Aracaju (SE), 04 de dezembro de 2020
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 15/11/2020 às 16h02
Pub.: 16 de novembro de 2020

Concluindo o curso ginasial :: Por José Lima Santana


José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

José Lima Santana*


1970. O ano do tricampeonato de futebol. O professor Cerivaldo Pereira dizia-nos que seria bom ganhar a Copa do Mundo, embora fosse muito preocupante. Para ele, o governo do presidente Médici aproveitaria a euforia do povo para encobrir mais prisões e torturas.  


Enfim, concluiríamos o curso ginasial. Em abril, uma notícia muito triste para Sergipe e, particularmente, para o diretor do Ginásio, ou melhor, do Colégio, padre Araújo: a morte de Dom Távora. Mas, a vida seguiria. O último ano era de muita expectativa. Desde o ano anterior, já funcionava no Colégio o segundo grau, com o curso pedagógico. 


Um ano de atividades. De questionamentos. Em História Geral, a Revolução Francesa mexeria comigo. Cheguei, inocente e estupidamente, a pensar em atear fogo ao cartório do registro imobiliário, para destruir os registros das propriedades rurais. Os trabalhadores rurais deveriam ter a propriedade das terras. 


Estudando a independência das treze colônias inglesas, que formariam os Estados Unidos da América, o livro texto, de Souto Maior, dizia assim: “O primeiro presidente dos Estados Unidos foi George Washington, que teve dois mandatos. O terceiro presidente Thomas Jefferson, foi o autor da declaração da independência. Ora, quem teria sido o segundo presidente dos ianques? Busquei a resposta na biblioteca. Lá estava. Na Enciclopédia de História das Américas, de Douglas Michalany (voltei à biblioteca do Colégio para me certificar do nome Michalany), constava que o segundo presidente foi John Adams. Eis que, na sabatina, caiu para mim exatamente essa questão. Pensei que iria abafar na resposta. Ao dizer que foi John Adams, a professora fez cara de surpresa e indagou: “Quem”? Eu repeti: John Adams. E ela: “De onde você tirou isso? O segundo presidente foi Washington”. Santo Deus! Como Washington teve dois mandatos, para ela, ele teria sido o primeiro e o segundo presidente. Ufa! Então, eu falei sobre a minha consulta à biblioteca. Ela riu e mandou a turma me dar uma vaia. Eu era presidente do Conselho de Classe. Pedi licença, fui à biblioteca e voltei com o livro, mostrando-lhe a lista dos presidentes de Washington a Lyndon Johnson. Ela disse que o livro estava errado. 


Eu era um neguinho tinhoso. Na revista “Realidade” tinha os endereços das embaixadas sediadas em Brasília. Mandei uma carta à embaixada americana, perguntando quem tinha sido o segundo presidente dos Estados Unidos. Dias depois, a reposta veio pelo diretor da Biblioteca Leonard Klein (este nome eu não esqueci) do Consulado em Salvador, então existente. A carta-resposta foi incisiva: “Informamos que o segundo presidente dos Estados Unidos da América foi John Adams”. Recebi a lista dos presidentes, de Washington a Nixon, além de vários folhetos sobre a História e a Geografia dos States, em português. Era a hora da vingança. Na aula seguinte, eu pedi licença à professora, li a carta e deixei-a sobre a mesa dela. Depois, claro, peguei de volta. Ela perdeu o compasso. Comigo era assim, não se tirava leite sem espuma. 


Na quarta série, essa mesma professora, que era boa professora, apesar do incidente, costumava promover o júri simulado de um personagem da História. O escolhido foi Napoleão Bonaparte. Escolhidos as personagens do júri, eu fiquei como juiz. John Roberto, como promotor, na acusação. Ocorre que eu me preparei para acusar. E John não se preparou. Faltando dois dias, eu propus permutar as funções com ele. A professora aceitou. O diretor convidou o juiz de direito, Dr. Jonalter Andrade, e o promotor de justiça, Dr. Arquibaldo Mendonça, que compareceram. Após uma acusação vibrante, ganhei o júri por 6 a 1. Dagraça de Paulo Carioca me disse que votou a favor de Napoleão porque o colega Zezinho de Valda, que o representava, estava muito triste. Ao final, Jonalter e Arquibaldo chamaram-me para dizer que eu deveria fazer Direito, pois era um advogado nato. Embora, antes, eu pretendesse estudar História, já tinha me deixado tocar pela mosca do Direito, por causa de um júri ao qual eu assisti o discurso da defesa, em frente à Prefeitura, onde funcionava o Fórum, no andar superior, já que, sendo menor de idade, não poderia subir. Fiquei entusiasmado com a fala do advogado. Achei que poderia ser um sujeito daquele que falava bastante e com veemência. Assim, o meu destino universitário estava selado.


Nas tardes de sábado, as aulas terminavam mais cedo. Um grupo de alunos, eu, Ari, Fernando, Luciano, Tetra (Zé Francisco), às vezes Beto John, Hildeberto ou Zé Alberto, fazíamos um ligeiro périplo. Íamos ao sítio dos pais de Ari, no Saco de Caçulo, deliciar-nos com tangerinas, ou às obras da DESO, para a instalação do sistema de abastecimento d’água etc. Éramos muito unidos, especialmente os quatro primeiros. Entre nós, havia um fotógrafo: Toninho (Antônio Elpídio), que fez muitas fotos da turma. Tínhamos um time de futebol. Ruim de bola, eu era o técnico. Ficamos em segundo lugar, no torneio interno.


Das quatro séries ginasiais, os professores que mais me marcaram foram: Joana Maria da Silva, Pe. Araújo, Osvanda Maria Oliveira Vieira, Antônia Figueiredo, Maria Enezilde Vieira e Cerivaldo Pereira. Inesquecíveis. 


Como presente de formatura (naquele tempo fazia-se formatura de conclusão do curso ginasial), recebemos do ex-governador Lourival Baptista, então candidato ao Senado, nosso paraninfo, uma visita à hidrelétrica de Paulo Afonso, com hospedagem na vila militar. Fomos também em passeio a Penedo, nas Alagoas. A solenidade de formatura ocorreu na sede social do Dorense Futebol Clube, que eu viria a presidir, a partir de abril de 1981, em três mandatos, dois em sequência e um intercalado, quando construí a nova sede social, que, tempos depois, infelizmente, seria leiloada pela Justiça do Trabalho, por absoluta irresponsabilidade de dirigentes da época. 


Passada a eleição, Lourival Baptista foi a |Dores, num dia de feira, agradecer pela votação maciça que obteve. Em frente ao bar de Delson, cercado por uma multidão, ele disse: “Quando subi no edifício Estado de Sergipe, pude avistar a minha querida São Cristóvão, mas não avistei a minha querida Dores. Então, chamei Paulo Barreto e disse-lhe que colocasse mais dois andares. Depois, subi novamente e pude contemplar esta bela cidade”. Delírio dos presentes. Uma bela fake de Lourival. 


Terminado o curso ginasial, estávamos preparados para enfrentar o segundo grau. A maior parte das meninas ficaria no Colégio, no curso pedagógico. Dos meninos, somente um ficaria. Algumas meninas e quase todos os meninos iriam para Aracaju ou para o Colégio Agrícola. Eu iria para o Colégio Tiradentes, cursar o científico. Mas, por um acidente de percurso, acabei no curso técnico em contabilidade. Mas, aí, é outra história.


*Padre, advogado, professor da UFS, Membro da ASL, da ASLJ, da ASE, da ADL e do IHGSE

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