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Aracaju (SE), 06 de julho de 2026
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 04/07/2026
Pub.: 06 de julho de 2026

A Fumaça de Satanás :: Por José Lima Santana

José Lima Santana*
Pe. José Lima Santana
A Igreja Católica conheceu ao longo dos tempos várias cisões, desde os seus primórdios, enfrentando teses tidas como heréticas. Muitas. Depois, vieram as separações dos ortodoxos, protestantes e por aí afora. Cada segmento foi se separando e se formulando ao seu bel prazer. Mas, tomaram os seus caminhos longe de Roma.
 
Compreensões diversas sempre existiram em qualquer outra instituição composta por seres humanos. Na Igreja Católica, com o advento do Concílio Vaticano II, surgiram algumas contrariedades. Alguns prelados demoraram a aceitar a organização da Igreja, a partir dali, e outros fizeram de conta que a aceitaram. Com o tempo, todavia, as abóboras foram se ajeitando com os solavancos da carroça, como dizemos por aqui.  Pois bem.
 
Uma voz revoltosa fez-se ouvir, a do arcebispo francês Marcel Lefebvre (1905-1991), que, em 1970, cinco anos após o término do Concílio, fundou a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, uma comunidade para formar seminaristas nos ritos tradicionais, na vila de Écône, na Suíça. Durante as sessões do Concílio, Marcel François Marie Joseph Lefebvre liderou a corrente dos conciliares ultraconservadores. Corrente ultraminoritária. 
 
Registre-se, por oportuno, que as Constituições, os Decretos e as Declarações do Concílio foram aprovados por esmagadora maioria dos padres conciliares. Os descontentes formavam ínfima minoria. Estes “gatos pingados” queriam a Igreja atolada nas disposições do Concílio de Trento (1545-1563). Ora, cinco séculos depois, a Igreja precisava atualizar sua orientação sem afastar-se do tripé que a sustenta: as Sagradas Escrituras, a Tradição Apostólica e o Magistério. Assim foi feito. 
 
Os “gatos pingados” que se apegavam a Trento não entenderam da necessidade de a Igreja estar preparada para enfrentar o mundo, não cedendo ao mundo, mas aprendendo a conviver no mundo, pois é no mundo que ela está, para anunciar o Reino de Deus, que não é deste mundo. 
 
Lefebvre liderou, então, os tradicionalistas, mas de forma dura, resistindo a Roma. 
 
Em 1975, após um surto de tensões e desobediência à Santa Sé, Lefebvre foi condenado a dissolver a sociedade, mas ignorou a decisão e continuou a manter as suas atividades. Em 1988, contra a proibição expressa do Papa João Paulo II, consagrou quatro bispos em desobediência ao Papa. A Santa Sé declarou imediatamente que ele e os outros bispos que participaram da cerimônia incorreram em excomunhão automática sob o direito canônico católico, que Lefebvre se recusou a reconhecer. 
 
Em 2009, o Papa Bento XVI, com boa fé, suspendeu a excomunhão dos quatro bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio, que haviam sido ordenados sem autorização papal em 1988. O objetivo era iniciar um diálogo para trazer o grupo ultratradicionalista de volta à plena comunhão com a Igreja. Em vão. Eles mostraram o que sempre almejaram: desafiar Roma. Viver em Roma, porém sem Roma. Ou seja, continuar a usufruir da Igreja sem estar em comunhão com a Igreja. Tinham, pois, que buscar o seu lugar fora da Igreja. Não querem comunhão? Declarem-se ou sejam declarados oficialmente cismáticos, separados. Cada um para o seu lado. Será melhor assim. A Sociedade cuidará de cerca de 1 milhão de fiéis, enquanto a Santa Sé cuidará de 1,4 bilhão de seguidores de Cristo, congregados no catolicismo. 
 
Recuemos um pouco no tempo. No começo da década de 1970, os tempos estavam agitados, no mundo e na Igreja. Vivia-se a imediata época pós-Concílio Vaticano II. O Papa Paulo VI escreveu uma carta que permaneceria inédita até 2018, quando o conteúdo foi revelado no livro “La barca di Paolo” (“A barca de Paulo“), do pe. Leonardo Sapienza, regente da Casa Pontifícia.
 
Era 29 de junho de 1972. Paulo VI tinha cada vez mais nítida a impressão de que existia algo de profundo e de negativo que afligia a Igreja crescentemente. O caminho da secularização e a falta de unidade interna estavam se tornando dois grandes problemas para a Igreja no mundo inteiro.
 
Inquieto, o Papa escreveu: “Diríamos que, por alguma fresta misteriosa – não, não é misteriosa; por alguma fresta, a fumaça de Satanás entrou no templo de Deus. Há dúvida, há incerteza, há problemática, há inquietação, há insatisfação, há confronto”.
 
Prosseguiu, o Sumo Pontífice: “Não se confia mais na Igreja. Confia-se no primeiro profeta profano que vem nos falar em algum jornal, para correr atrás dele e lhe perguntar se tem a fórmula para a vida verdadeira. Entrou, repito, a dúvida em nossa consciência. E entrou por janelas que deviam estar abertas à luz: a ciência”!
 
Paulo VI sentia as durezas das chagas no pós-Concílio: “Acreditava-se que, depois do Concílio, viriam dias ensolarados para a história da Igreja. Advieram, porém, jornadas de nuvens, de tempestade, de escuridão, de busca, de incerteza… Tentamos cavar abismos em vez de preenchê-los…”.
 
Na última terça-feira, 1º deste mês, a Sociedade criada por Lefebvre ordenou outros quatro bispos, na Suíça, contrariando a Santa Sé. O Papa Leão XIV, em carta, exortou a Sociedade para que permanecesse em comunhão. Não foi ouvido. Nada mais resta a fazer. Excomunhão. Cisma. A fumaça de satanás não vencerá a Igreja de Jesus, pois ele mesmo o disse: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16,18).
 
*Padre (Paróquia Santa Dulce dos Pobres – Aruana - Aracaju), advogado, professor da UFS, membro da ASL, da ASLJ, da ASE, da ADL e do IHGSE.

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