FLUTUANTE Clube de Aventureiros - 900 x 450
Aracaju (SE), 06 de fevereiro de 2026
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 06/02/2026
Pub.: 06 de fevereiro de 2026

Perdão, "Orelha”! :: Por José Lima Santana

José Lima Santana*
José Lima Santana - Foto: Arquivo Pessoal
Clamor geral. Por quê? Tão somente por causa de um cachorro, um cão vadio, sem dono, vira-lata, que vagava pelas ruas e praia de Costa Brava, ao Norte de Florianópolis, uma terra cujo governador quis abolir, por lei, as cotas para ingresso em unidades de ensino superior do próprio Estado. E de pensar que, por aqui, a Universidade Federal de Sergipe, no tempo do reitor Josué Modesto dos Passos Subrinho, antecipou-se à legislação federal, criando as cotas para ingresso em nossa querida UFS. Esses tabaréus sergipanos são cheios de graça. Somos mesmo! É do nosso feitio. Somos malinos. 
 
Voltando ao cachorro de nome “Orelha”, a comoção ultrapassou quaisquer expectativas. Por um vira-lata? Esse povo não tem mais o que fazer? Não, não tem. E nem deveria ter. Ao ver as fotos do cão agonizando ou já morto, lembrei-me de “Rex”, um vira-lata que foi acolhido lá em casa, anos atrás. Pintado como um dálmata, mas um “dálmata” vagabundo. Pequeno, dócil, que passava o dia no canil bem cuidado e, à noite, era solto na vastidão do quintal de nossa casa, em Nossa Senhora das Dores. 
 
Vez em quando, “Rex” se soltava, corria para dentro de casa e ia ao meu quarto, onde eu estava ou deveria estar. Se estivesse sentado numa poltrona, lendo ou vendo televisão, ele se acercava, lambia meus pés e retornava ao seu canto. Se meu irmão ou minha irmã deixasse o carro dele ou dela para pernoitar lá em casa, “Rex”, invariavelmente, fazia xixi no pneu, como se quisesse deixar dito: “Aqui já tem carro”. 
 
O nosso “Rex” envelheceu. Passou do tempo dedicado aos cães. Numa sexta-feira, chegamos em casa, à noite, eu e minha mãe. Fomos informados que ele estava arreado há dois dias. Fomos vê-lo. A cena seguinte cortou os nossos corações, meu e de mamãe. Ele abriu os olhos, fez um esforço tremendo, levantou a cabeça e nos fitou. Acariciamos a cabecinha dele. E ele morreu. Foi então que eu compreendi porque muitas pessoas choram quando perdem os seus bichinhos de estimação. Neste momento, em que escrevo este texto, meus olhos setentões ficaram marejados. Por “Rex” e por “Orelha”.
 
Até onde pode chegar a maldade das pessoas? E não me venham dizer que se trata da imaturidade de adolescentes. Não! É maldade mesmo. É formação deformada. É o pouco caso com a educação que deveria vir de berço, de casa, mas que foi negligenciada nalgum momento pelos pais, pela família. Quem sabe, pela escola, no que lhe compete.
 
A crueldade deforma o caráter, ou este leva àquela, vai-se saber. “Orelha” foi covardemente martirizado. Alguém há de chamar-me de doido, de alucinado, de “aparelhado ideologicamente”. Alucinado é quem me taxar desse jeito. Ignorante. Imbecil. A minha língua pode ser como lagarta de fogo. Queima, às vezes.
 
Dois dos adolescentes que destruíram de forma criminosa, avassaladora, animalesca, a vida de “Orelha”, danaram-se para os Estados Unidos. Eles podem. Suas famílias, ao que parece, por notas dispersas na internet, tentaram cooptar testemunhas, até com o estúpido exercício da coação. A conferir tudo isso. Que exemplo essas famílias estão dando aos seus filhos desviados do bom senso e da boa educação? O que essas famílias esperam formar?
 
O que vai acontecer? A Polícia catarinense vai a fundo nas investigações? Ao que parece, um será responsável pela morte e três responsabilizados por maus tratos. A Justiça vai aplicar o que determinam as normas pertinentes, a partir do Estatuto da Criança e do Adolescente? São menores, mas são infratores. O que eles fizeram beira à insanidade. A crueldade é insana. É degenerativa. Corrói a pessoa até não mais poder. Esses adolescentes não têm um pingo de decência. Como se diz no vulgo, “não têm alma nem coração”. Não têm nada, a não ser maldade. Secos de alma e de coração. Imaginemos como devem agir com as namoradinhas, se as tiverem, ou quando as tiverem. 
 
No devido processo legal, todos têm direito à ampla defesa. Eles terão. Porém, não me venham com palavras adocicadas para eles: “Não sabiam o que estavam fazendo”. “São adolescentes sem juízo”. Não me digam asneiras como essas ou outras do mesmo quilate. Eles são desumanos. Os ferimentos que causaram ao pobre cão atestam isso. ELES SÃO ADOLESCENTES DESUMANOS. Mimados, superprotegidos, mas DESUMANOS.
 
Se eu pudesse dizer, ao cão assassinado, diria: “Perdão, ‘Orelha’, porque a sua vida foi tirada por seres ditos racionais, mas que se revelaram absolutamente irracionais. Eles não são sapiens. Não são NADA”. Merecem uma segunda chance? Todos merecem. Antes, pagando pelo que fizeram. 
 
P.S. Lembram do índio Galdino, líder pataxó, que foi assassinado em 20 de abril de 1997, em Brasília? Ele morreu carbonizado após 5 jovens da alta sociedade brasiliense atearem fogo em seu corpo, enquanto dormia num ponto de ônibus. Crueldade inominada. Quando se diz, como no verso icônico de Cazuza, que a burguesia (ou parte dela) fede, os conservadores gritam: “Isso é jargão da esquerda”! Ah, é? 
Estátua em homenagem ao cachorro Orelha, cão comunitário querido na Praia Brava em Florianópolis (SC) - Foto: Redes sociais
*Padre (Paróquia Santa Dulce dos Pobres – Aruana - Aracaju), advogado, professor da UFS, membro da ASL, da ASLJ, da ASE, da ADL e do IHGSE.


Notícias Indicadas

WhatsApp

Entre e receba as notícias do dia

Matérias em destaque

Click Sergipe - O mundo num só Click

Apresentação