14 de setembro de 2015
POR: José Lima Santana - jlsantana@bol.com.br
Fonte: José Lima Santana

A aldeia global e os refugiados que se lançam ao mar :: Por José Lima Santana


José Lima Santana(*)  jlsantana@bol.com.br


Crianças curdas refugiadas da cidade Síria de Kobani em um campo em Suruc, na fronteira entre a Turquia e a Síria (Foto: KAI PFAFFENBACH/REUTERS)

Crianças curdas refugiadas da cidade Síria de Kobani em um campo em Suruc, na fronteira entre a Turquia e a Síria (Foto: KAI PFAFFENBACH/REUTERS)


O mundo é uma aldeia global? Esse conceito foi criado por Herbert Marshall McLuhan, filósofo canadense, indicando que as novas tecnologias eletrônicas tendem a encurtar distâncias, reduzindo, assim, todo o planeta à mesma situação que ocorre em uma aldeia: todos estariam interligados. Todavia, nessa aldeia global todos comungariam dos mesmos sentimentos? Aldeia global... Ocorre que numa aldeia os objetivos são comuns, coletivos, da parte de todos que ali têm o seu habitat. O que se vê no mundo de hoje, entretanto, não é isso. Nunca foi e, talvez, nunca será. A prova disso, por ora, é o movimento migratório da África e de parte da Ásia (Oriente Médio) para a Europa. Guerras, especialmente, têm causado esse fluxo migratório. Os portões da Europa branca e rica (?) não querem se abrir. Para muitos europeus, cada um que cuide de si. Cada país que cuide dos seus filhos, mesmo quando não lhes podem garantir o mínimo para uma subsistência digna. A Europa rica, que enriqueceu, de um lado, por conta de seus esforços tecnológicos, mas, também, por outro lado, à custa das riquezas africanas, asiáticas e americanas, que foram espoliadas. A Europa não mediu esforços para arrancar o que pôde dos outros Continentes. A Europa branca, rica e civilizada (?) destruiu o quanto quis, saqueou o quanto pôde. A Europa...!


Abrir os portões para pessoas geralmente de culturas tão diferentes da cultura cristã. Para, em sua maior parte, uma religião tão diferente da religião professada pelos europeus. Isso significa problemas à vista. A Europa não tem nada a ver com a miséria da África. Com as guerras civis do Oriente Médio. Com as dificuldades de países ainda que europeus, mas desintegrados, após a queda do bloco comunista.


O que é que a Europa tem a ver com tudo isso? Nada? Pelo contrário. A Europa tem tudo a ver. Melhor ainda, o hemisfério norte tem tudo a ver. O mundo não conseguiu evoluir em conjunto. Nem poderia. Mas, se fosse mesmo uma aldeia global, todos estariam se ajudando. Todos estariam se importando com todos. As fronteiras não cairão. O Direito Internacional, em parte, não será alterado. E a dignidade humana continuará sendo jogada na lata do lixo, às vezes. Ou no fundo dos mares em face de tantos naufrágios de frágeis embarcações, nas quais milhares de refugiados tentam alcançar o mundo europeu.


Americanos, chineses e europeus do leste e do oeste vendem armas para governos e rebeldes do mundo inteiro. As fábricas bélicas empregam milhões de operários. Rendem bilhões de dólares anuais. A ganância do capitalismo selvagem não tem medidas. E milhões de vidas são destruídas sob os olhares complacentes dos que produzem e vendem armas. Eles fomentam ou concorrem para que as guerras assolem regiões esquecidas. E, depois, dizem os seus órgãos de segurança e os meios de comunicação social, que os que guerreiam são brutos, são desumanos. Esses brutos e desumanos não fabricam armas letais. Os “civilizados” o fazem. A Geopolítica praticada pelas grandes potências dilacera os pequenos, os indefesos.


Crianca na Siria (Foto: Joan Mira)

Crianca na Siria (Foto: Joan Mira)

O que somos nós, seres humanos? Teremos perdido o senso de solidariedade, que alguns têm como sendo um direito moderníssimo, ou seja, um dos direitos humanos da última geração? Mais do que um direito, a solidariedade é um sentimento nobre que, contudo, não encontra abrigo em muitos corações.


A Europa também tem os seus próprios problemas. Nós o sabemos. A Europa, bem ou mal, nos forjou, a nós americanos, apesar dos massacres aos ameríndios e das espoliações. Eu não tenho nada, pessoalmente, contra a Europa. Mas ainda espero que os europeus movam mares, terras e céus para poder dar guarida aos que nada têm, a não ser suas precárias vidas e corações cheios de esperanças e incertezas.  


A Europa cristã precisa retomar o caminho do Jesus Cristo a quem diz seguir. Falta aos irmãos europeus, em grande parte, compaixão. Falta-lhes amor que se faz serviço. Jesus não fechou a ninguém as portas do seu coração. ELE ensinou a acolher e a amar.


Até quando o mar, por exemplo, será a sepultura de tantas vidas rejeitadas?


 


(*) Advogado, professor da UFS, membro da ASL e do IHGSE


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