18 de setembro de 2017
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 16/09/2017 às 06h58

A SANTA SÉ :: Por José Lima Santana


José Lima Santana* - jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

Minervina de João de Zé de Tintilo andava agoniada. Não sabia como sair-se da situação vexatória na qual acabou se metendo. Sufoco! Como resolver aquela situação? Teria que apelar ao padre Afonso? Não lhe passaria ele uma descompostura? Não a faria cumprir a promessa assim mesmo como ela a fizera? Se fosse o padre anterior, João Bosco, a situação poderia ser contornada a contento. Ele a conhecia havia muito tempo, antes mesmo de ter ido oficiar ali, quando era pároco de Barro Alto e lá ela morava, casada de novo. Depois, a família se arranchou nas Cajazeiras de São Raimundo Nonato e uns três anos depois eis que o padre João Bosco para ali foi transferido. Durou um lote de anos. Coitado! Morreu do coração. Não tinha ainda sessenta anos de idade. Gordo que fazia gosto. Doentinho que fazia dó. Morreu dormindo.
    
O padre Afonso, um galegão danado, tinha fama de brabo. Era um bom padre. Sabia pregar o Evangelho como poucos. Mas, era dado a dar broncas nas pessoas que não se comportavam direito na igreja e na vida. Não media palavras. Nem para tanto mudava de batina. Com ele, era pau, casca! Não tinha lero-lero. Como, então, Minervina iria pedir uma solução para o problema que a afligia, há uma semana? Porém, não tinha jeito. Teria que apelar para o bom senso do pároco. Iria a ele, sim. E fosse o que Deus quisesse.
     
Domingo, dez da manhã. O padre já tinha celebrado a missa matinal. Estaria em casa, refestelado na cadeira de balanço com um livro nas mãos. Era o que ele mais fazia em casa. Ler. Lia como um desvalido. Devorava mais livros do que todas as traças do mundo, juntas. Dona Izabel, a irmã, estaria nos afazeres da cozinha, ajudada pela preta Maria Fulô, octogenária, ama de leite do padre, a quem ele chamava de mãe. A mãe do padre, Dona Virgínia Mendes de Souza Fontes, viúva do coronel Augusto César de Souza Fontes, que tinha patente comprada da Guarda Nacional, morreu quando o padre completou doze anos. O pai lhe faltou quando ainda estava nos cueiros. O chifre de um boi assassino lhe varou o coração. O coronel, antigo dono de um festejado banguê, que acabou de fogo morto, tornou-se próspero criador de bom gado de corte e era dado à brincadeira das vaquejadas. Morreu numa delas.
    
A negra Maria Fulô nasceu na senzala do pai do coronel Augusto, mas de ventre livre. Jamais saiu do serviço do pai e, depois, do filho. Era uma serva, para não dizer escrava. Nunca recebeu um tostão furado de salário. Era bem tratada. Mas não passava de uma serva. Ama de leite. Se o padre a tinha em grande condição, ela o tinha mais ainda. O padre era o seu bebê. O filho que nunca teve. E desde a morte de Dona Virgínia, ela, Maria Fulô, dele cuidou como um filho verdadeiro. Melhor mãe, com todo o respeito a Dona Virgínia, o padre não poderia ter.
    
Minervina de João de Zé de Tintilo tomou o rumo da casa do padre. Levou debaixo do sovaco um capão de bom peso. Um mimo para Dona Izabel, que era uma santa. Uma joia rara, tão diferente de gênio em relação ao irmão padre. Um doce de pessoa. Um anjo de candura. Dona Izabel era madrinha de batismo de um neto de Minervina. Não eram, pois, pessoas estranhas.
    
Naquela manhã de domingo, chovia. Era o mês de setembro. O inverno se prolongava, esticava os braços e fazia cair boas pancadas de água. Bateu na porta. Toc-toc-toc. Acudiu-lhe Maria Fulô, arrastando os chinelos. “Dona Maria Fulô, eu preciso ter um dedo de prosa com o padre Afonso. Ele está não está? Eu o vi entrando agorinha mesmo”. Ele estava. Resmungando, como era próprio de certas pessoas com idade avançada, a negra velha desapareceu no corredor da casa, por trás da cortina, que separava a varanda do resto da casa, seguida por Minervina.
    
Minervina fez uma promessa a uma santa que ela desconhecia, a não ser pelo nome. O nome mais curto de uma santa que ela já tinha ouvido falar. Prometeu soltar duas dúzias de foguetes em frente à igreja onde a santa tivesse a sua imagem, caso a sua gata angorá de estimação ficasse boa de uma doença que lhe fizera cair o pelo, deixando-a igual a um bruguelo de passarinho. Poucas semanas depois a gata voltou a ter pelos. Um milagre! Ocorria que ela acabou descobrindo por uma neta estudiosa que a santa em questão somente podia ser encontrada na cidade do Papa, em Roma. Minervina não tinha dinheiro suficiente para ir à Cidade Eterna, a fim de pagar a promessa feita. Eis o que ela precisava arrancar do padre Afonso: que a dispensasse de cumprir a promessa feita, ou permitisse fazer a troca da promessa por outra em melhor condição de cumprimento. Que angústia! Que tormento!
    
O padre a recebeu na sala de leitura. Sem rodeios, Minervina lhe contou acerca da promessa e falou da enorme dificuldade para cumpri-la. O padre ouviu toda a conversa no mais absoluto silêncio. “Acabou, minha senhora?”. Tinha acabado sim. Uma promessa feita a uma santa distante. Ela não tinha meios que lhe possibilitassem sair dali para a cidade do Papa. Bem que ela gostaria de vê-lo!
O padre Afonso indagou que santa era aquela, pois Minervina ainda não tinha declinado o seu nome. “É Santa Sé”, respondeu ela. O padre, de cara sempre fechada, explodiu numa gargalhada, que deixou Minervina em pedaços. Refeito, o padre desculpou-se e disse: “Minha santa mulher, de onde a senhora tirou esta ideia? Quem lhe disse que a Santa Sé é uma santa a quem se possa fazer promessa? A Santa Sé não é a representação de uma mulher piedosa que foi canonizada, como Santa Terezinha do Menino Jesus, Santa Rita de Cássia e tantas outras que nos servem de modelo em face de suas vidas dedicadas ao amor de Deus, ao Evangelho de Jesus Cristo, servindo aos irmãos e às irmãs das mais diversas maneiras. Não, não, não! A Santa Sé assim chamada é a representação do governo central da Igreja Católica, que fica na Cidade do Vaticano, governada pelo Papa. A senhora não sabia disto?”.


Pobre Minervina! Sabia nada. Ela ouvia, no rádio, que muita gente estava acorrendo à Santa Sé, para pagar promessas. Só isso. E fez a sua promessa, para a cura da gata angorá, que ficou curada.
“Quem curou a sua gata, minha senhora, foi a sua fé. Deus volta o seu divino olhar para os seus filhos e filhas que Nele depositam a sua confiança, a sua fé. A senhora pode queimar os seus foguetes em frente à Matriz, sem problema. A promessa estará cumprida. Que Deus lhe abençoe!”.


Minervina voltou para casa aliviada. E dobrou a queima dos fogos.


*PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE
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