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Aracaju (SE), 18 de setembro de 2026
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 18/09/2026 às 11:04
Pub.: 18 de setembro de 2026

Venta de Fole :: Por José Lima Santana

José Lima Santana*

José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal/José Lima Santana)

Venta de Fole correu, logo cedo, ao curral para a ordenha das duas vacas, Miúda e Estrela. Vaquinhas de raça pé-duro, com três ou quatro litros de leite, para o consumo da família, em leite com cuscuz, pão, beiju de tapioca ou farinha de mandioca, coalhada e uns ou outros poucos queijos de coalho. Tempo houve em que D. Gracinha, mãe de Venta de Fole, fazia requeijão. Depois que ela bateu as botas, o rosto encarquilhado como um maracujá de fim de feira, ninguém mais fez o derivado de leite preferido da família. 

Só quem já experimentou, sabe o que são fios de requeijão, na hora do cozimento. Ah, coisa boa! Parecem fios de ouro, mas ouro que se desmancha na boca, quentinhos, queimando a língua. Ah, coisa mais que boa! Na casa de Venta de Fole, requeijão passou a ser somente o comprado a ‘seu’ Dadá do João Ventura, que não o fabricava, comprando-o no sertão, na fabriqueta de Belarmino Aragão.

Naquela manhã, Venta de Fole teria um compromisso na cidade. Assunto sério, que o poderia dele fazer alguém importante na sociedade. Iria filiar-se ao partido político de João Dagoberto, adversário do prefeito Antônio de Ananias, também conhecido por Tonho Boca Preta, tal era o bigode avantajado, pintado de preto, destoando dos cabelos mais brancos do que ramas de algodão Seridó. 

“Venta de Fole, vereador, não é uma presepada do cão”? Perguntava Almerinda de Humberto Fura Calçola, puxa-saco do prefeito. Ora, Almerinda era uma despeitada, que não ia bem com as fuças de ninguém da família de Venta de Fole, porque, no passado, seu pai e seus tios andaram trocando tiros com gente da família do futuro candidato a vereador, em oposição à laia do prefeito. Houve, lá entre as duas famílias, uns cinco ou seis tiroteios, em duas gerações, naqueles tempos destemperados em que os homens ainda matavam por uma nesga de terra, por cachaça, ou por mulher, como se mulheres fossem objetos de contendas entre brutos. Nunca deveriam ter sido. E nunca deverão ser. Almerinda era rancorosa, ainda que as duas famílias tivessem baixado as armas há mais de quarenta anos. “Por mim, ainda houvera de haver mortes”, dizia ela. 

Tendo ordenhado as vacas e passado para o bucho um prato de cuscuz com leite e carne de bode frita, quase meio bule de café com leite, adoçado com raspa de rapadura, comprada na feira semanal a Liliu de Sá Francisca do finado Zeca Mosquito, Venta de Fole encilhou o cavalo ruço, montou e tocou para a cidade, onde seria recebido com festa por João Dagoberto, em seu armazém de secos e molhados, bem sortido de um-tudo. 

Coube a Durango Kid Alves Acioli, filho mais velho do comerciante, apresentar a papelada para ser preenchida e assinada por Venta de Fole, isto é, por Américo Nunes de Alvarado Silva, nome de cartório. Durango Kid... Era que João Dagoberto tinha grande entusiasmo por filmes de bangue-bangue, que eram exibidos no Cine São José, a cada segunda-feira, intercalados, às vezes, por filmes de espadachim. 

No Armazém Novo Horizonte estavam alguns dos apaniguados de João Dagoberto, seis vezes eleito vereador de Campo Lindo, e, agora, substituindo Jonas de Marieta Rosa no comando da oposição ao prefeito. Jonas encontrava-se acamado há seis meses com uma doença que lhe corroía as carnes. Estava mais magro do que rato de igreja, que só tem toco de vela para comer. 

Correram alguns brindes. Festejavam a mais recente e mais importante aquisição para candidato a vereador. A bem da verdade, Venta de Fole era um sujeito muito bem-quisto no município. Além de pequeno proprietário de terra, era boiadeiro, comprando e vendendo boiadas por todo o sertão, com nome honrado no comércio de gado em pé. Candidato a ser levado a sério em termos de uma possível estupenda votação. Um achado, para o partido de João Dagoberto. 

Voltando para casa e passando pelo baixio ao lado do sítio de Humberto Fura Calçola, marido de Almerinda, aquela de família desafeta com a família de Venta de Fole, famílias que trocaram tiros no passado, eis que, ao chegar na curva da toca da raposa, o pretenso futuro vereador ouviu um estampido, bem pertinho, vindo detrás de umas moitas. O cavalo ruço deu um pinote e Venta de Fole, desprevenido, foi jogado fora da sela, no chão. Era o primeiro tombo que levava de um cavalo. Aturdido, ele ouviu uma voz gritar: “Peguei ele. Peguei”!

Era a voz esganiçada de Tico Papudo, que acabara de acertar um tatupeba, em caçada com Marquinhos de Terto Piolho de Cobra. Nada demais.

*Padre (Paróquia Santa Dulce dos Pobres – Aruana - Aracaju), advogado, professor da UFS, membro da ASL, da ASLJ, da ASE, da ADL e do IHGSE.

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