Por que os imóveis continuam se valorizando em Aracaju mesmo com juros altos :: Por Marcelo Carvalho
Marcelo Carvalho*
Por que os imóveis continuam se valorizando em Aracaju mesmo com juros altos A Selic está em 14% ao ano desde a reunião do Copom em 5 de agosto (Banco Central do Brasil), patamar que ainda encarece o crédito. Mesmo assim, os imóveis residenciais em Aracaju subiram 1,17% só em julho. No acumulado de 2026, a alta chega a 7%, a terceira maior entre as 22 capitais pesquisadas pelo Índice FipeZAP. Em 12 meses, a valorização soma 9,14%, quase o dobro da média nacional do índice, de 5,46% (Índice FipeZAP).
O FipeZAP mede preços anunciados de apartamentos prontos, não o valor final das transações. É a ressalva de sempre, mas o indicador segue sendo a referência mais consistente disponível para acompanhar a trajetória dos preços residenciais no país.
Feita a ressalva, resta a pergunta óbvia: por que os preços sobem justamente quando o crédito fica mais caro?
A resposta está em separar duas coisas que o senso comum costuma tratar como uma só. Os juros afetam a velocidade das decisões e a capacidade de financiamento das famílias. Não afetam da mesma forma o custo de produzir um imóvel, a disponibilidade de terrenos bem localizados nem o tempo que uma incorporação leva entre a compra do terreno e a entrega das chaves. Preço imobiliário nasce de oferta, custo de produção e localização tanto quanto nasce de taxa de juros.
O custo de construir também subiu
Os dados do Sinapi, calculado pelo IBGE em parceria com a Caixa, mostram que o custo da construção civil em Sergipe acumulou alta de 7,60% nos 12 meses encerrados em junho de 2026, com variação de 0,96% só naquele mês (Agência de Notícias IBGE).
Esse número importa porque a oferta de imóveis não responde à demanda com a mesma velocidade que o crédito responde à Selic. Entre encontrar o terreno, aprovar o projeto e entregar o empreendimento passam-se anos. Uma construtora não amplia a produção de um mês para o outro porque a procura aumentou, e os custos já embutidos na obra não desaparecem quando o Copom corta juros.
Aracaju parte de um patamar mais baixo
Em julho, o metro quadrado em Aracaju foi vendido, em média, por R$5.764, o menor valor entre as 22 capitais da amostra. A média do índice nacional estava em R$9.900. A distância não garante que Aracaju vá continuar valorizando acima da média, mas explica parte do espaço que a cidade ainda tem, especialmente porque o mercado aracajuano não é uniforme. Bairros a poucos quilômetros de distância, com infraestrutura e disponibilidade de terreno diferentes, se comportam de forma diferente. Terreno bem localizado é recurso finito, e à medida que uma região se consolida, a oferta de área boa encolhe.
Esse cenário também tende a mudar o comportamento do consumidor: comparar mais, adiar decisões e exigir relação clara entre preço e valor construído tende a virar padrão em ambiente de crédito caro. Isso pressiona a diferença entre subir preço e entregar produto que justifique o preço, algo que depende de qualidade construtiva, segurança jurídica e leitura correta de onde e para quem construir.
O que os juros realmente explicam
Nada disso torna a Selic irrelevante. Crédito mais barato amplia o número de famílias com acesso à compra. O que os números de Aracaju mostram é que juros altos podem reduzir o ritmo do mercado sem necessariamente derrubar preço, porque são fenômenos diferentes. Enquanto a Selic segue em 14% (Banco Central do Brasil), os preços residenciais da capital sergipana acumulam 9,14% em 12 meses e 7% em sete meses de 2026 (Índice FipeZAP).
A pergunta mais útil daqui para frente não é se o imóvel consegue se valorizar com juro alto. Os números já respondem isso. É quais imóveis, em quais regiões e com quais atributos vão continuar gerando valor para um comprador cada vez mais seletivo.
*Marcelo Carvalho, Formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Sergipe. Atua há mais de 28 anos em jornalismo e comunicação institucional.