12 de setembro de 2015
POR: José Lima Santana - jlsantana@bol.com.br
Fonte: José Lima Santana

A raposa e as galinhas :: Por José Lima Santana


José Lima Santana(*)  jlsantana@bol.com.br


A raposa e as galinhas  ::  Por José Lima Santana (Foto: reprodução/internet)

A raposa e as galinhas :: Por José Lima Santana (Foto: reprodução/internet)

Dona Margarida do finado Vicente da Malhada do Coqueiro era uma das maiores criadoras de galinhas das redondezas. Vendia dúzias e dúzias de ovos a cada semana. E muitas frangas, frangos e capões a cada feira semanal, além das que vendia em casa. Parte da freguesia batia à porta da casa avarandada e cercada por inúmeras fruteiras. No sítio herdado de seu pai, Manoel Pedreira, vulgo Manuca Tangedor, a orquestra de galos apresentava-se o dia todo e todos os dias. Cacarejos de galinhas? Era uma festança. Galinha espantada ao pôr o ovo era figurinha fácil. Galinhas de capoeira, que davam as melhores cabidelas e cujos ovos de gemas bem amareladas eram os preferidos pelas doceiras, para o indefectível doce de leite, que de cada dez casas da cidade, dez o tinham em grande conta. Um doce de leite bem corado, amorenado, de bolotas, com um tilisco de suco de laranja, derramado no momento da fervura, para tirar o gosto acentuado dos ovos, sempre foi a sobremesa predileta das pessoas dali. Nas casas, nos bares e restaurantes o doce de leite não podia faltar. Um punhado de cravo da Índia dava um sabor além de especial. Idêntica iguaria talvez somente o maná dos céus, nos tempos de Moisés, como dizia Zé Júlio do “Bar Corno Aqui Não Entra”, o mais procurado da cidade. Se, deveras, cornos ali não entravam, nunca que se haverá de saber. Mas... Eu duvido.
    
Uma penosa era sempre bem-vinda no almoço domingueiro. E, além da galinha de cabidela e do pirão de capão, nada como uma titela de galinha bem temperada e assada no espeto. O padre Francisco, por exemplo, lambia os beiços, quando era convidado para almoçar na casa do prefeito. A titela de galinha, que geralmente era de capão, marinada em suco de limão e um dedal de vinho, com alho amassado, pimenta do reino, cominho e ervas, como manjericão, salsinha e hortelã miúdo, além de uma pitada de gengibre, que Nicolina assava no braseiro brando era, deveras, para qualquer cristão afrouxar a fivela do cinto e esparramar-se numa espreguiçadeira após o lauto almoço. E, claro, não podia faltar um docinho de leite para adoçar o bico, como dizia o padre comilão. Sem querer dizer que o pároco era dado ao pecado da gula. Longe disso.
    
Dona Margarida também criava alguns patos, perus e guinés, também chamadas de galinhas de angola e, igualmente, no popular, denominadas de “tou-fraco”, que é uma onomatopeia recriadora do canto desses bichos de penugem pintada, não faltavam no sítio. De vez em quando, um saruê, animalzinho de hábitos majoritariamente noturnos, feio e fedorento, dava de comer alguns pintos. Era um alvoroço nos poleiros, que eram muitos, para abrigar tantos bichos de pena, além do que muitos deles se arranchavam nos galhos mais baixos das árvores.
    
A raposa e as galinhas  ::  Por José Lima Santana (Foto: reprodução/internet)

A raposa e as galinhas :: Por José Lima Santana (Foto: reprodução/internet)

Um dia, uma raposa deu a cara no sítio de dona Margarida. O marido, “seu” Aloísio de Lió Gorda tratou de botar uma armadilha para a raposa. Uma grande arapuca com uma franga raquítica ali amarrada, do tipo mutuca, e um caco com cachaça. Pois não era que raposas gostavam de aguardente? Bebiam que era uma graça. E, uma vez bêbadas, uivavam como lobos em noites de corridas de lobisomens. Não deu outra. A raposa deu com a mutuca e o caco de cachaça. Comeu e bebeu até se fartar. E uivou até umas horas. Pela manhã, “seu” Aloísio deu cabo da ladra de galinhas. Nunca mais apareceu outra raposa. E, assim, salvo um ou outro saruê, os galináceos de dona Margarida só faziam dar lucro e aumentar a população.
É costume dizer-se que “quem gosta, torna”. Não a raposa anterior, que foi imolada, pobre coitada, no tempo em que os animais silvestres eram mortos sem nenhuma comiseração e sem a efetivação de leis que lhes dessem valia. Pois então. Frangos gordos e capões começaram a levar sumiço do sítio de dona Margarida. Por coincidência, aos sábados. Até parecia que a raposa era dada à dieta domingueira de galinhas. Raposa fina. De muito bom gosto e de boas etiquetas. Afinal, domingo era domingo. Um almoço refinado fazia bem a qualquer um. Até às raposas. E como se sabia que era uma raposa que estava dando fim às galinhas? Um vizinho novato, um tal de Domingão da Mão da Onça, sujeito metido a caçador, andejando dia e noite pelos matos, acompanhado por um cachorrinho gué do rabo fino, jurou em cruz que viu uma raposa com um capão de penas avermelhadas no último sábado, de madrugadinha. Era exatamente o terceiro capão a sumir.
    
E os frangos e capões continuaram sumindo, apesar das armadilhas que “seu” Aloísio de Lió Gorda espalhou no sítio. Não teve jeito. A raposa daquela vez era ladina demais. Driblava as armadilhas. O filho mais velho de dona Margarida e de “seu” Aloísio, Joãozito Durango Kid, tal era o apelido do rapaz, que, montado num cavalo branco, gostava de imitar o cowboy do cinema, com roupa parecida e tudo, exceto a máscara, deu para desconfiar. No cacete armado de Pinduca Meu Nêgo, uma birosca que ficava na curva da estrada da Serra do Besouro, de uns dias para cá deu para acontecer uma cachaçada aos domingos. Durango Kid andou “farejando” por aquelas bandas. Numa segunda-feira, ele deu com um monturo cheio de penas de galinhas, no valado de Pinduca. Penas de todas as cores. Mais ou menos iguais às penas dos frangos e capões que sumiram do sítio nas últimas oito semanas.
    
No domingo seguinte, nem bem o sol deu o primeiro sinal, lá longe, vindo do mar distante umas doze léguas em linha reta, Durango Kid, no seu fardamento completo de tela cinemascope, escondeu-se num matinho dos fundos do cacete armado de Pinduca Meu Nêgo. O cavalo ele o deixou a pouca distância, amarrado e comendo um molho de capim. Logo, o caçador Domingão aproximou-se da porta da birosca. Vinha com um belo capão pedrês na mão, dependurado pelos pés. Da tela fictícia saltou-lhe à frente o destemido Durango Kid, que, eufórico, gritou, contagiado pelo poder de fazer justiça de arma em punho: “Mãos ao alto!”. Domingão espantou-se e deixou cair o capão. Recobrando-se, gritou o caçador: “Mas oia se não é o menino Joãozito de dona Margarida de “seu” Aloísio de Lió Gorda! Foi Deus quem mandou aqui o amigo. Apois num é que eu tomei esse capão dos dentes de uma raposa, que ia numa carreira desabalada ali adiante? Eu ia atirar na dita quando me dei conta de que aquela raposa era minha conhecida. Ela, então, jogou o capão aos meus pés, que eu devolvo ao menino Joãozito. Tá’qui o que é seu”. Teria Domingão cativado a raposa, como fizera o Pequeno Príncipe? Joãozito Durango Kid recebeu o capão, olhou na butuca dos olhos de Domingão e disse: “Ora ‘seu’ Domingão, já que o senhor é aparentado da raposa, até o pôr do sol eu quero os outros capões e frangos que a sua amiga roubou lá de casa. Até o pôr do sol, viu ‘seu’ Domingão? Ou os bichos ou o dinheiro que eles valiam. Senão, eu lhe entrego ao xerife”.
À boquinha da noite, Domingão, o caçador aparentado da raposa, foi pagar no contado o valor de três frangos e cinco capões. Os que tinham sumido do sítio de dona Margarida.
 


(*) Advogado, professor da UFS, membro da ASL e do IHGSE


Publicado no Jornal da Cidade, edição de 13 de setembro de 2015. Publicação neste site autorizada pelo autor.


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