08 de maio de 2017
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 06/05/2017 às 00h00

A GREVE DOS AGUADEIROS :: Por José Lima Santana


José Lima Santana* - jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana (Imagem: Arquivo Pessoal)

José Lima Santana (Imagem: Arquivo Pessoal)

Meados da década de 1960. Naquele tempo, não tinha água encanada na cidade de Brejo das Almas. Promessas, sim, choviam. Prefeito após prefeito, todos prometiam colocar água encanada na cidade que crescia a olhos vistos. Ali estavam instalados importantes estabelecimentos comerciais, indústrias de descaroçar algodão e de curtir couros e peles. Banco do Brasil, Coletoria Federal, IBGE e muito mais. 


A população era abastecida pelos aguadeiros, que faziam uso de jumentos portando quatro ancoretas, que eram pequenos barris onde a água das fontes do Brejo do Padre era levada para as casas e todo tipo de estabelecimento. Os aguadeiros eram Tito de Bernardino, Gurungu Alemão, Filipinho, Totonho de Zé Coveiro, Belchior de Maria Preta, Zominho Bicudo, Elias de Adolfo, Irmãozinho do Cafofo, Lenço Branco, Manezinho Coice de Jegue e Anselmo de Dioclécio. Esqueci algum? Não sei. 


Os aguadeiros tinham suas freguesias. Eles botavam água a semana toda e recebiam a paga no sábado, na boquinha da noite. Pois bem. Naquele primeiro sábado de janeiro, quando fazia o maior calor, tudo estando esturricado tal era o verão daquele ano, os aguadeiros comunicaram aos seus fregueses que estariam em greve a partir da segunda-feira. A cidade entrou em polvorosa. Não daria para ficar sem água. E onde já se ouvira dizer que aguadeiros entravam em greve? Eles comiam porque botavam água para quem pudesse pagar. Em greve, passariam fome. Foi como pensou o povo besta da cidade, acostumado a pagar para ter conforto. 


O líder da greve anunciada era Totonho de Zé Coveiro. O prefeito mandou logo chamar o subalterno, pai do líder do movimento grevista. Ou o pai mandava o filho acabar com o movimento sem pé nem cabeça, ou iria para o olho da rua. Zé Coveiro ainda argumentou que o filho Totonho era maior de idade e casado, logo, não se sujeitava mais às suas ordens. O prefeito, porém, retrucou: “Tu é o pai. Na minha casa, da mulher ao cachorro, quem manda sou eu, viu? Tu faça a mesma coisa. Chame seu filho na chincha e bote freio na língua dele. É isso ou rua!”. 


Zé Coveiro viu-se acuado. Tinha votado no prefeito nas três vezes que ele se candidatou, ganhando todas. A família dos Gomes Lima não desviava um voto. Era nele que todos votavam. Naquele momento, o prefeito o deixou agoniado. Totonho e seus companheiros tinham razão em fazer greve. A carga de água custava Cr$ 5,00 (cinco cruzeiros). Barata demais. Os aguadeiros queriam aumentar para Cr$ 7,00 (sete cruzeiros). A proposta fora apresentada um mês antes, mas o povo se recusou pagar mais caro do que estavam pagando. O preço cobrado era o mesmo de cinco anos atrás. Não dava mais!


O coveiro José Benildes dos Santos nem teve coragem de conversar com o filho. Para quê? Não! Ele não faria aquilo. O filho estava coberto de razão. Ele e os outros aguadeiros. Cada um tinha a sua família para dar de um tudo. Pedir para que eles fizessem o gosto dos fregueses? Estava fora de cogitação. 


Werneck Figueiredo, o maior fazendeiro da região, dono de terras sem fim e gado da melhor qualidade, sem falar na imensa quantidade de bovinos, gritou no bar de Jovino Perneta que os aguadeiros deveriam ir para a cadeia. Aquilo de fazer greve era um caso de polícia. Ele mesmo falaria com o tenente Geraldo Peixoto, delegado de polícia. Pediria para prender a corja toda. Para meter o sabre no lombo de cada um deles. Cobrar Cr$ 7,00 (sete cruzeiros) por uma carga de água, que eles não compravam.


Era só encher as ancoretas nas fontes do Brejo do Padre e pronto. A água era abundante. Aumentar a água...! Um desaforo. Um roubo! 


A carne de boi tinha aumentado. Os fazendeiros aumentaram o preço da arroba da carne. Os marchantes chiaram, mas não tiveram o que fazer. Repassaram o custo para os consumidores. Ora, os fazendeiros podiam ganhar em cima dos pobres, mas alguns destes não podiam ter um ganho melhor, tantos anos depois do último aumento da água? Os poderosos mandavam. Os pobres se ferravam. 


O domingo foi tenso na cidade. Haveria greve ou não, a partir da segunda-feira? Os aguadeiros fecharam questão. Totonho de Zé Coveiro fez uma reunião com os companheiros de profissão. Todos compareceram. A reunião foi no salão paroquial. O padre Maurício Moreira fez questão de estar presente. Ele apoiava o movimento. Beatas e benfeitores da Igreja Matriz agoniaram-se. Então, o padre, novato ali, era do tipo comunista? Uma comissão iria ao Bispo, denunciá-lo. Nunca que monsenhor Castro, o pároco anterior, que ali funcionou por vinte e oito anos, que Deus o tivesse em sua glória, ficaria do lado de grevistas. Mas, o novato estava contaminado por um tal de Concílio, que estava virando a cabeça de padres e freiras. A Igreja estava perdida com aquele tipo de gente. O mundo estava perdido. Eram muitas novidades de uma vez só. 


Werneck Figueiredo esperaria o tenente, na delegacia. Ele chegaria segunda-feira, cedinho. Greve era caso de polícia, sim. Chibata e xilindró amansavam qualquer grevista. A peia era um santo remédio. 


Deveras, por volta das sete horas e meia da manhã, o tenente Peixoto chegou dirigindo o Jeep azul da delegacia. Werneck já estava lá. O fazendeiro contou o que estava ocorrendo com os aguadeiros e pediu enérgicas providências. O delegado, porém, disse que achava justa a reivindicação de aumento da carga de água. Aliás, ele mesmo já pagou os Cr$ 7,00 (sete cruzeiros), desde o começo da semana finda. Werneck, sogro de desembargador, subiu nas tamancas. Iria à capital, para falar com o genro. O delegado teria que ser mudado de lugar. Era mais um comunista a ter que prestar contas ao governo dos militares, que estavam consertando o país. Comunistas não tinham mais vez. 


Por volta das oito horas, Zé Coveiro chegou à Prefeitura. Foi ao gabinete do prefeito. Entregou-lhe as chaves do cemitério. “Prefeito, a partir de hoje, eu não sou mais funcionário da Prefeitura. Arranje outro coveiro. Eu comprei um jegue com ancoretas. Agora, eu sou aguadeiro como meu filho Totonho. E também sou grevista”. O prefeito deu um pinote na cadeira: “Até tu, Zé Coveiro? Até tu é comunista? Por esta hora, deve ter defunto se revirando no caixão, debaixo dos sete palmos. Só me faltava esta: um coveiro comunista. Tu era bem capaz de querer enterrar defunto vestido de vermelho!”. 


Foi assim que o coveiro José Benildes dos Santos virou aguadeiro. E a cidade ficou sem coveiro por uns dias. A greve foi deflagrada. A cidade ficou sem água. Uns valentões de meia tigela quiseram pegar os aguadeiros. O delegado manteve a ordem. A carga de água subiu para Cr$ 7,00 (sete cruzeiros). O prefeito mandou chamar de volta Zé Coveiro. Este, contudo, estava bem como aguadeiro. Conhecido como era, fez, logo, boa freguesia. Houve, porém, quem não quisesse comprar água ao ex-coveiro: “Beber água trazida por mãos que enterravam defuntos? Nem pensar! As mãos dele são nojentas. Não há água nem sabão que tire a inhaca que estão nelas acumulada”, dizia-se. 


*PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE

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