02 de abril de 2018
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 31/03/2018 às 12h46

ENCONTROS À MEIA-NOITE :: Por José Lima Santana


José Lima Santana* - jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana (Foto: Arquivo pessoal)

José Lima Santana (Foto: Arquivo pessoal)

Noite de lua cheia. O céu pipocava de estrelas, como se fossem olhos de anjos espiando o mundo. Ronaldo de Zé Ramo lorotava no telheiro da bodega de Vicente Timbira de Valdemar do finado Peixotinho. Lorotava com Geminiano de Sá Dondinha, vulgo Gimio. 


Ali estavam os dois únicos fregueses da bodega, espantando muriçocas e vendo Vicente, o bodegueiro, pescar piabas, cochilo após cochilo. 


- Pois bem, “seu” Gimio, o senhor sabe que neste mundo de tudo há. E num adianta uns metidos a sabichões desdizerem o que o povo sabe e diz. Num adianta. Tem gente que quer saber mais do que Deus. E tem gente descrente em tudo. Eu num descreio. Creio em tudo ou quase tudo nesta vida miserável, que a gente vai levando nestes cafundós de judas. Até bicho barbo eu já vi com estes meus olhos que o chão frio há de comer. Ao bem ver, não o chão, mas os bichos miúdos que nele há. Então, “seu” Gimio, eu vinha, noite dessas, em plena Quaresma, e por volta da meia-noite, sem ter feito nada de que eu me lembrasse, assoviando pelo caminho, quando, de repente, avistei, a coisa de dez braças de distância, um vulto no meio da estrada do Caga Fogo, logo ali um bocadinho antes da sua casa. Era uma noite de lua como esta. Lua cheia vomitando claridade pelo chão, pelos pés de pau, por tudo que era canto deste mundo. Ah, seu mano, eu vi direitinho! Um horror! Não que eu seja corajoso, que, na verdade nunca fui, mas não cortei caminho nem refuguei. E tampouco fiquei parado, tremendo mais do que vara verde. Não sinhô! Meti os pés e avancei. O vulto estava lá, quieto. Chegando perto, pude ver um bicho que mais parecia um macaco, porém, por estas bandas, se algum dia já teve macaco, deve ter sido sagui gigante. Era um bicho de olhos de fogo, fumacento e enxofrento. O tipo de coisa que um sujeito vê e morre vendo. 


Geminiano interrompeu Ronaldo de Zé Ramo: “Ô Ronaldo, nessa tal noite você chupou um melzinho? Emborcou uns copos passado o pau de milone, como é do seu refinado gosto?” 


Ronaldo cuspiu longe uma cusparada grossa que bem podia servir como argamassa. Bateu a mão na porta da bodega. Vicente Timbira, que acabara de pescar mais uma bacia de piabas, acordou. “Bote mais um milone aí, Vicente, meu primo!”, pediu Ronaldo. Vicente levantou-se esfregando a mão esquerda nos olhos. Botou a pinga no copo sebento, meio esverdeado, como todo copo de bodega pé de chinelo, que dormitava num alguidar de barro, feito pelas meninas do finado Antônio Capa Nêgo. O bodegueiro trouxe a pinga. Ronaldo a engoliu de um trago. “Olhe aqui, ‘seu’ Gimio, deixe eu lhe contar o resto do ocorrido e o sinhô vai tirar suas conclusões. Pois bem. Meti o pé, dizia eu, pra cima do vulto e lá estava um macaco do tamanho da estrada, da mesma largura. Olhei pra ele e ele num tirava os oio de eu. Confesso que, no primeiro instante, como que num piscar d’oios eu tremi um pouco. Só um pouco, que o sinhô sabe, ‘seu’ Ronaldo de Zé Ramo, que gente da minha laia num sai por aí correndo com medo de macaco nenhum, nem grande, nem pequeno. Parente de sagui pra eu é tudo igual: só faz chiado. Quando segurei as carnes e os ossos, puxei o meu facão corta tudo e fiz marcha pra cima do macacão. E gritei: ‘Valei-me meu São Jorge Guerreiro!’. Nisso, uma estrela veio vindo do céu como que caindo em cima d’eu. O céu ficou muito claro. Se a lua clareava, a estrela clareava muito mais. Uma coisa linda de se ver. E foi aí que eu vim saber que macaco tem medo de claridade em demasia. O bicho deu um pinote, bufou e grunhiu, saltando pra dentro dos matos em desabalada carreira. Sumiu no mundo até esta data. Agora, me diga o sinhô, ‘seu’ Gimio: esse macaco apaideguado era coisa deste mundo? De certo que não, meu camarada!”. 


Geminiano de Sá Dondinha sorriu e disse: “Ora veja bem, Ronaldo, um bicho desse não pode ser deste mundo. Como você disse, por aqui não tem macaco. Só tem sagui”.


Passava muito das onze da noite. Vicente Timbira consultou o relógio de parede, enferrujado, mas com um “cuco” em boa atividade. Logo, o “cuco” cantou doze vezes. Hora de fechar a bodega. Ronaldo de Zé Ramo tomou a saideira. Geminiano comprou um pacote de bolachas pros meninos. Despediram-se.


Ronaldo saiu tombando de rego em rego, na estradinha que subia para a sua casa, no beco do Curtume de Floriano. Geminiano desceu para o lado do açude, onde ficava a sua casa, na estrada do Engenho Novo, antiga estrada do Caga Fogo. A lua cheia espalhava a sua toalha prateada. Um vento fresco passeava fagueiro nas estradas. “Conversa de bêbado”, ia pensando Geminiano. Passou da casa do finado Malaquias, preto velho de quem, em vida, os meninos tinham medo. O pobre morrera há menos de um ano, queimado num aceiro de roça, quando o fogo ficou fora de controle e ele, imprevidente, quis apagar sozinho. Com fogo ladeira acima não tinha quem pudesse. 


A poucas braças da sua casa, num capão de mato de Zeca Timbira, irmão do bodegueiro, eis que Geminiano avistou um vulto tomando toda a largura da estrada. Achegou-se. Puxou da cintura a faca luminosa de cortar carne na feira, que marchante ele era. O vulto era de um macaco descomunal. Um bicho de olhos de fogo. Fumacento e enxofrento.


*PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE


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