13 de dezembro de 2015
POR: José Lima Santana - jlsantana@bol.com.br
Fonte: José Lima Santana

O candidato e os votos voláteis :: Por José Lima Santana


José Lima Santana(*)  jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana - (Foto: ClickSergipe)

José Lima Santana - (Foto: ClickSergipe)

A família era dada às atividades políticas. Tios e primos já tinham sido eleitos para cargos eletivos, no Executivo e no Legislativo. Ora, por que não ele, também? Por que não tentar uma cadeira na Edilidade da capital? Afinal, além da boa performance familiar, no seu entendimento a Câmara precisava de novo alento, de sangue novo. Ele tinha a seu favor o fato de ser sobrinho do candidato a prefeito. Tinha também os serviços prestados aos colegas de trabalho e à própria comunidade. E tinha, vale dizer, certos apoios externos. Um dinheirinho, talvez, vindo daqui e dali. Seria, enfim, um candidato a ser levado em consideração. Outra coisa: tinha disposição para se largar no mundo em busca de apoio e votos. Logo, logo, certamente, as ruas estariam cheias de cartazes e santinhos com o nome R. (vou ocultar o seu nome, senão ele é capaz de me xingar). E o boca a boca se espalharia do Lamarão à Terra Dura, do Mosqueiro ao Aribé.
Nome homologado na convenção partidária. Campanha a ser tocada. Todavia, de saída, ele sofreu um duro golpe. O tio candidato não lhe permitiu usar o nome de família, ou seja, o patronímico familiar que o ligava ao tio pelo lado materno. Ele teve, então, que usar o outro nome de família, no caso, da família paterna. Fazer o quê? Ao invés das iniciais R. A., usaria as iniciais R. R. Cauteloso, o tio não queria desgostar os demais candidatos a vereador que estavam na coligação. Candidato a vereador com raiva abandonava o candidato majoritário. Isso era o que mais ocorria. “Ora, sujeito, você não é meu sobrinho? Todo mundo não já sabe disso? Basta!”. E assim foi feito. Ah, mas poder usar o nome que o ligava ao tio candidato a prefeito seria, deveras, uma mão na roda! Votos haveriam de cair na urna como mangas espadas caiam no sítio do avô, madurinhas, amarelinhas de dar gosto, no seu tempo de menino. Porém, já que não podia ser, paciência. 
Campanha nas ruas, o computador começou a encher-se de listas de possíveis eleitores. Ele nominou cada colega ou ex-colega de trabalho: uma imensidão de terceirizados e comissionados, além dos empregados da empresa municipal na qual ele tivera cargo de direção. Dentre estes, contabilizou mais de dois mil possíveis eleitores. E os votos que viriam de fora? Dos amigos. Das lideranças de bairros que ele conquistara? De pessoas diversas às quais ele teria prestado um obséquio? Sabia-se mais de quem... Haveria de ser uma eleição garantida. Ele contou e recontou. Fez e refez contas. Não tinha como perder a eleição. A esposa, cautelosa, o advertira, contudo, sobre a infidelidade dos eleitores, a enganação de muitas pessoas, que diziam: “estamos juntos”, mas que haveriam de estar mais separadas do que as margens do rio Amazonas nas grandes enchentes. Entretanto, ele estava empolgado. A cada dia, o computador recebia mais nomes nas listas de eleitores dados como certos. Já ultrapassavam dois mil e quinhentos nomes.  
A campanha para prefeito pegava fogo. Eram três os principais candidatos, palmilhando o chão eleitoral, buscando conquistar cada voto, no dia a dia. E os candidatos a vereador deslizavam pelo chão como cobras em mil e uma sinuosidades. Um dia, o candidato sobre quem eu falo chegou à casa onde morava um comissionado de outrora, que fora seu subordinado, e este lhe garantiu: “Aqui o senhor tem 4 votos: o meu, o da esposa, o do meu filho Mikael Magaive e o da minha filha Meg Maricleya. Aqui é no contado. É tudo do senhor”. Ai, Jesus! Um eleitor assim tão decidido era de encher os olhos do candidato. Naquele, ele confiava. Sempre tivera nele um auxiliar competente e leal. Aquele, sim, não lhe negaria fogo. Jamais. Se tivesse lenha molhada para acender o fogo, aquele seria capaz de entortar as bochechas de tanto soprar para acalentar o fogo. Ah, aquele era mesmo de tinir! 
E a campanha andou de vento na popa. Eleição garantida. Comprar um terno novo, para a posse, isso ficaria para depois. Naqueles dias, o que importava mesmo era continuar chegando junto ao eleitor. As cobras criadas rastejavam muito ligeiramente. Muitos votos saiam de um para outro candidato com uma rapidez de espantar. Bichinho danado de volátil era o voto de alguns eleitores. Batia asas mais depressa do que o mais veloz dos passarinhos.
Quanto mais se aproximava o dia da eleição, mais candidatos arrastavam-se sorrateiros, como cobras peçonhentas, prontas para dar o bote. Votos mudavam de direção como água de enxurrada, que não tinha trilha certa. Na casa de uma eleitora que se dizia fiel, o candidato fora encontrá-la vestindo a camisa de outro candidato a vereador. A eleitora mais amarela e mais desfigurada do que dente cariado, ainda tentou se explicar: “Foi um doido quem me deu essa camisa, que eu só estou usando agora porque vou fazer uma faxina”. Ah, bicho manhoso era eleitor! Era o que pensavam certos candidatos. E dos candidatos, o que diriam os eleitores? Não tirariam por menos.  
Noutro dia, na casa do eleitor que tinha quatro votos, o candidato chegou para uma prosa. O eleitor fiel foi logo dizendo: “O senhor sabe, né ‘seu’ R.? Passou por aqui uma candidata e deu umas coisas a minha mulher, fez a cabeça dela, e eu acho que ela vai votar nessa candidata. Mas, não se preocupe não, que os outros três votos são seguros. São do senhor. Eu garanto”. Assim era a vida do candidato. Um voto a menos aqui, talvez um voto a mais acolá. 
No Mané Preto, um cachorro gué do rabo fino rasgou a calça do candidato. E ele ainda teve que fazer festa para o dono do cachorro, que nem seu eleitor era. Vida de candidato... No Japãozinho, ele teve que comer uns torresmos e beber um copo de cerveja quente. Os torresmos estavam passados. Deu-lhe uma disenteria da gota! Ele evacuou uns três dias, por várias vezes ao dia. Eleição... Na Baixa da Cachorrinha, ele foi dar com uma conhecida de sua mãe, lá do interior, que lhe pediu uma máquina de costura e um fogão. Em troca, ela lhe garantia de seis a oito votos. De quem, se ela morava sozinha? Ah, bicho danado era eleitor!
Aquele eleitor fiel de quatro votos, mas que se resumiam a três, disse-lhe que outro candidato prometeu pagar ao seu filho, para trabalhar como “boca de urna”. O rapaz que era meio sem juízo, aceitou. Porém, o voto dele e da filha estavam seguros. Eram, agora, apenas dois. Eleição? Era coisa bruta. E assim a campanha transcorreu. Uma decepção aqui, uma injeção de ânimo ali. Um líder comunitário do Bugio lhe garantiu apoio, somente porque gostou do palavreado dele, numa reunião da qual o líder participara. “Vou votar no senhor. O senhor tem uma fala que me agrada”. Era assim. Uns iam, outros vinham. 
Enfim, na véspera da eleição, o candidato a vereador, sobrinho do candidato a prefeito retornou à casa daquele fiel eleitor, que tinha quatro votos certos, mas que acabaram se resumindo a apenas dois. Ele encontrou o velho amigo desolado. “O que foi ‘seu’ Tonico, que tristeza é essa?”, indagou o candidato. “É que eu num tenho cara pra olhar para a butuca dos seus olhos, ‘seu’ R.”. E emendou: “Pois num é que minha filha ganhou uns tênis de Fulano? Disse que vai votar nele. Mas, o senhor fique descansado, que o meu voto ninguém tira do senhor”. Abertas as urnas, o candidato que esperava obter, por baixo, uns mil e quinhentos votos, obteve apenas oitocentos e quarenta e dois votos. Quatrocentos a menos do que ele precisaria para se eleger. À noite, ao chegar à casa, derrotado, amargurado, traído, ele ouviu esta pérola da esposa: “Eu bem que lhe avisei!”. Era a pá de cal no candidato “defunto”.


 


(*) Advogado, professor da UFS, membro da ASL e do IHGSE


Publicado no Jornal da Cidade, edição de 13 de dezembro de 2015. Publicação neste site autorizada pelo autor.


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