FLUTUANTE 970 250 PMA JULHO
Aracaju (SE), 13 de julho de 2026
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 11/07/2026
Pub.: 13 de julho de 2026

O Convocado :: Por José Lima Santana

José Lima Santana*

José Lima Santana - Foto: Arquivo Pessoal

Tempo de convocação para o selecionado de futebol. Não havia um técnico nativo em boas condições para comandar a Seleção. Buscou-se lá fora um técnico renomado com títulos às mãos cheias. Os torcedores alvoroçaram-se. A imprensa entrou em êxtase. Enfim, um técnico não nativo. Um dos maiores. Porém, como nem tudo é alegria na terra que ama a bola, umas vozes mixurucas deram para apontar defeitos no técnico de fora. “Ele nunca comandou um selecionado. Talvez nem saiba selecionar”. Vozes ferinas, línguas de trapo sempre são encontradas por aí. E no mundo do futebol parece que elas proliferam como ervas daninhas. 

As convocações foram sendo anunciadas. Elogios de uns, caras torcidas de outros. Nas prévias que antecediam a Copa, o time comandado pelo não nativo capengou, como já vinha capengando, mas conseguiu a classificação. Ufa! Seria uma vergonha se não conseguisse. Seria a primeira vez, desde que inventaram a Copa, que o time do povoado Brasinha não participaria. Terminadas as prévias, era chegada a hora da convocação definitiva. Muitos rumores. Muitos palpites. 

O mister (não sei de onde veio essa mania de chamar técnicos não nativos de mister; coisa de futebol chinfrim) foi elogiado aqui, criticado ali, em face das convocações. Até Dona Tertinha do finado Zé de Tibúrcio meteu o bedelho para esculhambar o técnico. Logo ela, que nunca assistiu a uma partida de futebol! Um a um, os jogadores foram sendo convocados, dos goleiros aos atacantes. “Ah, por que não convocou Pedro de João Perninha”? Alguém protestou. “Deixou de lado Endrigo de Maria de Julião”? Outro esperneio. E por aí foi. Na terra dita do futebol, há mais técnicos do que torcedores. 

O Selecionado não estava completo. Restava uma vaga. O problema que o técnico não nativo tinha era por conta do “menino” Neyvaldo, veterano em Copas, mas contundido mais uma vez, apelidado de Cai-Cai. Ah, suplício infeliz do “menino” Neyvaldo e, também, do técnico Carlito! Uma situação shakespeariana: ser ou não ser; convocar ou não convocar. As discussões ganharam força. Divisão. Uns a favor, outros contra a convocação do Cai-Cai. Tito de Belarmino era o mais exaltado dentre os defensores da convocação. “Não tem ninguém igual a ele”. Do lado contrário, Severino do finado Paulo Corrupio subiu nos tamancos: “Esse monstro só pensa em ganhar dinheiro. Não joga mais nada”. 

Dúvida cruel do técnico não nativo, o Carlito. Segundo as línguas mais ferinas, as mais compridas, as mais maledicentes, houve uma série de injunções internas e externas para que o “menino” Neyvaldo fosse convocado, apesar de estar lesionado. “Fazer o quê na Copa? Ficar no banco”? Para alguns não fazia sentido a convocação de um jogador lesionado. Para outros, levá-lo seria bom, pois apenas a presença dele no banco já assustava muitos jogadores contrários. “Quem ele vai assustar? O Rolando? O Memessi? O Mbapetinho? Ele não assusta nem alma penada que dirá...”. 

Ah, como é duro ir à Copa! Copa Municipal de Futebol de Água Branca, de quatro em quatro anos realizada, e reunindo os times de pelada dos quarenta e oito povoados. Donato Topete, vereador do povoado América Maior, uma das três sedes dos jogos, foi logo dizendo que não aceitava em seu território ninguém que não fosse cristão comprovado, nem que tivesse fardamento vermelho, coisa de comunistas. A garapa azedou. Todavia, as vontades de Donato eram pau-e-casca. Donato Topete tinha poder. Bancaria as eleições do prefeito Fefê Laranjinha. Tinha força para enfrentar, se fosse preciso, a Rússia e a China juntas. Era o que ele dizia. 

Enfim, entre tapas e beijos, começou a Copa. A Seleção do povoado Brasinha, a do técnico não nativo, começou capengando. Um empate chocho. Depois, parecia que iria deslanchar. Ganhou duas, mas sem bom convencimento. No primeiro mata-mata, quase se atolou diante do time do povoado Olhos Apertados. Que nome, hein? Acabaria ganhando de virada. De toda forma, animou a torcida, até mesmo alguns dos incrédulos. Paixão é paixão.

Nas benditas oitavas, alguns dos grandes foram sendo varridos. A Seleção de Brasinha toparia com a Seleção de Bredoega, que nunca Brasinha tinha vencido nas quatro partidas contra ela disputadas. Além disso, tinha o atacante Rolando, de cabelo comprido, amarrado com uma tira. Um goleador. Era preciso meio time para marcá-lo. A Seleção de Brasinha recebeu logo um pênalti. O cobrador soprou três vezes, de nervosismo. Bateu e perdeu. Oh, suprema miséria! Time sem gás, sem vontade, dorminhoco.

Rolando, o do cabelo amarrado, teve duas chances, no segundo tempo. Pimba! Marcou dois gols. Tormento! Lá para as tantas, com a derrota à vista, o “menino” Neyvaldo foi acionado. Deu daqui, deu dali, e nada. Mas, suprema glória! Outro pênalti para Brasinha. Esperança, ainda que tardia. O “menino” Neyvaldo bateu. Converteu. E ficou nisso. Brasinha 1 x 2 Bredoega.

Frustração da galera. Xingamentos contra a Seleção e contra o técnico não nativo. Xandoca de Maria Galega advertiu: “Esse tal Rolando é como Sansão, a força dele está no cabelo. E ninguém se lembrou de cortar. Deu no que deu”. Podia ser. 

*Padre (Paróquia Santa Dulce dos Pobres – Aruana - Aracaju), advogado, professor da UFS, membro da ASL, da ASLJ, da ASE, da ADL e do IHGSE.

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