31 de dezembro de 2017
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 30/12/2017 às 13h55

Um Ano Novo de Salvação para Todos :: Por José Lima Santana


José Lima Santana* - jlsantana@bol.com.br


Imagem: divulgação

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Ano Novo. Festão lá pras bandas do Monte Belo, depois, muito depois, da Maravilha, do Pau Seco e da Ladeira do Vintém. Lá só ia quem tinha negócio. E dos grandes. Era lá que morava Valter Zanôio. Zanôio era dito às escondidas por qualquer um, ou, às claras, por quem não tinha medo de uma carreira, a faca peixeira riscando a camisa, corta não corta, se muito ligeiro o desaforado fosse. Sim, porque chamar Valter Pereira Pinto, dos Pintos do Marmeleiro Desfolhado, lá pras divisas com a Bahia, era estar disposto a meter a perna no mundo. A não ser que o sujeito fosse mesmo um fulano de tinir, com sangue no olho e cabelos nos buracos das ventas. Do contrário, era pedir perdão a Deus e baixar aos sete palmos.
    
Aluado, azougado ou sabia-se mais o quê. Era assim que Valter Zanôio era. Esquentado? Era pouco, para definir Valter do finado Chico Perna Curta. O que os homens daquela família tinham de pouca estatura, ninguém passando de um metro e sessenta e cinco, tinham de coração duro como pedra, de lavas de vulcão correndo nas veias. Se era que corriam. Muitos tinham dúvida. Raça de gente trabalhadora, isso ninguém podia negar. Raça de mulheres bonitas. Pequeninas, mas lindas como fulô de maracujá orvalhada ao acordar da manhã.
    
Valter Zanôio era casado com uma prima em segundo grau, Carmélia, filha de sua prima Clotildes, costureira afamada, que, no corte e na costura, criou doze filhos, sozinha, pois o marido, um tal de Totonhão Caga Fogo, emborcou e beijou o chão ao ser picado por uma aranha caranguejeira maior do que um jabuti. Um colosso de aranha como testemunharam três ou quatro trabalhadores de Zeca Entorta Pau, em cuja propriedade a aranha assassina andejava.
    
Carmélia e Valter casaram-se muito novinhos. Ele, com dezessete anos e ela, com quinze. Era assim no sertão, naquele desvão do tempo. Todo rapaz se arranchava cedo com uma mocinha, que, desde muito mais cedo, já se fazia mulher, sem ainda não o ser, na compreensão da vida verdadeira. Casamento sem padre nem juiz. Amigação. Com o tempo, tudo se arranjaria, e, numa santa missão qualquer, os ajuntados receberiam a bênção do padre. No juiz, o casamento era muito caro. Desperdiçar dinheiro, nem pensar. “O casamento que Deus deixou no mundo foi o da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo”, dizia o beato Chico Mochila, metido nas ladainhas e nas “incelenças”.
    
Filhos, Valter Zanôio e Carmélia tinham um magote. Foram quatro barrigadas de dois e uma de três. Onze ao todo. Todos prosperaram em crescer com saúde. Nenhum dos filhos do casal ajudou a encher o cemitério paupérrimo do povoado, que nem muro ou cerca tinha ao redor. As covinhas de anjo eram contadas às dezenas. Morriam crianças como frutas maduras que caiam das mangueiras ou de quaisquer outras árvores frutíferas. Tempos duros em que as diarréias matavam mais do que as febres de 1856. Os pobres do sertão não vingavam muito. Uns morriam nos cueiros. Outros, de fome e de sede, nas secas brabas. Outros mais, nas tocaias. A morte era a vizinha mais próxima de todos. Vivia a girar a foice sem parar. Ora aqui, ora ali.
    
Festão, sim, no Monte Belo, na entrada do ano. O que era um festão naquelas brenhas? Uma novena, um foguetório raquítico na bodega de Sá Domitila, tia de cortesia do padre Leandro Pires Monteiro de Gouveia, o Leandrão Batina Surrada, e arrasta-pé no depois de tudo. Naquelas bandas, era, sim, um festão. E ainda tinha um pequeno rebuliço no arremedo de praça, onde estava plantada a Capelinha de azul pintada. Bancas de doces e comidinhas de Maroquinha de Fernão Peixoto, de Deolinda de Zé Martelo, de Anita Saia Suja e de Maria Nunca Dorme, irmã de Valter Zanôio. Isso era que era o festão de Monte Belo, na entrada do ano.
    
Passava das oito da noite. Teco de Mané Teteco, um pobre coitado, que não tinha onde cair morto, mas que era muito querido pelas redondezas, tal era a prestimosidade de sua singela vidinha, estava bêbado. Nunca que ele tinha engolido um gole de água que passarinho não bebia. Nunca. Disso todo o povoado e as circunvizinhanças davam prova. Nunca, nunca, nunca. Causou surpresa a todo mundo. Sá Domitila, a bodegueira tia do padre, e madrinha de fogueira de Teco, quase teve um constipio quando viu o afilhado naquele estado de embriaguez. Quem tinha feito uma coisa daquela com o pobre menino? Bem, menino no dizer alarmado da madrinha, pois Teco de Mané Teteco já tinha lá seus trinta e tantos anos. Era, porém, um pobre de Cristo, meio tantan dos miolos. Vivia da caridade das pessoas. Já não tinha mais família. Os parentes já tinham batido as botas ou arribaram para as terras onde a seca não encontrava guarida.
    
Passando em frente à casa de Valter Zanôio, com o dono da casa, a mulher e a filharada na calçada, comendo feijão de corda com leitão assado, eis que Teco de Mané Teteco, bêbado como um gambá com sono, gritou: “O homem de Monte Belo é ‘seu’ Valter Zanôio!”. Aí, não prestou. Valter, que, na verdade, era mesmo zarolho do olho esquerdo, embora o direito também não estivesse bem embalado, largou para lá o prato e o talher e levantou-se mais brabo do que um furacão, partindo para cima do pobre bêbado. De cinturão na mão direita, as calças quase caindo, deu uma surra da gota serena no pobre Teco. Gemendo e chorando, no chão caído, o pobre coitado dizia, quase sussurrando: “Pare, ‘seu’ Valter Zanôio! Pelo amor de Deus, pare ‘seu’ Valter Zanôio!”. E muitas vezes ele repetiu. Da família do zarolho endiabrado, apenas a filha Maria Cecília, das três da última barrigada, pediu, chorando: “Basta, meu pai, por favor, meu pai, pare!”. Não parou. Por ali, encheu de gente. Ninguém fez nada, ninguém disse nada.
Imagem: divulgação

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Valter Zanôio parou de bater quando se sentiu cansado. No chão ensangüentado, um molambo, que era o corpinho de Teco de Mané Teteco. O festão da entrada do ano no povoado Monte Belo tornou-se algo destrambelhado. Um desastre. Avisada do ocorrido, a madrinha de Teco, a bodegueira e tia do padre Leandrão, Sá Domitila, cuja bodega ficava do outro lado da pracinha da Capela, cuidou de acudir o afilhado de fogueira. Todavia, ela não encontrou mais do que um farrapo humano. Mãos nos quartos, ela dirigiu-se a Valter Zanôio: “Se tu for o homem que tu pensa que é, ‘seu’ Valter Zanôio de merda, faça comigo o que tu fez com este pobre diabo. Venha, que eu quero lhe costurar a bala”, disse a velhota, de revólver trinta e oito na mão. Valter Zanôio encolheu-se por trás da mulher. Causou vexame. Ah, Sá Domitila era filha do major Izidoro Praxedes, um macho de fazer tremer Lampião e todo o seu bando de cangaceiros! E a filha herdara os bojes quentes do pai. Só não era de fazer um despropósito como aquele, contra um bêbado de primeira viagem, que nunca fizera mal a ninguém. Acabou-se o festão de Monte Belo.
    
Teco de Mané Teteco curou-se a duras penas. Sá Domitila fez com que Valter Zanôio custeasse todo o tratamento. Passou o tempo. Um dia de enxurrada pras bandas do riacho da Matinha, a cabeça d’água pegou Valter Zanôio de jeito, ele montado numa burra castanha. No aguaceiro, desceram montador e montaria. Ele não sabia nadar, e, ainda que soubesse, a cabeça d’água descia forte e mais do que ligeira, arrastando tudo que encontrava. Por sorte, por providência divina, uma corda foi lançada. Ele conseguiu agarrá-la. Salvou-se. O salvador era Teco de Mané Teteco.
    
Um ano novo de salvação para todos. É o que eu desejo.


 

PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE

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