Canetas emagrecedoras avançam no combate à obesidade, mas não substituem a bariátrica, esclarece médico Rogério Rodrigues
A rápida popularização das chamadas “canetas emagrecedoras”, os análogos de GLP-1, transformou o tratamento da obesidade e trouxe novas possibilidades para pacientes que enfrentam dificuldades para perder peso e controlar doenças associadas. No entanto, com os resultados expressivos na redução do peso corporal, os medicamentos também levantaram uma dúvida cada vez mais comum nos consultórios: as canetas vão substituir a cirurgia bariátrica?
Para o médico cirurgião digestivo, especialista em bariátrica Rogério Rodrigues, apesar dos avanços dos medicamentos, a resposta é não, pelo menos no cenário atual. Segundo o especialista, medicamentos e cirurgia são estratégias diferentes e podem ser indicados de acordo com o grau da obesidade, a presença de comorbidades e as características individuais de cada paciente.
“As canetas representam um avanço muito importante no tratamento da obesidade e podem trazer excelentes resultados para muitos pacientes. Mas não podemos considerar que elas substituem a cirurgia em todos os casos. Estamos falando de ferramentas diferentes, que precisam ser utilizadas de acordo com a necessidade de cada pessoa”, explica o médico.
Obesidade é uma doença crônica
Reconhecida como uma doença crônica e multifatorial, a obesidade envolve fatores genéticos, metabólicos, comportamentais e ambientais. Por isso, o tratamento não deve se limitar à perda de peso, mas também considerar a manutenção dos resultados e o controle das doenças associadas.
Os medicamentos injetáveis mais recentes atuam, entre outros mecanismos, sobre a saciedade e o controle do apetite, favorecendo a redução do peso e podendo contribuir para a melhora de parâmetros metabólicos, como a glicemia.
“Perder peso é apenas uma parte do processo. O grande desafio é manter esse resultado ao longo dos anos. E, como já comprovado, a bariátrica continua sendo o método mais eficaz e duradouro", afirma Rogério Rodrigues.
Cirurgia permanece importante nos casos de obesidade mais grave
Embora os medicamentos tenham ampliado as possibilidades de tratamento, a cirurgia bariátrica continua ocupando um papel importante, especialmente entre pacientes com obesidade mais avançada e presença de comorbidades.
Diabetes tipo 2, hipertensão arterial e apneia do sono estão entre as condições frequentemente associadas à obesidade e que podem ser beneficiadas pelo tratamento cirúrgico quando há indicação.
Segundo Rogério Rodrigues, nesses casos, a avaliação médica precisa considerar o conjunto de fatores que envolvem a saúde do paciente. “Não devemos olhar apenas para o peso. É preciso avaliar o IMC, as doenças associadas, o histórico de tratamentos anteriores e as condições clínicas de cada paciente. Em determinadas situações, a cirurgia continua sendo a estratégia com maior potencial de impacto na saúde a longo prazo”, afirma.
Canetas e cirurgia podem ser complementares
Para o especialista, a discussão não deve ser colocada como uma disputa entre medicamentos e cirurgia. Dependendo do quadro clínico, as duas estratégias podem fazer parte do tratamento da obesidade em diferentes momentos.
“As canetas não são inimigas da cirurgia bariátrica. Elas podem, inclusive, ser utilizadas de forma complementar em determinadas situações. O que não podemos fazer é transformar um medicamento em uma solução universal para uma doença que é complexa e crônica”, ressalta.
O médico também alerta para a importância da utilização dos medicamentos somente com prescrição e acompanhamento profissional. A expansão da procura por esses produtos exige atenção à procedência, à indicação correta, à dose e ao acompanhamento dos possíveis efeitos adversos.
“Estamos diante de um cenário muito promissor. As novas medicações trouxeram esperança e novas possibilidades para muitos pacientes. Mas ainda precisamos acompanhar seus resultados no longo prazo. O mais importante é entender que não existe uma única solução para todos. O tratamento deve ser individualizado, seguro e baseado em evidências”, conclui Rogério Rodrigues.