicar, ela não conseguiu provar nada. O pároco passou-lhe uma boa descompostura. Exigiu que ela se confessasse e aplicou-lhe uma penitência na medida. O sacristão disse a Margarida: “A senhora vai ver que tudo tem o seu tempo”. E o tempo passou.


Começo de abril. Chegou a Semana Santa. Margarida quase não saía da igreja. Se a imagem do Senhor Morto tivesse vida, certamente teria reclamado. A cada visita, anos a fio, Margarida beijava a imagem um sem número de vezes, que até parecia descorada por tantos beijos, por tantos resquícios de baba da beata. Na manhã da Sexta Feira Maior, dia da celebração da morte de Jesus, o Verbo Encarnado, cuja procissão conduzindo o esquife do Senhor Morto percorreria as ruas principais da cidade, eis que a imagem amanheceu emborcada. O rosto da imagem virado para baixo. Quando Margarida chegou à igreja e deu de cara com a situação inusitada, abriu o berreiro. “Valei-me, meu Deus do céu! Um milagre!”. A cidade entrou em polvorosa. O velho cônego ficou aturdido com o misterioso fato. Assim que a agência dos Correios abriu, ele telegrafou urgentemente ao bispo: “Senhor Bispo vg imagem Senhor Morto amanheceu de costas para mundo pt Solicito ilustre presença V. Exa. Revma pt”.


Àquela altura, e isso eram umas 8h30m, mais ou menos, a igreja não comportava os fieis que tinham acudido ao barulho que a situação ocasionara. A praça da igreja também ficou lotada. O cônego não se dignou em mexer na imagem. Somente o senhor bispo o poderia fazer. Foi o que ele disse. As bocas de alto-falante da igreja tocavam sem cessar a peça “Jesus Alegria dos Homens”, cantata 147, de Johann Sebastian Bach. O velho disco de vinil haveria de ficar arranhado de tanto tocar.


Meio dia. Ninguém parecia estar com fome. Gente de vários lugares, povoados e cidades vizinhas, já acorria à igreja. Verdadeira romaria. Uma emissora de rádio da capital alardeou que um milagre acabara de se registrar naquela cidade. Uma devota do Senhor Morto teria sido a destinatária do milagre. Alguém já se pronunciara no sentido de que a mesma deveria seguir para Roma, para receber a bênção papal. Margarida era uma santa. Ou quase isso. O burburinho na Praça da Matriz concorria com a música de Bach. Aliás, soava mais alto. Botecos de lanches tomavam a calçada da praça, em frente à igreja. A beata Margarida já tinha dado uma entrevista à rádio da capital. Para ela, a imagem do Senhor Morto estava com nojo do mundo. Os pecados das pessoas eram demais da conta. Jesus estava para voltar. O Juízo Final estava próximo. Ela, Margarida, seria salva. Assim ela o disse.


O bispo mandou um emissário para avaliar a situação. O monsenhor representante da autoridade episcopal era figura por demais conhecida em todo o estado. Tinha a fama de santo. O cônego e o monsenhor seriam os únicos a tocar a imagem, a fim de desvirá-la. Fizeram o serviço rezando o Pai Nosso. Enfim, desviraram-na.


No rosto da imagem estava colado um papel no qual estava escrito: “Eu me virei porque não suportava mais a cara de Margarida”.


Era a vingança do sacristão.


 


(*) Advogado, professor da UFS, membro da ASL e do IHGSE


Publicado no Jornal da Cidade, edição de 13 de março de 2016. Publicação neste site autorizada pelo autor.


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