19 de novembro de 2017
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 17/11/2017 às 20h53

O animal de sela acabou numa cela :: Por José Lima Santana


José Lima Santana* - jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana - Foto: arquivo pessoal

José Lima Santana - Foto: arquivo pessoal

A PRISÃO DO CAVALO


O fato não se deu nos dias de hoje. Nem de ontem. Foi no tempo pratrasmente de trasantontem. Início da década de 1950. Naquele tempo, o delegado de polícia era um oficial reformado da briosa Polícia Militar. Era outro tempo. Diverso do tempo de hoje, bem mais civilizado. Aconteceu, nas Varas Verdes do Chapadão, cidadezinha mixuruca espremida entre a Serra do Castelo e a Serra do Corisco. Um cavalo foi preso. Alguns, para aliviar a barra do vexame, que se tornaria nacional e internacional, disseram (in) justificadamente, que tudo não passou de uma detenção, e não prisão. Outros, ciosos para com a Briosa, disseram que o que houve mesmo foi apenas a apreensão do representante da espécie equina.
    
O fato inusitado correria trechos e ruas. Cidades e estados. Países até. Uma muvuca da desgraça. A oposição feita pela UDN ao governo do PSD, tanto no município, quanto no estado, lavou a égua de tanto explorar entre gargalhadas e comentários desvairados a prisão do cavalo.
    
Tudo se deu quando, numa cavalgada, o dito cavalo espantou-se, à aproximação de um carro, pinoteou duas vezes e meteu um coice no carro de Tibério Orelhudo, sogro do prefeito. Foi um Deus nos acuda. Carro novinho em folha. Um Simca Rabo de Peixe. Um luxo! Único veículo de passeio daquele tipo na cidade. Talvez, na região. O Orelhudo era dono de fábricas de descaroçar algodão. Três delas: a Nossa Senhora Aparecida, a São Francisco de Assis e a Santo Antônio. Dona Sinhazinha, a mulher do empresário, era devota de todos eles.
    
A autoridade policial entendeu que houve dano ao carro. E houve mesmo, um amassãozinho de leve, uma bituca de quase nada. Todavia, contudo e, porém, o velho oficial reformado da Briosa vociferou que houve “crime de dano”. Danou-se. O “crime” estava mais do que provado. A autoria também. E lugar de “criminoso” era a cadeia. O dono do animal ainda alegou que o cavalo Precioso não deveria ser preso. Ofereceu-se, pois, para tomar o lugar do animal. O velho oficial disse: “Não!”. O ofensor foi o cavalo. Ele pagaria pelo “crime de dano” praticado. Conduziu-o ao quartel e o colocou numa cela. Que ironia! O animal de sela acabou numa cela. Era o fim de tarde de um domingo. É de lembrar que, enquanto o cavalo era conduzido ao xadrez, uma pequena multidão acompanhou o grande feito do velho oficial, entre risos e galhofas. No meio da caminhada, o exemplar guardião da ordem gritou, perante tamanha algazarra: “Se continuarem com esse furdunço, eu boto todos vocês juntamente com o colega de quatro patas”. Mais uma vez, danou-se.
    
Domingo. Fim de tarde. O que poderia exigir aquela populaça de um velho oficial reformado, que, longe de casa, ainda haveria de queimar panela no quartel se quisesse uma jantazinha na noite que se avizinhava? Pensava aquela cambada que a sua vida era fácil? Que tinha sido fácil em trinta anos de caserna, enfrentando bandidos e malfeitores em todas as zonas do estado, inclusive na própria “zona”? Qual nada! Ele sofreu muito. Assentou praça no fim da década de 1910. Reformou-se em 1948. Há quatro anos, era delegado de polícia comissionado, como assim o era naqueles tempos bicudos. E ainda tinha que aguentar aquele povinho cheio de ditos e churumelas. Se ele metesse dois ou três daqueles atrevidos no xilindró, tudo se acalmaria. Enfim, a autoridade policial ali era ele. E prendia quem quisesse: cavalo ou gente. Pronto.
    
Cavalo preso, pessoas dispersas. Regalias ao preso? Uma baciazinha com água para beber e um pequeno feixe de capim sempre verde. Cela pequena, entulhada de bregeços. Pobre cavalo, que nem se mexer podia. Deitar-se, espojar-se? Nem pensar.
    
Day after. Uma segunda-feira de sol. Primavera que mais parecia verão. O fotógrafo lambe-lambe Tito Retratista tinha subornado o soldado de plantão, na noite anterior, após o oficial reformado ter-se recolhido, e retratou o cavalo preso, que saiu em pose de primeira página no jornaleco “Fiu-Fiu”, de Beto Felizola, adversário do prefeito Getúlio Bocão. A pequena tiragem do jornal vespertino não deu para quem quis. Lá estava o cavalo Precioso tristinho, atrás das grades. Antes, porém, da saída do jornal de oposição, que, além da foto com a matéria zombeteira, exibiu uma foto antiga do oficial reformado em farda de gala, dos tempos em que ele desfilava garboso no Dia da Pátria, e localizada nos arquivos do jornal, o Serviço de Amplificação G.C., de propriedade do vereador Genildo Carvalho, parlamentar combativo, que se dizia independente, ora atacando, ora elogiando a situação ou a oposição, e que tinha o seu serviço de som esparramado por quase toda a cidade, meteu a ripa. Botou a jiripoca para piar. Ele tinha uma verdadeira “rádia” nos céus da cidade em ondas médias, curtas e longas, como costumava dizer Elízio Souza, o seu produtor, operador e, por vezes, locutor de ocasião.
    
O Serviço de Amplificação G.C., ao bem do povo e da veiculação da verdade, entrevistou pessoas, transmitiu lorotas, fez um carnaval. Teve até quem imitasse um famoso locutor da capital, fazendo uma gozação das seiscentas. Até um “fio do canço” apareceu relinchando e pedindo um habeas corpus. Sátiras danadas. Os ouvintes caíram na maior gozação. Um cavalo preso e os bandidos soltos, diziam. Na capital, as autoridades ficaram indóceis. Umas, defenderam o velho oficial reformado, que sempre foi um policial valoroso em todas as missões que lhe foram acometidas. Outras queriam a sua cabeça. Na Assembleia Legislativa, o deputado Chico Frederico, que se dizia “esquerdista, mas nem tanto”, oportunista que só ele, fez um discurso cheio de verborreias e disse mais empolgado do que pinto no lixo: “Senhores deputados, minha gente da galeria, esse cavalo que foi preso, não é gente, mas é um ser humano, que merece respeito”. Um gaiato da galeria retrucou, para delírio da galera: “Muito bem deputado: o cavalo é um ser humano igual ao senhor!”. O orador fez que não entendeu, ou não entendeu mesmo.
    
O cavalo foi solto ainda na segunda-feira. Saiu mancando, coitado. Passaria por uma averiguação feita por uma junta de veterinários da capital. A Liga das Senhoras Aflitas fez correr uma subscrição para pedir ao governador do estado a apuração do caso. Afinal, nos dias que se seguiriam jornais e emissoras de rádio do eixo sul/sudeste do país estraçalhariam o estado por causa daquele episódio. Um cavalo preso pela autoridade policial. Deu até no Pravda, jornal soviético. Na Rádio de Moscou. Na BBC de Londres. Na Voz da América. Na Rádio de Havana. Na Rádio de Berlin Oriental. Até na “Voz do Brasil”. Em tudo que foi canto, para o desencanto do povo do pequenino estado. Coisas do longínquo ano de 1952. Coisas passadas, que jamais poderiam acontecer nos dias de hoje. Com certeza. Tá doido! Prender um cavalo hoje em dia? Nos dias de agora, em pleno século XXI, ninguém chegaria ao desplante de prender um cavalo. Isso não.


 

PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE

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