As quatro vaquinhas de Sergipe :: Por Marcio Rocha
Marcio Rocha*
Lembro bem de uma entrevista que concedi ao jornalista Luiz Carlos Focca, quando falávamos sobre a produção de grãos em Sergipe. Em tom de brincadeira, usei uma expressão para explicar a pequena participação do estado nesse segmento agrícola e disse que “Sergipe tem umas quatro vaquinhas”, porque não era o tema de discussão. A frase, dita de forma irreverente e claramente contextualizada na comparação com grandes produtores de grãos do país, acabou gerando uma polêmica inesperada. Muitos não perceberam o tom bem-humorado da observação e interpretaram a fala literalmente. A ironia é que a realidade mostra justamente o contrário: quando o assunto é produção de leite, o menor estado do Brasil se transformou em um protagonista nacional.
Hoje Sergipe produz cerca de 0,68 bilhão de litros de leite por ano, o que coloca o estado entre os dez maiores produtores do país. Para um território pequeno, de apenas 21 mil quilômetros quadrados, trata-se de um feito econômico expressivo. Em um Brasil continental, onde estados gigantes dominam as estatísticas agropecuárias, ver Sergipe aparecer entre os líderes nacionais da cadeia do leite mostra que competitividade não depende apenas de tamanho territorial, mas de organização produtiva, tradição e capacidade de adaptação.
Esse resultado ganha contornos ainda mais impressionantes quando se observa de onde vem boa parte dessa produção. O coração da pecuária leiteira sergipana está no Alto Sertão, região historicamente marcada por estiagens e desafios climáticos. Ainda assim, o sertão transformou-se no grande polo leiteiro do estado.
Três municípios sergipanos figuram entre os 20 maiores produtores de leite do Brasil: Poço Redondo ocupa a 10ª posição nacional, Porto da Folha aparece em 17º lugar, e Nossa Senhora da Glória figura na 19ª colocação. É um desempenho que chama atenção não apenas pelo volume produzido, mas pela capacidade de uma região semiárida sustentar uma cadeia produtiva de escala nacional.
A pecuária leiteira no sertão sergipano carrega uma característica econômica fundamental: ela distribui renda. Diferentemente de outras atividades agropecuárias que exigem grandes áreas ou investimentos intensivos em mecanização, o leite permite a participação de pequenos e médios produtores. Isso cria um tecido econômico capilarizado, onde milhares de famílias dependem da atividade para manter suas propriedades, gerar renda e movimentar o comércio das cidades do interior.
Não é exagero dizer que, em muitos municípios do sertão, o leite sustenta a economia local. Cada litro produzido na propriedade rural gera uma cadeia de efeitos: transporte, processamento industrial, comercialização, consumo e circulação de renda nos pequenos negócios urbanos. O leite, nesse sentido, ultrapassa a dimensão agropecuária e passa a ser um verdadeiro motor econômico regional.
Há também um significado simbólico nessa trajetória. Durante décadas, o sertão nordestino foi apresentado quase exclusivamente pela ótica da escassez: seca, dificuldade e limitação produtiva. A realidade construída pela cadeia leiteira em Sergipe ajuda a desmontar essa narrativa. O sertão continua desafiador, mas mostrou que, com conhecimento técnico, organização produtiva e persistência do produtor rural, é possível transformar adversidade em oportunidade.
O menor estado do Brasil, portanto, ensina uma lição importante ao país. O desenvolvimento econômico não depende apenas de grandes territórios ou de abundância natural. Ele nasce, muitas vezes, da inteligência produtiva, da capacidade de adaptação e da força de quem vive e trabalha na terra.
No fim das contas, aquela brincadeira sobre quatro vaquinhas acabou servindo para revelar uma verdade maior. No sertão de Sergipe, as vacas não são poucas. Elas representam uma cadeia produtiva robusta, uma fonte de renda para milhares de famílias e um exemplo de como o interior nordestino pode ocupar espaço de destaque no cenário agropecuário nacional. E que nossas quatro vaquinhas continuem produzindo muito para elevar ainda mais nossa posição no cenário leiteiro do país.
*Jornalista formado pela UNIT, radialista formado pela UFS e economista formado pela Estácio, especialista em jornalismo econômico e empresarial, especialista em Empreendedorismo pela Universitat de Barcelona, MBA em Assessoria Executiva e MBA em Business Intelligence com experiência de 26 anos na comunicação sergipana, em rádio, impresso, televisão, online e assessoria de imprensa.