Aracaju (SE), 20 de outubro de 2020
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 09/10/2020 às 18h03
Pub.: 13 de outubro de 2020

Rumo ao curso ginasial :: Por José Lima Santana


José Lima Santana (Foto de arquivo: Click Sergipe)

José Lima Santana (Foto de arquivo: Click Sergipe)

José Lima Santana*


Tendo a professora Glória encerrado suas atividades docentes no final de 1964, o ano fatídico, no ano seguinte eu migrei para o Educandário Nossa Senhora das Dores, regido pela professora Maria Menezes Góis, conhecida como Dona Menininha. A mestra era formada pela Escola Normal de Aracaju, turma de 1936. Professora aposentada da rede estadual. A escola ficava na esquina da Rua da Noturna, depois Dr. Edelzio Vieira de Melo (hoje, Rua Helena Feitosa) com a Rua da Tapagem (Benjamim Constant). Era um amplo salão desprovido de quaisquer apetrechos didáticos, salvo uns mapas envelhecidos. Bancos sem encosto e algumas cadeiras. A professora, embora idosa, era muito boa e com ares, não de tia, mas de avó. Nela, a paciência fizera morada. 


No Educandário, eu faria os dois últimos anos do curso primário (1965 e 1966). Uma curiosidade: foi ali que despertou em mim o primeiro lance de namorico escolar, aos 10 anos. Uma coleguinha, como eu, do terceiro ano, Aparecida. Chamegos de meninos, sem arroubos. Tinha dias que eu ficava birrento e procurava tomar assento longe dela. Ela, coitada, chorava. Noutros dias, ela trazia goiabas brancas, que eu adorava. E assim ficamos por dois anos. Depois, ela se mudou para Aracaju. Nunca mais a vi. No poema “Para Jamais Esquecer”, publicado no livro homônimo (1989, p.97), eu escrevi: “Amei Aparecida, que desapareceu, um dia, / Como uma folha morta no vento do meio-dia”.


Dona Menininha era auxiliada por suas filhas Altair, Nanau e Dôra. Mas, Nanau era quem mais auxiliava. Pegavam muito no pé dela. E ela não aguentando os apuros, gritava: “Mãe, olhe para Fulano”! Então, tomavam conta dela. Alguns dos colegas eram bastante presepeiros. Zé Inácio de “seu” Neném do Cartório, Jorge de Plácido, Paulo de Delson, Araújo de Elpídio do Moura e outros. Nada, porém, que fugisse ao controle da velha mestra.


No terceiro ano, o livro básico era “Infância Brasileira”. No quarto ano, era o livro “Admissão ao Ginásio”. Ainda tenho os dois exemplares. Estudávamos à tarde. Eu morava relativamente longe, no João Ventura, reduto da minha família, onde ainda moro. Eu saía de casa por volta das 12:30 horas. As aulas começavam às 13:00 horas, com intervalo às 15:00 horas e encerramento às 17:00 horas. A exemplo, das minhas duas escolas anteriores, era multisseriada, começando no primeiro ano. 


No terceiro ano (1965), por minha conta, fui à minha primeira escola, perto da minha casa, a da professora Lídia, e pedi para estudar pela manhã (das 08:00 às 12:00 horas). Ela aceitou a minha matrícula. Erámos três alunos, no terceiro ano: eu, Jorge de tio Carivaldo e Dina de Joãozinho de Nila. Então, eu estudava nos dois turnos. Saía correndo da escola, um pouco antes do meio-dia, para tomar banho de cuia (Dores só teve água encanada a partir de 1971), almoçar, e tomar o rumo da outra escola.   


Na escola municipal da professora Lídia, eu passei a ajudá-la com os alunos do primeiro ano. Ela continuava lecionando do ABC ao terceiro ano. Assim, tornei-me ajudante de professor aos 10 anos. Era, pois, uma espécie de aluno-mestre, revivendo aquela categoria de alunos criada, em Sergipe, pelo art. 5º da Lei nº 508, de 16 de junho de 1858. 


Eu era muito duro com os meninos, e, por pouca coisa, mandava repetir as lições no próximo dia. Alguns ficavam furiosos comigo. A professora seguia as minhas decisões nesse aspecto. Eu tomava conta dos meninos até as 10:00 horas. Após o recreio, quando a professora ficava ouvindo as novelas no radiozinho a pilhas, eu dava as minhas lições. Lembro-me das novelas “O Egípcio” e “O Direito de Nascer”. Eu era o único aluno com permissão para ficar na sala, durante o recreio, ouvindo as novelas. Tinha dias que a professora se derramava em lágrimas, fazendo muitas caretas. Eu tinha vontade de rir, mas me continha. Respeitava os sentimentos da professora, que, enfim, era solteirona. 


Na escola da professora Lídia, eu passei em primeiro lugar com nota 9,8. Na da professora Menininha, eu passei em segundo lugar, com nota 8,6. O primeiro lugar foi da minha “namoradinha” e de outra colega, amiguinha dela, Lourdinha, que colou toda a prova. Esta colega, que era meio-tapada, ficou zombando de mim, porque eu não logrei o primeiro lugar. Irritado, eu disse que no ano seguinte ninguém me tomaria o primeiro lugar. Dito e feito. 


Devo a Dona Menininha o gosto pelo ato de escrever, aos seus estímulos, às redações que ela nos passava com temas tirados das figuras do livro “Admissão”, que ensejavam motivos para redações. E na minha prova final do quarto ano, eu lancei, ainda de forma muito rudimentar, as minhas primeiras quadrinhas. As provas do terceiro e do quarto ano, eu ainda as conservo em perfeito estado. 


Lembro-me muito bem que o professor Fernando Andrade, de Matemática, do Ginásio Tertuliano Pereira de Azevedo (Colégio Cenecista Regional Francisco Porto, a partir do início dos anos 1970, e que eu dirigi de junho de 1978 a outubro de 1997) foi ao Educandário para saber quais os temas ministrados na disciplina, a fim de elaborar a prova para os exames admissionais ao ginásio. Aliás, para mim, a Matemática era um tormento. Do Educandário só saímos eu e Jorge de Zé Baú (Alberto Jorge Oliveira Barreto). As provas de Português e Matemática eram eliminatórias. Eu passei em tudo, obtendo o segundo lugar geral, ficando em primeiro Luciano Passos de Souza, Luciano de “seu” Enoque sapateiro, egresso do Grupo Escolar General Calasans, e que é médico ortopedista, com quem eu comporia algumas letras para músicas, jamais musicadas. Guardo-as até hoje. 


Naquele tempo, os que faziam os exames admissionais ao Ginásio, postavam-se na Praça da Matriz, no dia e horário marcados, para ouvir o resultado das provas, através do serviço de alto-falante da Matriz, na voz de Dona Marizete Costa. Em 1967, eu estava, portanto, no curso ginasial. Como presentes, por ter passado nos exames admissionais, ganhei meu primeiro relógio de pulso e duas semanas de férias, em Aracaju, na casa de uma prima do meu pai. Antes, eu só tinha ido a Aracaju, quando meu pai, num acidente de caminhão (ele vendia carne de sol em Muribeca), ocorrido no dia 29 de março de 1964, teve uma perna quebrada e a outra fraturada. Eu tinha 9 anos, mas jamais esqueci a data.


*Padre, advogado, professor da UFS, Membro da ASL, da ASLJ, da ASE, da ADL e do IHGSE

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