Araripe Coutinho é tema de mestrado na Bahia
Araripe Coutinho - Foto: Arquivo pessoal
Dez anos após a morte, o poeta Araripe Coutinho foi tema do Mestrado defendido pelo jornalista sergipano Jaime Neto na Universidade do Estado da Bahia (UNEB), na cidade de Alagoinhas. Intitulada “Araripe Coutinho: como alguém que sempre esteve aqui e as inquietações de uma poética performaticamente queer”, a pesquisa para a dissertação buscou ressaltar a poesia de Coutinho, dentro do universo Queer, trazendo assim a produção deste escritor e outros autores que estão situados à margem da sociedade, justamente, por não seguirem o padrão da heterossexualidade vigente ainda hoje. Jaime trouxe à tona escritores que, “juntos ao poeta, deixaram um legado de apontamentos decoloniais que precisamos beber dessa fonte hoje, mais que nunca”, afirma o mestre.
Jaime Neto defendendo a monografia de mestrado - Foto: Arquivo pessoal
Jaime afirma que ao embarcar na poesia de Araripe, “me vi encontrando esse amigo íntimo. Cada aula, cada estudo, cada pesquisa… era um diálogo que eu mantinha com o poeta. falávamos o tempo inteiro, eu daqui e ele através de sua escrita”, frisa. O mestre também afirma que o poeta está muito vivo, basta abrir o livro “Amor sem rosto” de 1989, por exemplo, “que ele está lá e ficará pra sempre. Desde muito cedo ele se entendia enquanto escritor/poeta e ao longo de sua obra foi deixando verdadeiros relatos socioculturais e históricos que contam muito dele, do mundo que ele vivia e de suas dores”, afirma.
Chamou a atenção do jornalista o fato de todos na Bahia terem adorado descobrir Araripe Coutinho: “Compram os livros (pela internet), e despertam para notar que existe um apagamento vigente, tanto político quanto socio-histórico e religioso, para com a população LGBTQIAPN+.”, conta. Jaime lamenta que: “a morte de certas pessoas signifique os anulamentos delas e de suas obras, ideias… e isto não é algo apenas em Sergipe, mas mundialmente quando tratamos de figuras gays, lésbicas, trans, não-binárias, etc”, diz. Quanto ao estado de Sergipe, o jornalista observa que: “o aniquilamento social e histórico de pessoas como Araripe Coutinho e Ilma Fontes, por exemplos, vem acontecendo de forma visível e sem consequências nenhuma a quem trabalha com essa manutenção dos preconceitos”, alerta.
O jornalista Jaime e o poeta Araripe - Foto: Arquivo pessoal
Onze livros
Araripe Coutinho publicou 11 livros de poemas, entre eles “Amor Sem Rosto” (1990), “Passarador” (1997), “O Demônio Que É O Amor” (2002) e “Como Alguém Que Nunca Esteve Aqui” (2005). Segundo Eduardo Waack, os versos do poeta são finos, repletos de erudição e amor, erotismo e ternura. Religiosidade profana”. No lançamento do livro “Obra Poética Reunida”, o saudoso Araripe recitou: “Eu não deveria ter nascido. Quando vi, estava eu aqui, meio lama no imenso mundo retratado, cheio de quadrúpedes rondando a minha sala. Pedi para voltar. Gritei muito, antes de ouvir uma voz dizendo: desça e arrase!”. Supimpa!