Estado reconhece novos mestres da cultura popular e reforça memória e tradições de Sergipe
Mais cinco sergipanos foram diplomados como Patrimônio Vivo da Cultura Sergipana
Sergipe celebrou a diplomação de mais cinco sergipanos reconhecidos como Patrimônios Vivos da Cultura Sergipana. A solenidade, realizada no Memorial de Sergipe Professor Jouberto Uchôa, na Orla da Atalaia, em Aracaju, reuniu representantes da cultura, autoridades e comunidades tradicionais para celebrar trajetórias marcadas pela preservação de saberes no estado.
Foram reconhecidos, nesta edição, nomes cujas histórias atravessam gerações e territórios: a parteira e rezadeira Zefa da Guia; o escultor Véio; o mestre do Reisado Marimbondo, Mestre Sabau; o mestre da Chegança, Zé Rolinha; e a rendeira Alzira Alves Santos.
A iniciativa foi promovida pela Fundação de Cultura e Arte Aperipê de Sergipe (Funcap), em parceria com a Secretaria Especial da Cultura de Sergipe (Secult) e o Conselho Estadual de Cultura, dentro do Programa de Registro de Patrimônio Vivo. Além do título, os contemplados passam a receber uma bolsa vitalícia e assumem o compromisso de transmitir seus conhecimentos, garantindo a continuidade das tradições.
A diplomação dos novos Patrimônios Vivos reafirma o compromisso de Sergipe com a valorização de seus mestres e mestras, guardiões de saberes que mantêm viva a memória coletiva do estado. Ao reconhecer essas trajetórias, o programa celebra o passado e assegura que esses conhecimentos continuem sendo transmitidos, fortalecendo a identidade cultural sergipana para as futuras gerações.
Vida, fé e resistência
Na comunidade quilombola Serra da Guia, em Poço Redondo, Josefa Maria da Silva Santos, a Zefa da Guia, construiu uma vida dedicada ao cuidado. Aos 81 anos, ela resume o sentimento diante da homenagem: “Me sinto honrada, com muito amor”.
Parteira e rezadeira, estima ter realizado mais de cinco mil partos ao longo das décadas, sempre guiada pela fé e pelo compromisso com o outro. “Confio em Deus e só faço o bem”, afirmou a mestre da cultura popular. Sua atuação ultrapassa o ofício, consolidando-a como liderança comunitária e referência de acolhimento para além de Sergipe por uma vida dedicada à fé, cura e solidariedade, assim como por ser símbolo de resistência cultural no sertão.
Reisado e tradição
Em Pirambu, Antônio dos Santos, o mestre Sabau, mantém viva uma tradição que atravessa séculos. Líder do Reisado Marimbondo, inserido na brincadeira desde os 10 anos, ele herdou a missão de conduzir o grupo, cuja origem remonta a 1805. “Foi do meu bisavô para meu avô, da minha mãe para mim, e, agora, já passa para filhos, netos e bisnetos”, contou.
O reisado, que reúne música, dança e religiosidade, segue como espaço de convivência familiar e transmissão de valores. “A gente anda por todo canto do Brasil brincando o reisado, já fomos a Pernambuco, Brasília e São Paulo, por exemplo. E só deixo quando Deus me chamar, mas fica os filhos no meu lugar”, relatou, confiante de que a tradição seguirá viva nas próximas gerações.
Arte e memória
Natural de Nossa Senhora da Glória, no sertão sergipano, o artista plástico Cícero José dos Santos, conhecido como ‘Véio’, transformou a madeira em linguagem artística. Autodidata, construiu uma obra marcada por narrativas do universo nordestino, traduzindo em suas peças o cotidiano, os causos e a identidade do povo sertanejo.
Ao comentar o reconhecimento como Patrimônio Vivo, o artista destaca a importância da valorização da cultura sergipana dentro e fora do estado. “É importante, não só para mim, mas para todos os sergipanos. O estado de Sergipe também precisa ser divulgado na arte, na cultura e nas tradições do povo nordestino. Para mim é muito importante representar Sergipe em outros estados e países e mostrar que o nosso estado também é um dos maiores em termos de arte e de valorização”, afirma.
Com cerca de 70 anos dedicados à arte, o trabalho de Véio ganhou reconhecimento dentro e fora do país, sem perder o vínculo com as origens. Mais do que esculturas, suas obras preservam modos de vida e memórias, reafirmando a arte como instrumento de pertencimento.
Renda irlandesa
Em Divina Pastora, a renda irlandesa resiste pelas mãos de mulheres como Alzira Alves Santos. Aos 77 anos, são mais de seis décadas dedicadas ao ofício. “Eu gosto de ensinar e gosto de explicar”, diz, ao falar da transmissão do saber para novas gerações.
Responsável por formar diversas rendeiras, a mestra explica que o reconhecimento é uma conquista coletiva. “Estou tão satisfeita, sinto-me honrada por esse reconhecimento. Esse governo acolheu as rendeiras e dá muita força ao nosso ofício. Eu faço os bordados há mais de 70 anos e continuo a fazer e ensinar.
Para Dona Alzira o título também fortalece o futuro da tradição. “Esse reconhecimento nos valoriza e valoriza a renda e outras pessoas vão querer aprender também”, pontua.
Mestre entre mestres
Em Laranjeiras, o renomado mestre da Chegança Almirante Tamandaré, Batalhão Primeiro de São João Laranjeiras, José Ronaldo de Menezes, conhecido como mestre Zé Rolinha, é sinônimo de cultura popular. Seu envolvimento começou ainda na infância, nos grupos de folguedos, onde aprendeu com familiares e mestres mais antigos.
“Essa diplomação dos mestres é uma satisfação. É um prazer o fazer cultural, porque um povo sem memória é um povo sem história. Vamos continuar preservando a nossa memória, seguindo a nossa história dos mitos, dos ritmos da nossa cultura popular e das crendices do povo e superstições. E vamos seguindo em frente, fazendo a nossa cultura popular, elaborando todos os nossos conhecimentos, que vêm do passado e que estão presente, tradicionalmente, centenáriamente, como guardiões da nossa cultura popular”, enfatizou.
Reconhecido como ‘mestre dos mestres’ na sua cidade, ele dedica sua vida à preservação e transmissão dessas manifestações, que já foram levadas e representaram Sergipe e o Brasil até mesmo fora do país. “É muito importante que os mestres sejam conhecidos em vida, é claro que tem que obedecer aos requisitos culturais. Pois a arte popular não é chegar e fazer de qualquer jeito, os grupos que represento, por exemplo, têm história, são fatos verídicos do passado que continuam presentes por meio de uma manifestação popular”, defendeu.
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