04 de outubro de 2015
POR: José Lima Santana - jlsantana@bol.com.br
Fonte: José Lima Santana

O amigo-irmão :: Por José Lima Santana


José Lima Santana(*)  jlsantana@bol.com.br


O causo eu conto como o causo me foi contado. Sem tirar nem pôr. E, diga-se de passagem, eu ouvi este causo saboreando um pirão de pitus. Meu Deus! A amiga queria me matar. O pecado da gula ainda acabará comigo. Pitus do rio Piauí. Grandes. Suculentos. E o pirão? Mexido na água temperada do cozimento dos pitus. Farinha de mandioca fininha. Melhor do que mingau de puba ou de aveia, para quem gosta de um ou do outro. Dona Raimunda, mãe da minha amiga, esmerou-se. Aliás, a bem da verdade, estava ali uma dona de casa que sabia, e sabia demais, os segredos da cozinha sergipana de beira-rio e de beira-mar. Se alguém aqui, leitor ou leitora, já provou o que considera o melhor pirão de pitus do mundo, ainda não provou do melhor pirão de pitus das galáxias. É o de dona Raimunda. Dar uma espiada na cozinha dela é mirar-se em cada panela de alumínio, areada de dar gosto. É deparar-se com piso, paredes e teto nos trinques. É encontrar temperos dos mais variados. E, diz ela, afrodisíacos. Mamãe do céu! Assim, qualquer vivente de tutano nos ossos e miolos no lugar não tem como resistir.   
E esperar os pitus borbulhando ao fogo brando...! O cheiro adentrando pelas narinas e o imaginário sabor como quê chegando aos gorgomilos...! À mesa, lorotando, bebendo uma caipirinha feita pelas mãos abençoadas e morenas da minha amiga Fafá, filha de dona Raimunda, e degustando uma patinha de caranguejo, uma casquinha de siri... Que vida a minha naquela manhã!
Naquela abençoada manhã, dona Raimunda preparava um pirão de pitus para três: eu, ela e a filha, minha amiga. Para um pirão com o fim de servir a três pessoas, eis os ingredientes de dona Raimunda: um kg e meio de pitus, quatro tomates maduros, dois tomates verdes, duas cebolas grandes (eu gosto mesmo é de cebola roxa), um pimentão, um quarto de xícara de azeite de dendê (quem tem os intestinos fracos, deixa de fora o dendê, porque o trono lhe espera em incontáveis visitas), um copo de leite de coco, um punhado de cheiro verde, uma ou mais pimentas de cheiro, a depender do freguês, seis dentes de alho, duas colheres de colorau (se tiver açafrão, melhor!), um limão e sal a gosto (no meu caso, que sou hipertenso, deve ser um salzinho maneiro). Enfim, mãos de fada para que o cozimento se dê nos conformes. Lá em casa, em qualquer tipo de moqueca, tem que ter umas folhas de coentrão, que nasce à toa em pé de cerca. O bicho dá um cheiro e um sabor dos deuses.  
Bem. Depois dessa enrolação toda, eis o causo: contou-me a querida amiga que o seu primo Antônio de Tal aboletou-se para o Rio Grande do Sul, lá se vão três dezenas de anos. Tinha o moço sido aprovado em concurso público para uma carreira jurídica. Nas terras do cacique Suruby ele deixaria a família, e, principalmente, a mãe, coitada, muito chorosa, e a namorada, que ainda estava a concluir o segundo grau, como naquele tempo se dizia. “Uma fulô de galhardia e boniteza”, como diria Pedrinho Dente de Ouro, um animado tocador de cavaquinho da cidade. Flor em pleno desabrochar, aos dezessete anos de idade. Como, então, não ganhar o mundo preocupado? O moço partiu para os pampas, cheio de dor e preocupação. A namorada não tinha pais nem irmãos. Apenas a avó materna, que a criara desde os quatro anos, quando os pais morreram num fatídico acidente.
Os gaviões já voejavam em torno da moça, uns mais discretos e outros mais afoitos, desses de voos rasantes. O jovem doutor os batava para correr, uns e outros. Imaginava o futuro gaúcho de ocasião que tais aves de rapina não dariam sossego à flor que ele deixaria em jardim aberto. Não que ela fosse uma desmiolada, uma daquelas de cair em lábia de gato angorá com boca de jacaré. Não! Mas... Todo cuidado era pouco. Ora, para que eram os amigos? Os verdadeiros amigos? O seu melhor amigo era um jovem bancário, seu companheiro de folguedos infantis, morador na mesma rua, colega de sala de aula do primário ao colégio. Amigos-irmãos. Carne e unha. Até pacto de sangue eles fizeram quando eram meninos. Os irmãos de ambos tinham inveja dos dois, ou seja, da união que havia entre eles. As más línguas de plantão até insinuavam coisas. Quem podia com línguas tão sujas? “Hum... Esses dois assim grudados... Sei não!”, resmungava a velha Ticinha de João Gorgulho, que tinha língua de serpente. Quem, então, seria melhor para zelar pela flor que desabrochava? Quem poderia lhe dar notícias seguras daquela que, um dia, também haveria de viver nos pampas? O amigo-irmão. E foi assim que o mancebo desceu tranquilo para as terras gaúchas.
Aquele tempo ainda era o tempo das cartas. Telefone era uma raridade, no interior. Poucas cidades dispunham de tal serviço. Mês após mês, o amigo-irmão mandava uma carta, narrando como estava acompanhando a flor que desabrochava cada vez mais linda e perfumada. E, obviamente, a moça mandava suas cartas, cujo papel era salpicado de lágrimas. No envelope, além da cartinha de duas folhas, pétalas de rosas vermelhas. Sempre. Um ano depois, o jovem doutor retornou de férias. A esperá-lo no aeroporto de Aracaju, a família, pais e dois irmãos, a bela namorada, a avó e, claro, o amigo-irmão. Quanta saudade para matar! Quanta alegria! Quantos planos para começar a serem realizados. O primeiro? O noivado. Ele voltou determinado para, enfim, pedir a mão dela em casamento. Era o que a avó tanto esperava. Talvez até mais do que a própria flor, que passaria a usar um vistoso anel no dedo anelar da mão direita, um pouco folgado. “E você, já está namorando firme, ou ainda continua escolhendo? Vá se preparando para ser meu padrinho de casamento”, disse o jovem doutor ao amigo-irmão, que continuava solteiro e sem namorada. Ele também era professor no colégio da cidade. Cobiçado pelas alunas. Mas não dava bolas para elas. Todos o tinham na medida exata do que ele transparecia ser na vida pessoal e profissional. Um jovem sem manchas. Diga-se de passagem, a única mancha que ele tivera em toda a vida fora uma manchinha de sorvete de jabuticaba, que ele degustara na casa da namorada do jovem doutor que se largara para os pampas.  


O incidente ocorrera numa tarde ensolarada de domingo em que ele fora visitar a namorada do amigo-irmão e sua avó, por ocasião do aniversário desta, que completara setenta anos. A moça lhe serviu o sorvete. Ele, por um átimo, descuidou-se enquanto olhava para a vistosa trança aloirada posta ao lado direito da cabeça dela, amarrada com uma fita vermelha, e deixou a camisa branca de linho Braspérola ser tingida pelo sorvete de jabuticaba. Eis, até então, a sua única mancha. Mancha que ela ajudou a tirar.
Oito meses após o noivado do jovem doutor com a belíssima flor, o amigo-irmão, de férias, foi aos pampas, em visita. Abriu o peito. Chorou. Berrou mais do que bezerro desmamado. Ele fora ao Rio Grande para contar ao amigo querido a causa do seu tormento. Dizer-lhe o porquê de nunca ter namorado moça nenhuma. De antemão, sabia que o amigo não aceitaria a revelação que faria. Que o perdoasse. O amigo tinha todo o direito de escorraçá-lo. Sabia ele que a amizade mais bela jamais construída entre dois homens chegaria ao fim. Revelação feita. O jovem doutor franziu as sobrancelhas. Ficou ofegante. Trêmulo. Enfim, os dois amigos tinham o mesmo sentimento.
Seis meses após aquele encontro nos pampas, a bela flor seria desposada pelo bancário-professor que ficou zelando por ela, a pedido do jovem doutor. Simplesmente, os dois a amavam. Um, porém, em silêncio. Quanto ao jovem doutor, desposaria uma argentina. Os amigos-irmãos só voltariam a se falar anos depois.


 


(*) Advogado, professor da UFS, membro da ASL e do IHGSE


Publicado no Jornal da Cidade, edição de 04 de outubro de 2015. Publicação neste site autorizada pelo autor.


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