16 de Abril de 2017
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 14/04/2017 às 22h04

O QUE UM HOMEM TRUVILUSCO É CAPAZ DE VER :: Por José Lima Santana


José Lima Santana* - jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana (Foto: ClickSergipe)

José Lima Santana (Foto: ClickSergipe)

Foi duro de engolir. Mas, um sujeito truvilusco, meio lá e meio cá, depois de beber umas boas lapadas de pinga na bodega de Francisquinho do velho Barroso de Sá Doninha e dali sair chamando cachorro de “meu tio”, estava mais apto do que tudo e todos para ver coisas do arco da velha. Aliás, de qualquer arco.
    
Fidelino de Dona Juvita, filha, neta e bisneta de afamados contadores de lorotas, não puxou aos antepassados. Era um homem sério, normalmente calado, trabalhador, bem casado em ordem de pobre. Pai de dois filhos, Pipito e Pereba, dois pestinhas danados de sabidos. Zé Bezerra, pai de Fidelino e marido de Dona Juvita de quem ela era viúva, fora, em vida, tal e qual Fidelino, um homem muito sério, que não gostava de jogar conversa fora. Não era dado a lorotas ou lambanças. Fidelino só tinha um senão: gostava de morder uma boa pinga, toda segunda-feira, dia da feira semanal da cidade. Afora esse dia, não botava um tiquinho sequer de álcool na boca. Era homem do seu trabalho e da sua casa.
    
Se havia no mundo uma criaturinha de Deus que não fazia mal a ninguém, nem quando se encontrava truvilusco, era Fidelino de Dona Juvita. Como ele mesmo dizia, sabia beber. Nunca arreganhou os dentes para bater boca com a mulher. Esta, de seu lado, nunca reclamou da leve bebedeira das segundas-feiras. Vida pacata, ajustada.
    
Fidelino não tinha amigos de copo. Não se enturmava com os bebinhos de pé de balcão na bodega de Francisquinho. Dava-se com todo mundo, mas não era de dar trela a ninguém. Entrava na bodega, entornava uma bicada, acendia um cigarro da marca Continental sem filtro. Dali a pouco tomava outra, acendia mais um cigarro. Soltava, no ar, uma fumaça tortuosa, que se ia subindo e, depois, sumindo, mas deixando atrás o odor do fumo queimado. Um pouco mais, o terceiro gole. Outro cigarro. Outras baforadas. Fumaça subindo e sumindo. Entre uma e outra bicada, um cumprimento, uma resposta, um começo de conversa. Nada demais. O terceiro gole era, quase sempre, a saideira. Vez ou outra, muito raramente, contudo, a saideira só vinha com o quarto gole.
    
Tinha gente, especialmente quem tinha o fígado curtido pela cepa, que bebia o dia inteiro e se segurava em pé. Fidelino não era desses. Ele, ao contrário, tinha o fígado de mal com o álcool. Por isso bebia moderadamente. Cicinho de Maria Júlia, por exemplo, não bebia, comia com farinha. Era um alcoólatra de carteirinha. Amarelo empapuçado. Coitado. Largado pela mulher por quem era apaixonado, ele caiu na bebedeira após ela ter-se ido embora, poucos meses depois de casados, com um caixeiro viajante, com quem ela tivera uma demorada troca de olhares, meses antes do casamento. Fazia cinco anos que Cicinho levava a vida na cachaça. Trabalhava. Era, aliás, um mestre de primeira no manejo da colher de pedreiro. Outro que bebia demasiadamente sem cair era Terto do finado Pedro Zambeta. Este, porém, não era da turma que gostava da pinga, como Fidelino e Cicinho. Terto era da cerveja. Bebia caixas, podia-se dizer. Os dois, Cicinho e Terto, eram quase vizinhos de Fidelino. Davam-se bem, mas não jogavam no mesmo time. Fidelino era comedido.
    
Uma noite de sábado, a bodega de Francisquinho animou-se. Um leilão. Teve até música com bom sanfoneiro. Música e dança. Meninos e meninas se soltaram no fim da tarde no salão anexo à bodega. Era assim que todos se iniciavam no aprendizado dos passos do forró. À noite, depois do leilão, depois da arrematação dos prêmios, homens e mulheres dançaram até o raiar do dia.
    
Fidelino e Maria Zilda, sua esposa, foram ao leilão com os meninos, que, pela idade, ainda não eram forrozeiros iniciantes. Ele arrematou uns prêmios, para a alegria da mulher. Eram enfeites de casa. Perto de findar o leilão, para ter início o arrasta-pé, Pipito e Pereba já morriam de sono. Maria Zilda foi para casa com os filhos e os prêmios arrematados pelo marido. Fidelino ficou no leilão. Ficaria no forró. Maria Zilda não se incomodava. Não tinha ciúmes. Por ali, muitas mulheres eram assim. Submissão. Sociedade machista. Uma pena!
    
Naquela noite de domingo, diferente das segundas-feiras, Fidelino excedeu-se um pouco. Só um pouco. Acabou mesmo truvilusco. E, naquele estado, por volta das duas horas da madrugada, ele foi levar em casa, uma tia viúva e suas duas filhas adolescentes. Elas moravam num sítio que ficava logo depois da curva do “S”, no beco de Sabino Cabeça de Currupio. Fidelino deixou as parentas em casa. Tomou a bênção da tia Luduvina, afamada bordadeira de rendendê, ponto de cruz e ponto de marca. As duas meninas seguiam na mesma trilha.
    
Voltando da casa da tia, Fidelino pressentiu alguém ou alguma coisa lhe seguindo. Por precaução, passou a mão no cabo da faca, que portava ao lado esquerdo da cintura. Sabia-se lá! Não olhou para trás, nem para os lados, que ele não era um covarde. Tinha a proteção do seu anjo da guarda, por um lado, e da faca luminosa, comprada há pouco tempo, do outro lado. Sentia-se seguro.
    
Ao chegar de volta na curva do “S”, onde as galhas de dois frondosos cajueiros se entrecruzavam no meio da estrada, um vulto passou ao lado de Fidelino. Este sacou da faca. Noite escura. Não dava para enxergar muita coisa com nitidez. Beco sem iluminação. De chofre, eis que o vulto pôs à frente de Fidelino. Era uma coisa muito grande. E parecia com o macaco que Fidelino viu num filme, no velho Cine São José, quando era menino, na primeira vez que o pai lhe levou para ver uma fita de cinema. Fita velha, em preto e branco, que quebrava a cada dez ou quinze minutos. Era o filme de um macacão que morava numa ilha e uns homens o levaram para a cidade. Lá, o bicho se soltou e fez uma bagaceira danada, até ser morto. Pois aquele macaco gigante estava ali, à sua frente.
    
Fidelino não se fez de rogado. Apertou os olhos para poder enxergar melhor. Ele sentia que estava truvilusco. Mas, não estava com as pernas bambas. Ainda se sentia preparado para enfrentar o macacão. E o bicho botou-se para ele. Foi um atropelo da desgraça. Por duas vezes, o macacão quase o pegou. Numa, ele se jogou debaixo das pernas peludas do animal. Noutra, ele rolou por terra e escapou do celerado. Luta daqui, luta dali, Fidelino conseguiu cortar a orelha do bicho, cujo pedaço cortado ele reteve na mão. Porém, o sangue do macaco gigante derreteu a faca luminosa, que ele deixou cair. Cortado na orelha, o macacão afastou-se quebrando galhos no pequeno matagal de Sabino Cabeça de Currupio.
    
A orelha do macaco gigante, como aquele do filme que Fidelino o assistiu em 1950 e alguma coisa, estava em sua mão. Com cuidado, para que o sangue que gotejava não derretesse a sua mão, como fizera com a faca. E assim ele chegou à sua casa, cansado de tanta peleja. Caiu na cama e dormiu como uma pedra.
    
Pela manhã, Zefinha de Mané Preto andava praguejando porque alguém tinha cortado a orelha do seu bode Mimoso. E Mané Cacetinho gabava-se na bodega de Francisquinho que tinha acabado de achar uma faca luminosa novinha em folha, na curva do “S”. Um homem truvilusco é capaz de ver muitas coisas.


*PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE

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