Projeto em Aracaju reúne mulheres para preservar saberes ancestrais do mangue e do terreiro
Em meio ao mangue e às marés da comunidade da Zenza, em Areia Branca, zona de expansão de Aracaju, mulheres marisqueiras e mulheres de terreiro se reuniram para manter vivos saberes ancestrais ligados às ervas, ao cuidado e à relação com o território.
Os encontros fazem parte do projeto “Mulheres de Mar – Encruzilháguas de Saberes”, desenvolvido pelo Ilê Àṣẹ Iyá Agbá L’odò Omiró em parceria com o Instituto Aláfia Social/Casa de Mar – Ponto de Cultura, iniciativa que integra a Rede Cultura Viva e articula formação cultural, pesquisa comunitária e práticas tradicionais.
Logo no primeiro dia, com o tema “Areia Branca: Território de Memórias e Saberes”, o acolhimento se deu em torno de uma mesa de sabores conduzida pela Yabassé Kátia Aragão. Inspirada em elementos do orixá Ogum, a partilha reuniu alimentos que evocam força, sustento e abertura de caminhos. Entre eles, o caldo verde de inhame destacou-se como símbolo de memória e permanência dos saberes no território.
As oficinas, conduzidas por mulheres da própria comunidade, revelam conhecimentos que atravessam gerações. Folhas como hortelã, manjericão, samba-caitá e aroeira aparecem em chás, banhos e preparos que articulam cuidado físico, espiritual e coletivo.
No segundo encontro, realizado no dia 25 de março, com o tema “Biomas e Quintais: Falares e Saberes das Ervas”, as discussões se voltaram à relação entre bioma, território e acesso aos saberes tradicionais. As participantes compartilharam experiências sobre as transformações ambientais e os impactos na continuidade dessas práticas.
“Um xirê de folhas que dançaram de mãos em mãos despertando memórias, histórias e saberes sobre suas funções medicinais, espirituais e culinárias, conduzindo reflexões sobre o território e os impactos que vêm comprometendo essa relação de cuidado”, afirma a Ìyálòrìá¹£à Marta Salles, coordenadora do projeto.
Já no terceiro encontro, dedicado às confluências entre mulheres de terreiro e marisqueiras, as atividades abordaram o cuidado como prática coletiva. A exibição do filme O Cuidar dos Terreiros abriu espaço para reflexões sobre os terreiros como territórios vivos de saúde, memória e resistência. Em roda, ao som de uma concha passada de mão em mão, emergiram palavras como mar, memória e pertencimento, elementos que revelam a profundidade da relação entre corpo, território e ancestralidade.
No quarto encontro, “Na Cozinha das Ervas: Práticas Manuais de Axé e Maré”, as participantes vivenciaram práticas de autocuidado e reconexão. Conduzido pela Yaô/Muzenza Chenya Coutinho, o momento envolveu o preparo de escalda-pés e argilas, ativando saberes ancestrais por meio do toque, da água e da terra. Na cozinha, espaço central do cuidado, as marisqueiras Juliana Hora e Marivalda Querino compartilharam saberes sobre lambedores, enquanto a Ìyálòrìá¹£à Marta Salles orientou o preparo de banhos de ervas. O encontro também evidenciou o papel dessas práticas no enfrentamento ao racismo religioso e ambiental.
O ciclo foi encerrado com o encontro “Entre Mangue e Terreiro: Mulheres, Território e Resistência”, que reuniu reflexões sobre as violências que atravessam o território e a importância dos saberes tradicionais na defesa da vida e das culturas locais. A Ìyálòrìá¹£à Marta Salles destacou o racismo religioso e ambiental, enquanto Alessandra Santos trouxe uma contextualização histórica dessas violências e apresentou o conceito de Ubuntu como caminho coletivo.
A dinâmica do espelho, inspirada em Iemanjá, convidou as participantes a acessarem memórias, dores e conquistas, reforçando vínculos e identidades. Também foram distribuídos kits para as marisqueiras, com itens voltados à saúde e ao bem-estar, fortalecendo o cuidado com o corpo e o território.
Encerrado em canto coletivo, o encontro reafirmou a força das mulheres e a continuidade dos saberes. “Esse projeto nasce do reconhecimento de que as mulheres da comunidade são guardiãs de conhecimentos fundamentais sobre o território, sobre as plantas e sobre as formas de cuidado coletivo. Ao reunir mulheres marisqueiras e mulheres de terreiro, fortalecemos esses saberes e garantimos que eles continuem sendo transmitidos para as próximas gerações”, destaca Marta Salles.
Realizadas na Casa de Mar, espaço cultural do Instituto Aláfia Social reconhecido como Ponto de Cultura, as atividades, que ainda contarão com dois encontros em escolas da região, resultarão na produção de uma cartilha com a cartografia das ervas medicinais do local e em uma exposição fotográfica com registros das vivências.
A iniciativa é realizada com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), por meio do Edital nº 011/2024 - Cultura Viva (Pontos e Pontões de Cultura), executado pela FUNCAJU.