"Chip da beleza" ganha popularidade por efeitos estéticos, mas exige atenção aos riscos à saúde
Implantes hormonais atraem quem busca mudanças rápidas no corpo; endocrinologista explica possíveis consequências e questiona ausência de evidências para finalidade estética
Perder peso, aumentar a massa muscular, deixar a pele com outra aparência e ter mais energia estão entre os efeitos associados aos chamados “chips da beleza”. A possibilidade de concentrar diferentes resultados em um único procedimento, por meio da liberação contínua de hormônios no organismo, contribuiu para o crescimento da procura pelos implantes entre pessoas interessadas em mudanças rápidas na aparência e na composição corporal.
Apesar da praticidade e dos resultados anunciados, o procedimento envolve uma questão que não pode ser deixada de lado: quais são os riscos diante dos benefícios esperados? Alguns hormônios realmente são capazes de provocar mudanças no organismo, mas isso não significa que sua utilização estética seja segura ou que exista indicação médica para esse fim.
A endocrinologista e metabologista e professora da Universidade Tiradentes (Unit), Fernanda Ramos, chama atenção justamente para o emprego de hormônios sem indicação científica comprovada para fins estéticos.
“A questão é que se criou o termo ‘chip da beleza’ com um nome comercialmente atrativo para inserir hormônios no corpo feminino que não têm aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), sem estudo de validação científica e, portanto, sem previsibilidade de dose, efeitos colaterais e riscos associados ao seu uso”, explica.
A gestrinona está entre as substâncias mais presentes nesses implantes e, em muitos casos, aparece associada a compostos de ação androgênica, como a testosterona. “A gestrinona é um hormônio esteroide sintético com propriedades semelhantes às da testosterona.
Nesse contexto, a preocupação não está apenas no resultado prometido, mas também na exposição do organismo a níveis hormonais que podem provocar alterações em diferentes sistemas”, alerta.
O que se promete
A relação entre a ação dos hormônios e as alterações na composição corporal ajuda a entender a expansão desse tipo de procedimento no mercado estético. Conforme explica Fernanda, algumas das transformações anunciadas podem, de fato, ocorrer. “A testosterona pode realmente aumentar massa magra, mudar a composição corporal, dar essa sensação de euforia/disposição.
O fato de uma substância produzir determinado efeito, entretanto, não significa que seu uso seja recomendado para pessoas saudáveis que desejam apenas alcançar um padrão estético”, pontua.
A especialista reforça que provocar uma determinada resposta no organismo não é o mesmo que oferecer um benefício terapêutico. “Drogas ilícitas também podem causar euforia e nem por isso devem ser usadas. A discussão deve considerar não apenas aquilo que a pessoa espera obter, mas também as consequências que podem aparecer posteriormente”, alerta.
No caso da pele, os efeitos podem inclusive contrariar aquilo que é divulgado em algumas propagandas. A ação dos andrógenos pode elevar a oleosidade e contribuir para o aparecimento de acne. Dessa forma, um procedimento procurado para melhorar a estética pode desencadear outras alterações que também exigem cuidados e tratamento.
Riscos no organismo
Os impactos potenciais vão muito além das alterações cutâneas. Segundo Fernanda, a utilização inadequada desses hormônios pode elevar os riscos cardiovasculares, contribuir para a resistência à insulina e alterar negativamente o perfil lipídico, aumentando os níveis de colesterol ruim e triglicerídeos.
“Essas alterações podem contribuir para o desenvolvimento de doença aterosclerótica e aumentar a possibilidade de eventos como infarto e acidente vascular cerebral (AVC). Também podem ocorrer aumento da pressão arterial, crescimento da gordura visceral, hipertrofia miocárdica e maior risco de arritmias e morte súbita”, observa a médica.
Outro órgão que pode sofrer consequências é o fígado. A endocrinologista cita entre as possíveis complicações a hepatite medicamentosa, a insuficiência hepática e os tumores hepáticos. “Além das repercussões físicas, o excesso hormonal pode interferir no estado emocional, com possibilidade de alterações de humor, depressão, ansiedade intensa e dependência psicológica”, orienta.
Também existem efeitos relacionados à masculinização do corpo feminino. “Podem ocorrer aumento da oleosidade da pele, espinhas, alopecia (queda de cabelo), aumento da pilificação em locais sensíveis aos andrógenos, aumento do clitóris e alteração permanente da voz”, diz.
Hormônio não é atalho
A utilização de hormônios com o objetivo de alterar características físicas não deve ser confundida com a terapia hormonal prescrita para o tratamento de problemas de saúde. Embora envolvam hormônios, são situações diferentes e não podem ser consideradas equivalentes.
Fernanda explica que não há uma orientação generalizada para reposição de testosterona em mulheres. “A testosterona em mulher deve ser baixa mesmo. Quando está alta, é decorrente de alguma doença de base que merece investigação e tratamento”, afirma.
Mesmo quando existe acompanhamento médico, isso não significa que o uso de hormônios para fins estéticos deixe de oferecer riscos. “Estar em acompanhamento médico não reduz os riscos do excesso de hormônio masculino nas mulheres, infelizmente. Salvo situações específicas, a terapia de reposição hormonal feminina não inclui testosterona ou substâncias semelhantes”, conta.
Assim, ter uma receita ou realizar o procedimento sob supervisão profissional não representa, por si só, uma garantia de segurança ou de adequação do implante hormonal. A escolha deve partir de uma necessidade clínica devidamente identificada e levar em conta as particularidades, condições de saúde e possíveis riscos de cada paciente.
Por trás do padrão
A crescente procura pelos chamados “chips da beleza” também aponta para uma discussão que ultrapassa a prática médica. Na avaliação da endocrinologista, a busca por intervenções hormonais para atingir determinados formatos corporais está ligada à pressão exercida pelos padrões estéticos e à maneira como as mulheres são estimuladas a avaliar os próprios corpos.
“Até onde essa ditadura da beleza que vivemos hoje é saudável? Até onde o adoecimento da mente tem refletido na necessidade de se encaixar num padrão estético inatingível? O que está por trás dessa necessidade de usar hormônios masculinizantes para se encaixar num padrão que vai de encontro à fisiologia normal feminina? É necessário refletir sobre o motivo pelo qual características próprias da fisiologia feminina passaram a ser encaradas como algo que precisa ser combatido”, questiona.
Antes do procedimento
Diante da variedade de produtos disponíveis, a recomendação é buscar informações antes de optar por qualquer procedimento. Fernanda orienta a consulta a conteúdos produzidos pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), além da verificação sobre a autorização da Anvisa para a utilização da substância prescrita na finalidade indicada.
“Também é importante conversar abertamente com o profissional responsável sobre os possíveis benefícios, efeitos adversos e alternativas disponíveis. Uma boa relação médico-paciente e a busca por informações pautadas em evidência científica e ética é sempre o melhor caminho”, orienta.
Para objetivos como emagrecimento, ganho de massa muscular ou mudança na composição corporal, existem alternativas com respaldo científico. Uma alimentação equilibrada, a prática frequente de exercícios, noites adequadas de sono, manejo do estresse e acompanhamento com diferentes profissionais integram os principais pilares desse cuidado.
“Quando necessário, tratamentos medicamentosos ou hormonais podem ser considerados, mas a partir de indicação e avaliação individualizada. É preciso entender o que fez a pessoa chegar ao excesso de peso, alinhar expectativas e definir o tratamento que será indicado a partir dali”, explica Fernanda.
Por fim, alcançar mudanças duradouras depende principalmente da manutenção dos hábitos ao longo do tempo. “A repetição, persistência e constância a longo prazo é que levam aos resultados desejados. Em vez de buscar uma fórmula única para transformar o corpo, a recomendação é compreender as necessidades de cada pessoa e construir um tratamento adequado, com segurança e acompanhamento profissional”, afirma.