06 de março de 2016
POR: José Lima Santana - jlsantana@bol.com.br
Fonte: José Lima Santana

O velho Pedro Bufa :: Por José Lima Santana


José Lima Santana(*)  jlsantana@bol.com.br


Não sei ao certo se o fato ocorreu em 1964 ou em 1965. Alguém por acaso lembra quando foi exatamente que Sianinha do finado Vavá de Pedro Bufa fugiu com Marquinhos de Sá Rosa? Ninguém atina? Pois é... Eu também não. Não estou seguro. Mas que foi em janeiro de 1964 ou de 1965 eu cá tenho certeza. Isso eu posso dizer por que faço umas contas sobre a data de nascimento de Bebeto de Sianinha e sobre a data da morte de Pedro Bufa que era o bisavô de Bebeto e que morreu uns seis meses depois que o bisneto nasceu. Bateu as botas com longevidade quase acentuada. Passava dos noventa anos. Deviam ser uns noventa e poucos. Noventa e dois ou noventa e três anos. Mais ou menos isso. Morreu depois de ter comido uma carne de porco frita com feijão verde, farinha e pimenta. Mas, não foi somente isso não. Depois de bem almoçar e melhor arrotar, que ele se dizia descendente de sírios libaneses aboletados na região do cacau, na velha Bahia, daí o gosto pelo arroto após as refeições, Pedro Bufa achou de tomar um torrado, de tomar uma boa narigada do rapé de Mané Grande, o melhor rapé da cotinguiba ao sertão, do agreste aos tabuleiros. Dizem que foi um espirro tão danado, que saiu gordura de porco pela boca e pelas ventas. Um horror! É possível que a força do espirro tenha destampado os bofes do velho. Rasgado as tripas por dentro. O certo é que foi um desmantelo desgraçado.
Pedro Bufa era o sujeito mais animado e, ao mesmo tempo, mais emburrado que eu conheci nos meus tempos de menino de calças curtas. Emburrado apenas quando algo não lhe convinha. Amuava como jegue ruim que não quer sair na foto. Loroteiro. Ah, menino! Quem mais do que ele gostava de lorotar, de contar lodaças, de mexer com uns e outros? Ninguém. Não do meu conhecimento, naqueles tempos em que ele tinha como casa de rancho, e não de moradia, um chalé testa de bode que ficava logo depois da casa de minha avó Lourdes, no rumo do brejo das pedreiras e do açude. O nome de Pedro Bufa parecia sonoro aos ouvidos de todo mundo. Se o apelido Bufa não lhe incomodava, tão pouco causava galhofa entre as pessoas. O que as pessoas gostavam era das lorotas, dos ditos, do humor de Pedro Bufa, quando ele não estava emburrado. Mas, emburrado, emburrado mesmo ele só ficava uma vez ou outra. Era, a bem dizer, uma raridade.
Duas vezes viúvo, Pedro Bufa, deu para visitar Margarida de Salomé, mulher quarentona, vitalina, apesar de dezenas de promessas feitas a Santo Antônio. Pedro era filho do povoado Coração do Negro, povoadozinho de pouca gente, que mais dia, menos dia haveria de fenecer. Restavam poucas casas quando eu por lá estive com meu pai, numa noite de forró. Forrozinho peba da gota! Sanfoneirozinho ruim, que não saia do fofote-fote-fote, fofote-fote-fote. Sanfona mais velha do que o dilúvio de Noé. O sanfoneiro era um tal de Abdias Pezão. Fole de oito baixos. Porém, na bodega de Ludugero de Gerson Carniça fez-se um bom ajuntamento. Gente dali das redondezas mesmo. Do Oco do Pau, da Beribeira, do Dengo de Maria, das Palmeirinhas, do Poço do Boi, do Buraco Quente. Da cidade, só mesmo meu pai e eu, um moleque de dez anos. Eu era um observador dos costumes e de muitas outras coisas das pessoas. Anotava tudo em velhos cadernos e em papeis avulsos.
O xodó de Pedro Bufa e Margarida parecia ir de vento em popa. Ele beirava, à época, os setenta anos. Era, portanto, quase trinta anos mais velho do que ela. Se para ele parecia ser uma mão na roda, para ela, então, parecia ser a salvação da lavoura. Desencalhar era tudo o que ela queria. Pedro, tirando as bufas, que ele as soltava aos magotes, daí o apelido, era um bom partido, sim senhor. Bem aquinhoado, tinha terras e gado, “sem contar com mais uns cobres lá no fundo do baú”, como dizia a música “Xanduzinha” de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Margarida era mulher recatada. De família respeitada. Os pais, Zequinha da Bolandeira e Sá Elvirinha de Tonho Manduca, já eram falecidos. Mas, ela tinha muitos irmãos. Uns dez ou doze. Todos vivos. Gente esparramada por muitos cantos. Até no São Paulo, o eterno eldorado para muitas levas de nordestinos, por décadas a fio.
Pedro Bufa estava animado. Mais animado do que pinto no lixo, para não dizer outra coisa mais nojenta. Mandara até dar um banho de cal e tabatinga na casa com varanda. Se duas mulheres a ocupara, não custaria que a terceira logo o fizesse também. Pedro dizia: “Viver sozinho é como viver no inferno: de dia é muita agonia, de noite é muito açoite”. Os filhos e netos de Pedro torciam pelo casamento. A única irmã de Margarida, que morava no povoado, também. Não demoraria, pois, e o Cônego Miguel teria casamento para anotar nos livros da Igreja. E bom capão para botar no bucho. Nesta última parte, não só ele, claro. Todos os convivas. Taí uma coisa que Pedro Bufa não era: mão de vaca. Não era do tipo de soltar passarinho só para vê-lo voar. Todavia, não era de prender passarinho na gaiola pelo prazer de tê-lo aprisionado. Ou seja, se não era um esbanjador, também não amarrava dinheiro no mocó com barbante ou pindoba.
Tarde de sexta-feira. Era o dia em que Pedro costumava descer às baixas, à beira do riacho, para colher um ou outro cacho de banana prata. Topou com um cacho que começava a amarelar. Cacho bonito. Formosas bananas. Quando amadurecessem de vez, Margarida teria como fazer um doce de rodinhas, com a calda bem apurada, cravo e canela em pau, só umas lasquinhas, para dar gosto. Uma delícia! E Pedro Bufa comeria o doce com farinha de mandioca, da fininha, como somente Zé Gato vendia na feira de Dores.
Pedro foi de rota batida à casa da futura terceira esposa. Encontrou Margarida retirando roupas enxutas do varal. Alegre, cantarolando, o que não era muito comum. Pedro fechou o cenho. E disparou: “Você, Margarida minha, tá mais alegre do que mulher-dama quando vê caixeiro viajante”. Ah, desmantelo de vida! Ao ouvir aquilo, que, na verdade, não passava de um dichote comum na boca do povo dali, ela subiu nas tamancas. Fechou-se em copas. E acabou o namoro. “Antes o caritó do que ser comparada a uma mulher-dama”, disse ela. Morreu donzela, de cancela fechada. Quanto a Pedro Bufa, casou com Terezinha de Chico Martelo, que morreu dois anos antes dele. Pedro morreu uns seis meses depois do nascimento do bisneto Bebeto, o décimo sexto. Bebeto, hoje, é servidor público estadual, sofrendo com os atrasos na liquidação da folha de pagamento até que o governo do estado recupere as finanças públicas, tão desaprumadas no país quase inteiro. Bebeto é chamado pelos colegas de Bebeto Bufa. Ele herdou do bisavô o apelido e a frouxidão para soltar flatulências.


(*) Advogado, professor da UFS, membro da ASL e do IHGSE


Publicado no Jornal da Cidade, edição de 06 de março de 2016. Publicação neste site autorizada pelo autor.


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