Aracaju (SE), 29 de setembro de 2020
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 28/03/2020 às 22h47
Pub.: 30 de março de 2020

Já não será mais tempo de mangas verdes :: Por José Lima Santana


José Lima Santana (Foto: Arquivo Click Sergipe)

José Lima Santana (Foto: Arquivo Click Sergipe)

Por José Lima Santana*


Enquanto o mundo se debate contra o corona-vírus, que tende a alastrar-se demasiadamente, caso não sejamos disciplinados, caso os governantes não recuperem o tempo perdido por não o ter, desde logo, levado a sério, assim que a China notificou a OMS – Organização Mundial da Saúde, milhões de pessoas continuarão a morrer de fome e de doenças as mais diversas, incluindo o próprio corona-vírus, lógico. 


Indubitavelmente, o corona-vírus é terrível. Dissemina-se com extrema facilidade. Não é muito letal, como dizem? Não importa. O vírus está batendo às portas, saltando nas ruas. Realidade nua e crua. Entre alguns bilhões de pessoas, até agora o vírus só matou alguns milhares e só infecionou algumas centenas de milhares, em todo o mundo? E isso é muito pouco? Ao menos, foi o que disse um ricaço, apresentador de televisão, no Brasil. Ele, depois, tentou se explicar. Em parte, não convenceu. Noutra parte, o que ele disse, talvez mereça uma reflexão. Por exemplo, neste momento, há pessoas passando fome neste país, para não nos situar em outras plagas, como a África, o mais famélico dos Continentes.


Quantas pessoas, em tempos normais, não comem o suficiente para o seu sustento, não consomem o mínimo de calorias, que a OMS estipula diariamente para cada pessoa? Não são poucas. Há miséria em toda parte. Basta sair nas periferias da capital, Aracaju, nas periferias da grande Aracaju, e tomo como exemplo mais acentuado a comunidade das Mangabeiras, que se situa na Paróquia sob a minha responsabilidade, a Santa Dulce dos Pobres, no bairro Aruana (e não me venham dizer que o nome é Aruanda, pois Aruana deve ser mesmo uma corruptela de Aruanã, palavra do nosso vocabulário indígena), formada por mais de oitocentos barracos, onde as pessoas vivem em situação de extrema pobreza, e que, no segundo semestre do ano passado, o prefeito da capital foi comigo, numa quinta-feira à tarde, para anunciar que começaria a construir as casas para aqueles moradores, em fevereiro que passou. Mas, isso não se confirmou. Tenho procurado resposta da Prefeitura de Aracaju, porém, até agora não logrei êxito. 


Basta percorrer as periferias das cidades interioranas, maiores ou menores. Percorrer os povoados, muitos de extrema miserabilidade. A fome denigre o ser humano, mata milhões no mundo inteiro a cada ano. E aqui não é diferente. 


No início da semana que findou, tive conhecimento de que um afilhado meu encontrou num povoado do nosso município, Nossa Senhora das Dores, povoado Gado Bravo Norte, que parte é de Dores e parte é de Capela, uma mãe, em casa de taipa e chão batido, dando como almoço a quatro filhos pequenos, apenas mangas verdes, e mais nada. Logo, este meu afilhado lançou uma campanha para angariar alimentos para essa família, cujo pai a abandonou. A solidariedade fez-se sentir de imediato, como não poderia deixar de ser.


Social e economicamente, o nosso país é muito injusto. Poucos têm muito, e muitos têm tão pouco. Nos meus tempos de adolescência, encantado com as teses socialistas, eu sonhava com uma sociedade justa e igualitária, na qual todos pudessem viver com dignidade. Naquele tempo, idos do final da década de 1960, dizia-se que o Brasil era o país do futuro. Cheguei aos 65 anos de idade, e pergunto: Cadê o futuro?  


Voltando ao corona-vírus, uma só vida ceifada já é algo para se lamentar. Milhares, então... O poeta inglês John Donne (1572-1631), no Excerto intitulado “Meditação XVII”, mais conhecido pela expressão “Por Quem os Sinos Dobram”, que serviu de título para o famoso romance homônimo do escritor norte-americano Ernest Hemingway, (1940), sobre a guerra civil espanhola, nos dá a compreensão do que é sentir-se comunidade: “Nenhum homem é uma ilha, inteiramente isolado, todo homem é um pedaço de um continente, uma parte de um todo. Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes: Por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”. 


Então, se apenas uma vida é levada pelo corona-vírus, por qualquer outra doença ou motivo, é de lamentar-se. Sempre. Não desejamos o sofrimento de ninguém, nem a morte de quem quer que seja, por fome, doença, acidente etc. 


Uma coisa, todavia, é certa: o país parado como está, amanhã vai ocasionar um caos como jamais vimos, no país e, obviamente, no mundo. Parando tudo, a economia será totalmente destruída. Não haverá produção nem circulação. Não haverá arrecadação pública. Não haverá salários. Não haverá como pagar as contas. Não haverá como comprar alimentos. E já não haverá mais mangas verdes para comer. O tempo de colheita das mangas está passando. 


Os governantes e a sociedade civil organizada devem encontrar o meio adequado para conter o vírus e, ao mesmo tempo, fazer o país andar, no momento adequado. O que não pode é a vergonhosa disputa política entre o governo federal e os governos estaduais, de olho nas eleições de 2022. A mediocridade deles não deve pesar sobre as nossas cabeças. 


Deve-se fazer o isolamento social? Eu acho que sim. Que se faça. Há um planejamento geral sobre todos os aspectos que envolvem o temível vírus? Não sei. Não me parece. O que há é muito disse-me-disse, muitas informações e contrainformações, muitos fakes nas redes sociais, muito medo da população, e não é para menos. Há projeções muito sombrias. Há brincadeiras de péssimo gosto, até de homens públicos. 


Em meio ao cenário de incertezas, no último dia 27, um homem sozinho, numa praça vazia, carregou as dores do mundo, a esperança do mundo, a fé do mundo: o Papa Francisco. Um ancião alquebrado, mas rijo como uma árvore de raízes profundas, açoitada pelo furor dos ventos. Um exemplo digno, que deveria inspirar aqueles que detêm qualquer fração de poder. 


Que Deus, na sua infinita misericórdia vele por nós, já que os governantes, em grande parte, só velam por eles mesmos.


*Padre, advogado, professor da UFS, Membro da ASL, da ASLJ, da ASE, da ADL e do IHGSE

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