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Aracaju (SE), 27 de março de 2026
POR: Gabriel Damásio
Fonte: Asscom Unit
Em: 27/03/2026 às 09:25
Pub.: 27 de março de 2026

Entre proibição e uso pedagógico: celulares ampliam debate na educação

Debate envolve impactos na aprendizagem, disciplina e uso de tecnologias como a inteligência artificial; professores relatam ganhos em foco, enquanto pesquisadores defendem uso consciente da tecnologia

Muitos especialistas defendem o debate sobre as vantagens e desvantagens do uso do celular e das tecnologias na educação, buscando um equilíbrio entre as posições deste debate - Foto: Agência Alesc via Agência Senado

O debate sobre as restrições contra o uso de celulares nas salas de aula ganhou mais um desdobramento com a implementação e os resultados da Lei Federal 15.100/2025, que entrou em vigor em janeiro do ano passado e, desde então, permite que as escolas de Ensino Fundamental e Médio implementem medidas de controle e de proibição da entrada e do uso dos aparelhos. Mais recentemente, algumas faculdades e universidades de São Paulo e de outros estados também começaram a restringir e a proibir a entrada de alunos com celulares durante as aulas. 

As opiniões permanecem divididas. De um lado, muitos professores reclamam da dificuldade de alguns alunos na leitura de textos longos e complexos, bem como a falta de atenção e de foco durante as aulas, o que os obrigava a se desgastar para exigir atenção das classes. Nas escolas, outros docentes falam em mudanças positivas no comportamento e nas rotinas dos alunos, que passaram a buscar novas (ou velhas) estratégias para melhorar o aprendizado e aprimorar a socialização com outros alunos. E por outro lado, ois outros estudantes e professores defendem o uso dos celulares para pesquisas, gravações e anotações relacionadas ao conteúdo ensinado, e para a consequente otimização do aprendizado e das atividades acadêmicas.

“A principal discussão de hoje não é mais sobre se o celular deve ou não estar presente em sala de aula, mas sim como ele deve ser utilizado de forma pedagógica. Há um tensionamento entre dois polos: de um lado, o uso indiscriminado que pode gerar dispersão; de outro, o potencial dessas tecnologias como recurso de aprendizagem, produção de conhecimento e inovação. Além disso, cresce o debate sobre o papel da inteligência artificial generativa, que amplia ainda mais essa discussão ao trazer novas possibilidades e também novos desafios para a educação no âmbito do nível superior”, analisa a professora e pesquisadora Alana Danielly Vasconcelos, do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Tiradentes (PPED/Unit). 

Ela defende a pertinência do debate sobre as vantagens e desvantagens do uso do celular e das tecnologias na educação superior. E também se mostra favorável a um equilíbrio entre as posições deste debate. “Atualmente, estamos com uma geração considerada hiperconectada, que aprende, se comunica e produz conhecimento mediada por tecnologias digitais. Ignorar isso seria desconectar a universidade da realidade social e atual do mundo. Por outro lado, também é legítima a preocupação com a qualidade da atenção, da concentração e da profundidade da aprendizagem. Portanto, a discussão é necessária para equilibrar uso pedagógico e a responsabilidade digital”, justifica Alana. 

Uso consciente

Uma das chaves para encontrar este equilíbrio está na integração consciente e intencional dos celulares às metodologias ativas de aprendizagem. De acordo com a professora, isso acontece quando o smartphone deixa de ser um elemento de distração e passa a ser um recurso de autoria e protagonismo do discente, a partir de práticas como produção de conteúdo (vídeos, podcasts, registros fotográficos de atividades); acesso a bases de dados, artigos e materiais acadêmicos em tempo real; uso de aplicativos educacionais e plataformas colaborativas; participação em enquetes, quizzes e dinâmicas interativas; e desenvolvimento de projetos com foco em inovação, empreendedorismo e impacto social, dentre outros temas. A professora adverte que esta integração só pode dar certo se houver a disposição do aluno em utilizar os celulares para assimilar melhor o conteúdo das aulas, sem que ele se distraia com redes sociais ou conversas paralelas. 

“Isso exige o desenvolvimento de competências de autorregulação e foco que também são habilidades educacionais importantes. A chave é transformar o uso do smartphone em algo intencional, e não automático”, aponta Alana, que cita algumas estratégias que podem ser usadas pelo aluno. Uma delas é ativar modos de concentração ou bloquear notificações durante a aula. Ele pode ainda usar o smartphone exclusivamente para atividades orientadas pelo professor, fazer anotações digitais, gravações ou registros organizados do conteúdo (quando permitido), e estabelecer momentos específicos para uso pessoal, fora do tempo de aprendizagem. 

Por outro lado, certos abusos ou más práticas prejudicam diretamente o processo educativo e devem ser evitadas pelos estudantes, como o uso constante de redes sociais durante a aula, o plágio ou cópia de conteúdos sem reflexão e sem citar a fonte, a dependência excessiva da tecnologia digital sem desenvolvimento do pensamento crítico, e o uso do smartphone para dispersão ou desrespeito ao ambiente acadêmico ou aos colegas, professores e/ou funcionários da instituição. “Mais do que proibir, é fundamental educar para e sobre o uso consciente e ético das tecnologias digitais”, completa a pesquisadora. 

Contribuições da IA 

O mesmo debate em torno do uso dos celulares também se aplica ao uso da inteligência artificial e de suas ferramentas, como o ChatGPT, que vem sendo costumeiramente usados em ações de pesquisa. E por isso, a atenção com as boas práticas e os cuidados exigidos para evitar abusos no uso dos celulares também se aplicam, e de forma ainda mais intensa, em relação ao uso da IA. Alana Vasconcelos destaca que a IA pode ser uma grande aliada quando utilizada como suporte ao processo de aprendizagem, e não como substituta do discente. 

Na sua visão, a IA pode contribuir no apoio à organização de ideias e estruturação de textos; na explicação de conceitos complexos de forma acessível; na personalização do aprendizado; no estímulo à criatividade e à produção de conhecimento; e em simulações, estudos de caso e resolução de problemas.“Ela potencializa tanto as boas práticas quanto os riscos. Sem orientação adequada, pode incentivar respostas superficiais, automatizadas ou até práticas inadequadas, como o uso para substituir o esforço intelectual. Por isso, o foco deve ser no letramento digital e no letramento em IA, ou seja, ensinar como utilizar e sobre esse tipo de tecnologia de forma crítica, ética e responsável. O ponto central é o uso da IA como recurso de mediação, e não como atalho”, diz Alana.


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