19 de março de 2018
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 18/03/2018 às 01h58

O SUICÍDIO DE ZÉ DE PIPIO DE MARIA FULÔ :: Por José Lima Santana


Para início de conversa, vamos por partes, como o coleguinha Jack, o Estripador, aliás, sujeito de bons bofes, lá na velha Albion. Assim, Maria Fulô era Maria Flor dos Anjos, antiga rapariga do Brejão dos Sapos, cidadezinha fumacenta por estar assentada numa região de carvoarias. Maria Fulô deixou a vida livre por conta de amigação duradoura com Pedro Filgueiras, um português que também atendia pela alcunha de Pipio, sabia-se lá por quê. Zé de Pipio era filho de Pipio e de Maria Fulô. Tudo, então, eu presumo, entendido. Não é mesmo? Tomara que sim. Hoje eu não estou para muita lorota ou explicações.


José Neviton dos Anjos Filgueiras, isto é, Zé de Pipio, tornou-se dono de bodega lá mesmo no Brejão dos Sapos. Bodega bem sortida. Ainda aos dezessete anos de idade, amancebou-se com Julinha de Sá Catarina de João das Rolinhas. Tiveram, em pouco mais de um ano, o primeiro filho. Vieram, mais tarde, outros seis. Ao todo, então, sete filhos, dois rapazes e cinco moças. Ao cabo de tanto parimento, eis que aportou na cidade um frade alemão, que, segundo as más línguas, nunca tomava banho e, pois, cheirava mal como um bode velho pai de chiqueiro. As más línguas andavam soltas no Brejão. Não devia ser bem assim. Afinal, não havia alemão que aguentasse o calor nordestino sem uns bons banhos diários. O frade Melke chamou nos arreios Zé de Pipio e este teve que casar com Julinha, como mandava a Santa Igreja. Livres do pecado da fornicação continuada, Zé e Julinha passaram a ser disciplinados frequentadores da Igreja. E colaboradores, na coleta e nos afazeres em tempos de festas e solenidades.


Filhos criados, o mais velho já casado e com um neto dado a Zé e Julinha, o casal vivia folgadamente para as condições do lugar. A bodega prosperava e Zé de Pipio até se tornara um pequeno proprietário rural com solta de gado de leite e corte. Não era muita coisa, mas era, sim, um progresso. 


Zé de Pipio beirava os quarenta e cinco anos. Gordo como um porco baié, as camisas salpicadas de pequenos furos, feitos pelas brasas que caiam dos cigarros do tipo pé duro, feitos de fumo de rolo, e enrolados em papel apropriado da marca Itacolomy, levava a vida da bodega para a roça. Clientela fiel. Bons amigos. Mulher prendada, mãe virtuosa. O que mais poderia querer um homem naquela cidade fumacenta e encarvoada? Ele não haveria de enricar, mas, não morreria de fome com os seus. Uma vida feliz podia-se dizer. A única atrapalhação na vida de Zé de Pipio era a política da cidade. Ele era eleitor e cheira-peidos de Manico Alvarenga, chefe político da UDN, que estava de baixo desde que o mundo era mundo. O PR, partido forte do local, ganhava todas as eleições, fosse para o cargo que fosse, de vereador a presidente da República. Porém, Zé de Pipio não arredava pé do lado de Manico Alvarenga. 


Eleição municipal. Mais uma. Manico Alvarenga era candidato a prefeito pela quinta vez. O candidato do PR era João de Terto, um comerciante abastado, genro de Francisco do Belo Monte, o chefe político do partido situacionista. Favas contadas, mais uma eleição para o PR. O embate, contudo, foi muito duro. Os dois lados disputaram palmo a palmo os votos da cidade e dos povoados. Muitos eleitores andaram cabreiros, pouco falando, não anunciando em quem votariam. 


Enfim, o dia da eleição. Nas casas dos candidatos, a comida era farta, como de costume. Bois foram abatidos para servir ao eleitorado. Andou-se comentando que dois candidatos a vereador do PR teriam se bandeado para Manico Alvarenga. Comentários de ponta de rua a merecerem crédito. De fato, nos povoados de Robertinho de Ambrósio e de Maneca Olho Torto, ou seja, Cajazeiras e Maniçoba, sendo os dois candidatos do PR, Manico deu um surra no candidato da situação. Daí, claro, as conversas maldosas de que ambos se venderam a Manico, que ganhou a eleição por uma margem de apenas seis votos de diferença. 


A festa da UDN seria de uma semana. Uma semana inteira de festa. Um furdunço como a cidade nunca antes fora capaz de assistir e sediar. Coisa de louco. Dizia-se, porém, que alegria de pobre durava pouco. Pois durou muito pouco a alegria dos udenistas. Um advogado da capital ingressou com um recurso para tomar a eleição de Manico Alvarenga sob as alegações mais diversas. Um emaranhado de situações e leis favoreciam o candidato do PR, o comerciante João de Terto. 


Em Brejão dos Sapos, a gozação dos opositores de Manico Alvarenga era demais. “Ganhou, mas não leva!”. “O cagão vai cagar de novo!”. E assim por diante. Picharam várias casas de eleitores de Manico. A bodega de Zé de Pipio amanheceu pichada na frente e no oitão. “Zé de Pipio, vá pra puta que o pariu”. Pobre Zé. Entrou em depressão. 


Segunda-feira. Zé de Pipio acordou quando a madrugada ia alto. Zanzou pela casa. Foi à bodega. Armou-se do que precisava. Ao amanhecer, tomou de um tamborete e de uma corda de caroá. Fez um laço. Amarrou a corda no galho de uma jaqueira. No laço meteu o pescoço gordo. Uns poucos transeuntes que passavam em frente à bodega, soltaram o grito de alarme. Juntou gente. A mulher, os filhos e a vizinhança. Zé de Pipio não deu ouvido a ninguém e ninguém teve tempo de socorrê-lo. De repente, ele estava dependurado, as pernas se debatendo, estrebuchando-se todo. Julinha desmaiou, os filhos se desesperaram. Foi-se Zé de Pipio, desapontado com a possível tomada da eleição de Manico Alvarenga. Com a vergonha de ser chamado de filho da puta. A sua mãe, Maria Fulô fora da vida livre. Mas, aquilo era fato dos tempos de antanho. Tornara-se, a pobre mulher, senhora de amigação certa e por toda a vida. Senhora de respeito. 


A corda de Zé de Pipio, apesar de grossa, estava envelhecida, puída por dentro. O peso do suicida era muito grande. A corda rompeu-se. O corpo de Zé de Pipio foi ao chão, provocando um baque surdo. Estava vivo. Levado ao hospital da cidade próxima, salvou-se.


O recurso do candidato do PR foi frustrado. Manico Alvarenga foi diplomado. E empossado. Veio o golpe militar, e Manico Alvarenga, a treze de agosto de 1964, foi posto para fora da Prefeitura. Motivo? Até hoje ninguém sabe. 


 


PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE
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