30 de abril de 2018
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 30/04/2018 às 11h36

CHUTANDO O PAU DA BARRACA :: Por José Lima Santana


José Lima Santana* - jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana (Foto: Click Sergipe)

José Lima Santana (Foto: Click Sergipe)

Passava um pouquinho do meio-dia. No alpendre do casarão de Juca do Catende meia dúzia de homens de meia idade conversava quase cochichando. Todos estavam apreensivos com os rumos que a situação parecia estar tomando. Logo mais, se não houvesse uma providência firme, a situação ficaria fora de controle. E isto seria um Deus nos acuda. Gregório do Alecrim estava pronto para romper os laços políticos que mantinha com Abelardo da Gameleira, há mais de trinta anos, ou seja, desde os fins do Império. Dois velhos amigos, compadres cruzados, ou seja, um batizara um filho do outro e vice-versa. Eram como irmãos. Ambos, intendentes por duas vezes do município. Nunca que eles tiveram uma discussão, nunca uma desconfiança. Sim, irmãos. Não do mesmo sangue correndo nas veias, mas irmãos de altíssima consideração. Irmãos de coração. 


Um cavaleiro a bom galope aproximava-se do casarão. Riscou no terreiro. Levantou poeira. Avermelhada poeira, que cobriu os seis homens que confabulavam como se cochichassem. O cavaleiro apeou. Dirigiu-se à escadaria que dava acesso ao casarão. “Boas tardes!”. Todos responderam ao mesmo tempo, como se fosse um afinado coro de igreja. “Vosmecês sabe se ‘seu’ Juca está?”. Todos responderam ao mesmo tempo: “Está sim”. O “coro” de igreja estava ainda mais no tom. 


O cavaleiro, Ribeiro de Sá Marialves, embocou de casa adentro. A meia dúzia de homens de meia idade parecia um bando de crianças curiosas. Estavam ansiosos para saber qual era a notícia que Ribeiro trouxera. O rompimento entre os dois amigos-irmãos estaria consumado? Ou ainda restaria a possibilidade de não desagregação daquela amizade, que já tinha até rendido trovas de cordel? 


Ribeiro de Sá Marialves, enfim, saiu. Pouco tinha demorado. Não cumprimentou os presentes. Montou no cavalo ruço, chispou no mundo. Atrás dele, um rastro de poeira avermelhada. 


A meia dúzia de homens de meia idade discutia entre si na esperança de encontrar quem se dispusesse a abordar Juca do Catende, para saber se o rompimento entre Gregório e Abelardo estaria consumado. 


Juca do Catende, enfim, apareceu na varanda da casa. Chamou os amigos para perto de si. Afagou a todos. As mãos calosas do trabalho nos roçados de algodão e de tanto segurar o cabo do revólver nos tempos idos, estavam cheirando a sabão de coco. Juca chamou Belizário para um dedo de prosa, num canto da varanda. Belizário tinha sido companheiro de Juca nos tempos brabos das tocaias. Tempos que ficaram para trás. Belizário saiu apressado.


O rompimento entre Gregório e Abelardo favoreceria à oposição, que, minúscula há pouco tempo, começava a ganhar corpo com a chegada à cidade de um médico cuja família era metida na política em três cidades da zona sul do estado. Se Abelardo pendesse para o lado da oposição, a velha política desmoronaria. O impasse entre os dois amigos-irmãos dava-se por conta de um querer emplacar o filho mais velho como candidato a deputado estadual, enquanto o outro desejava candidatar o genro ao mesmo cargo. 


Até aquele momento, não houve possibilidade de acerto entre Gregório e Abelardo. Tinhosos, queriam impor as próprias vontades em rota de colisão. Juca do Catende era o sujeito mais abastado da cidade e de toda a região. Nunca se candidatara a nada, mas, sempre tivera voz ativa nas decisões do ajuntamento político do qual os dois amigos-irmãos figuravam como as principais lideranças. Juca acabara de confiar uma missão a Belizário. Por isso, ele saíra apressado. Iria encontrar-se com Ribeiro de Sá Marialves. Juntariam um bando de cabras da mais alta confiança de Juca do Catende. Dariam cabo dos dois amigos-irmãos, Gregório e Abelardo, caso os dois não encontrassem um ponto de equilíbrio, a fim de manterem-se unidos. Belizário era compadre de ambos. Querido pelos dois. Tentaria, ainda, um último recurso no sentido de apaziguar a situação. Se não desse certo, os dois seriam mortos, cada um tocaiado nalgum lugar fora da cidade e cada um ao seu tempo. Tocaiados no sigilo, sem deixar pistas e a ponto de serem levantadas suspeitas contra a oposição. Afinal, numa festa do povo da oposição, Manuel Coisa Ruim, líder daquela gente, dissera que a política do município somente teria jeito quando alguém de sangue no olho afastasse Gregório e Abelardo do caminho. Dissera aquilo quando estava cheio de cachaça, que nisto ele era bom. Porém, dissera.


No caso de Gregório e Abelardo serem mortos, Juca assumiria o comando do ajuntamento. Manteria a situação unida. O médico novato não deveria crescer na política local. Um forasteiro! Ali não tinha lugar para gente de fora comandar os destinos políticos do município. Juca do Catende estaria prestes a chutar o pau da barraca. Uma decisão fora de propósitos. Porém, naqueles tempos das primeiras décadas republicanas a política de muitos lugares gerava cadáveres. Tinha cheiro de sangue.


Belizário tinha tudo articulado na cabeça. Sabia o que deveria ser feito e como fazê-lo. Primeiro, tentaria uma conversa com Gregório. Depois, com Abelardo. Se os dois consentissem em abrir mãos das pretensas candidaturas do filho de um e do genro do outro a deputado estadual, ou se os dois se unissem em torno de um só nome, o pau da barraca não precisaria ser chutado. A missão de Belizário era, portanto, apaziguadora, de início. Do contrário, o plano da matança já estava consolidado em sua mente. Sem deixar rastros.


Ao chegar à casa de Gregório, Belizário foi tomado de surpresa. Uma boa surpresa. Ele era compadre de Gregório e de Abelardo. Querido e respeitado pelos dois. Dar cabo de ambos seria muito doloroso para ele. Todavia, ele era companheiro de lutas de Juca do Catende, e juntos enfrentaram bandos de jagunços. Juntos conquistaram muitas terras. Mataram muitos homens nas pelejas do começo do século. A surpresa para Belizário foi encontrar Gregório e Abelardo acocorados, debaixo de uma jaqueira, degustando uma jaca mole de que tanto os três gostavam. Belizário apeou do cavalo. Juntou-se aos dois compadres e lambuzou-se de visgo de jaca.


*PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE


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