Coronelismo 5G: quando o sobrenome nunca sai de moda :: Por Murilo Gomes
Murilo Gomes*
Dizem que o Brasil mudou. Mudou a tecnologia, mudaram os celulares, mudaram os carros, mudou até a maneira de pedir comida, e o velho relógio de bolso virou smartwatch. Mas há coisas que desafiam o tempo. Em Pernambuco, por exemplo, a política parece seguir uma curiosa lei da física: nada se cria, nada se perde, tudo se herda.
O velho coronelismo nordestino também resolveu se modernizar. Tirou o chapéu de couro, aposentou o bigode espesso, trocou o palanque de madeira por estúdios de vídeo, substituiu o cabo eleitoral pelo impulsionamento nas redes sociais e descobriu que um bom drone faz muito mais sucesso do que um jingle desafinado. O coronel virou influencer.
A eleição para o Governo de Pernambuco talvez seja um dos melhores exemplos dessa transformação. De um lado está Raquel Lyra. Do outro, João Campos. À primeira vista, parece o embate entre uma nova geração de políticos. Basta olhar um pouco além da embalagem para perceber que a novidade termina justamente onde começam os sobrenomes.
Raquel é filha do ex-deputado, ex-prefeito de Caruaru e ex-vice-governador e governador (tampão) João Lyra Neto. É sobrinha do ex-ministro Fernando Lyra. Sua família há décadas influencia a política de Caruaru, cidade da qual também foi prefeita.
João Campos dispensa apresentações. É filho do ex-governador Eduardo Campos, neto de Ana Arraes e bisneto do ex-governador Miguel Arraes. Há famílias que colecionam álbuns de fotografias. Outras colecionam retratos oficiais pendurados nos gabinetes do poder.
Raquel sagrou-se governadora vencendo Marilia Arraes, prima de João Campos. Mas o curioso é que Lyra e Arraes nem sempre caminharam em lados opostos. Em 2022 Raquel disputou e venceuMarilia Arrais, assumindo o governo.
No entanto João o Lyra Neto, foi vice na chapa que elegeu Eduardo Campos (Arrais). A ruptura só veio quando em 2014, Eduardo escolheu Paulo Cãmara para sua sucessão. A política brasileira possui uma habilidade extraordinária para transformar antigos aliados em adversários e antigos adversários em aliados, conforme a conveniência da estação.
As convicções costumam ser permanentes... até a próxima composição ou até a próxima eleição. O que mudou, de fato, foi a embalagem. Raquel descobriu rapidamente a força de uma comunicação que ressalta sua imagem de mãe, de mulher resiliente, de gestora trabalhadora e apaixonada por Pernambuco. João investe na juventude, na gestão moderna, na linguagem leve, no prefeito conectado que conversa olhando para a câmera como quem conversa com um velho amigo.
Ambos entenderam perfeitamente uma regra do século XXI: o eleitor já não compra apenas propostas. Compra personagens. E personagens precisam emocionar.
*Jornalista e empreendedor