Pesquisadores da Unit participam de rede nacional para criação de bioprodutos
Projeto financiado pelo CNPq reúne pesquisadores de dez instituições brasileiras para desenvolver bioprocessos sustentáveis e transformar recursos naturais em produtos de valor industrial.
Grupos de pesquisadores de 10 universidades e institutos de todo o Brasil, incluindo a Universidade Tiradentes (Unit), estão integrados em uma rede multicentral de pesquisa formada para o desenvolvimento, fabricação em escala e aplicação de bioprocessos, bioinsumos e bioprodutos, a partir dos mais variados recursos disponíveis na flora e na fauna brasileira. Trata-se de um Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT), vinculado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), como parte de um projeto para desenvolver grandes projetos de pesquisa de longo prazo e de alto impacto científico, em redes nacionais e/ou internacionais de cooperação científica.
O INCT Biofábricas – Rede Nacional de Inovação em Bioprocessos Sustentáveis, tem a participação de equipes do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Processos (PEP/Unit), lideradas pelos professores Cláudio Dariva, Ranyere Lucena de Souza, Cleide Mara Faria Soares e Adriana de Jesus Santos. Dentro da rede, elas atuarão na bioconversão de biomassas vegetais, algais e microbianas, alinhada aos conceitos de biorrefinaria, à economia circular e ao aumento da maturidade tecnológica (TRL). E contarão com o apoio de laboratórios ligados ao Instituto de Tecnologia e Pesquisa (ITP).
A participação da Unit no INCT envolve principalmente os experimentos em pequena escala, com testes de laboratório e de ensaio; e também a criação de biofábricas, nas quais os produtos destas pesquisas são escalados, isto é, produzidos em volume e qualidade suficiente para a inserção deles no mercado industrial, suprindo as demandas das empresas. “A gente quer ter vários grupos de pesquisa que consigam desenvolver as atividades em pequena escala dentro do laboratório e ter um centro, uma estrutura maior para escalar, que é essa biofábrica. Ela já vai ter, por exemplo, os produtos que a gente vai desenvolver e outros que as empresas às vezes demandam para serem desenvolvidos”, explica o professor Dariva, que coordena o projeto na Unit.
Para o professor Ranyere, a expectativa é de que os resultados destas pesquisas venham a gerar uma série de impactos positivos para o setor biotecnológico, principalmente para a indústria de processamento dos materiais e suas respectivas cadeias produtivas. “A gente tem vários segmentos de impacto, desde o nível de formação e capacitação de recursos humanos. Está se criando uma rede e formando pessoas que têm um olhar mais sustentável para os processos. Tem ainda o impacto na valoração de resíduos, desses bioativos que vão chegar no produto biotecnológico como matéria prima para o uso em diversos segmentos. Eu diria que o impacto desse projeto é generalizado”, prevê ele.
Dariva, por sua vez, acredita que a formação do INCT fará o Brasil avançar na transição energética e no desenvolvimento de produtos sustentáveis. “Nessa parte de bioprocessos em geral, existe uma coisa muito forte de mudar das coisas sintéticas para as mais naturais. Por exemplo: a gente quer sair de defensivos agrícolas e partir para os biofertilizantes, dos combustíveis fósseis para os biocombustíveis, quer deixar de ter medicamentos fármacos sintéticos e partir para a parte biofarmacológica… Buscar uma coisa que não polua, que não destrua, que seja mais sustentável, é uma demanda constante do país como um todo. E em termos de Nordeste, de Brasil e de mundo, a gente tem isso”, conceitua.
Na Unit, a rede também irá interagir com até 10 projetos do PEP e de outros programas de ciência e inovação, incluindo o Centro Sergipe de Combustíveis Verdes e Carbono Zero (SEVerde), centro temático de pesquisa e produção de biocombustíveis, hidrogênio verde e captura de carbono, e o DescarboNE, voltado à reestruturação de laboratórios multiusuários e ao desenvolvimento de tecnologias nas áreas de descarbonização, bioeconomia e combustíveis sustentáveis.
Expertise compartilhada
Além dos pesquisadores e laboratórios da Unit, o INCT Biofábricas tem a participação de pesquisadores e laboratórios das universidades federais de Santa Catarina (UFSC), Amazonas (UFAM), Bahia (UFBA), Rio de Janeiro (UFRJ) e Santa Maria (UFSM/RS), além da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Católica de Brasília (UCB/DF), do Instituto Federal Goiano (IF Goiano/GO) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial em Santa Catarina (Senai/SC). Há ainda a colaboração de pesquisadores de universidades dos Estados Unidos, Canadá, Espanha, México, Argentina, Dinamarca, Polônia, Coreia do Sul, Índia e Paquistão.
A rede se formou em dezembro de 2025, com financiamento de R$ 11,1 milhões em recursos do CNPq. Além das pesquisas já em andamento, a expectativa é de que as universidades colaborem mutuamente com o andamento de pesquisas e projetos já em andamento, além de fazer outros trabalhos em conjunto, dentro do conceito de rede da INCT. “Exemplo: a gente está desenvolvendo um sistema, mas não tem todas as condições de fazer análise de toda a tecnologia, ou não tem como escalar isso. Existe outro centro que sabe escalar o produto, mas não tem a tecnologia que nós temos aqui. E tem outro centro que é muito bom de análise, mas não consegue escalar e não tem a tecnologia. A ideia do projeto como um todo é colocar todo mundo junto pra conversar e trocar informações, resume Dariva.
“O que uma instituição não tem, a outra pode complementar. Isso é uma ideia de compartilhamento de apoio. Cada universidade e cada grupo de pesquisa têm suas expertises e estão ligadas por um eixo comum que é no contexto de biofábrica, a partir desses bioinsumos para produzir produtos de valor agregado ou processos de valores que vão ser mais sustentáveis para a geração dos produtos. Existe também a expertise na colaboração, a troca de alunos e o olhar característico para cada região ou território em que essas instituições estão localizadas e atendendo as necessidades locais”, acrescentou Ranyere.
A meta do grupo é produzir pelo menos dez novos produtos e bioprocessos nos próximos anos, além de gerar até R$15 milhões em novos negócios e além de auxiliar na criação de pelo menos uma nova startup por região brasileira, a partir dos resultados de suas pesquisas.
O que é um INCT?
Os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs) são centros de pesquisa multicêntricos brasileiros que reúnem universidades, institutos federais, centros de pesquisa, fundações federais e estaduais de pesquisa e parques tecnológicos. Eles constituem um programa implementado desde 2005 pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), para incentivar a participação de pesquisadores e bolsistas em estudos sobre temas de grande interesse nacional, como energia, nanotecnologia, políticas públicas, agricultura, saúde, meio ambiente, engenharia, computação, entre outros.
O INCT Biofábricas é o segundo que conta com a participação do PEP/Unit. O primeiro é o INCT Capicua, dedicado à (Bio/Foto)Catálise, Adsorção e Intensificação de Processo para a Captura e Utilização de CO². Ele surgiu em dezembro de 2022, a partir de um projeto da Universidade Federal do Ceará (UFC), e tem a participação de 10 professores e pesquisadores do PEP/Unit, coordenados pela professora Sílvia Maria Egues, além de outras seis universidades brasileiras e quatro estrangeiras.
*Com informações da UFSC