13 de março de 2017
POR: José Lima Santana - jlsantana@bol.com.br
Fonte: José Lima Santana
Em: 11/03/2017 às 00h00

PAPA FRANCISCO: INCOMODADO OU INCOMODANDO? :: Por José Lima Santana


José Lima Santana* - jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

Eu não sei se outro Papa, na modernidade, causou tanto incômodo quando Francisco está causando. Dizem alguns que a Cúria Romana vive dias de agonia, de apreensão, de desejo louco de ver-se livre do Papa argentino. Este, por sua vez, vem mexendo com a Cúria e com “dogmas” (pseudodogmas, na verdade!) da terrível burocracia romana e de vícios inenarráveis que ali são cultivados há séculos. 


A Igreja, para os “controladores” da Cúria Romana, deve ficar engessada. E, assim, continuar por todos os séculos vindouros. Pior: deve estar enclausurada em torno de si mesma, ou melhor, em torno dos “velhos” viciados e viciadores. Ninguém quer perder poder. Perder posições. Os “velhos” (e não são velhos apenas na idade) querem uma Igreja atrelada ao fausto, ao conservadorismo decadente e nefasto. Uma situação é buscar conservar a Palavra, na sua melhor expressão, a Tradição Apostólica e o Magistério da Igreja. Outra bem diferente é querer conservar posições que saem das “santas” cabeças de dogmatizados que se dão ao trabalho de “cercar” a Igreja, criando em torno dela uma redoma dominada por eles. Para a Cúria, ao que parece, a Igreja é a própria Cúria e, olhe lá, no máximo, a hierarquia no seu todo considerada. É o terrível clericalismo. O povo, para a Cúria, não deve passar de “engolidores” do seu pensamento “dogmatizante”. Os fiéis devem ser tão somente os “cordeirinhos” trancados no “aprisco curial”. Meu Deus! 


O mundo conservador aliado aos “velhos” da Cúria, que se associam a outros tantos “velhos” (cardeais, bispos, padres, leigos carcomidos pela cegueira, pessoas e entidades que se aferram a ideologias conservadoras, fundamentalistas do tipo mais duro possível, inclusive com certos vieses políticos e ideológicos neoliberais), que não conseguem assimilar, por exemplo, as necessidades mais prementes do povo de Deus e dos homens de boa vontade, cristãos ou não. Que não conseguem, por exemplo, assimilar as lições de uma parte significativa do Magistério da Igreja, que é a sua Doutrina Social. Que fizeram e fazem questão se enterrar as conclusões do Concílio Vaticano II, que querem uma Igreja triunfalista e longe do povo. Para estes “velhos” só resta restabelecer a Inquisição. Não conseguirão! Aliás, se assim o fosse, ela, a Inquisição, haveria de cair sobre as cabeças de alguns dos contestadores do Papa Francisco: os pedófilos, os que extravasam a sua sexualidade, de uma ou de outra forma, sem se conter nos limites da castidade que prometeram, em voto, conservar. Há uma hipocrisia latente em torno de alguns membros da hierarquia. Francisco tem procurado combater isso de forma veemente. 


Não defendo a banalização dos aspectos litúrgicos e sacramentais, como alguns vanguardistas (ou pseudovanguardistas!) apreciam fazê-lo. Estão errados. Ser moderno não significa fazer o que bem quiser e entender. Ser moderno é levar a Palavra de Jesus Cristo e o Reino de Deus a todos, assim como Jesus nos ensinou a fazer. Não convém que a Igreja se deixe tocar por modismos ou por ideologias que contrariem os Evangelhos. Aliás, a Boa Nova não precisa de acréscimos. De nenhuma ordem. Nem à direita, nem à esquerda. Nem para frente, nem para trás. 


A Igreja é universal. Nisto repousa o seu ser Católica. E a Igreja não se circunscreve à hierarquia. Isto nos diz os documentos do Concílio Vaticano II, o Catecismo da Igreja e tantos outros documentos eclesiais. Clero e laicato formam a Igreja, cuja cabeça continuará a ser o Nosso Salvador, Jesus Cristo. Nós, todos nós, somos o corpo da Igreja. Cada um com a função que lhe compete: o Papa, o Colégio dos Cardeais, o Sínodo dos Bispos, os Bispos em suas Igrejas particulares, ou seja, em suas Dioceses, os padres, os diáconos, os leigos e as leigas. Esta é a grandeza da Igreja de Jesus Cristo. Assim sendo, não deve o Papa Francisco ceder à vontade dos “velhos” da Cúria Romana e de outros tantos “velhos”, enclausurados em seus “tronos”, seja lá onde estiverem.


Francisco cometeu lapsos teológicos em suas Encíclicas e mensagens? Em tese, não deveria. Não creio, também em tese, que o tenha cometido. Não sou teólogo na acepção maior da palavra. Eu sou apenas um padre ordenado há três meses, que comecei estudos teológicos em 1978 e 1979, porém, vindo a completá-los entre 2012 e 2016, no Seminário Maior da nossa Província Eclesiástica. Embora seja um católico com quarenta e um anos de militância na Igreja. Aprendi a respeitar o Primado de Pedro. A aceitá-lo. Como também a tudo que diz respeito às diretrizes da minha Igreja, vindas da Santa Sé, da Diocese ou da Paróquia, na conformidade do Direito Canônico. Eu sempre defendi que a Igreja se voltasse para os mais pobres, sem fazer disso um “gueto” doutrinário ou de ação. Afinal, Jesus veio para os pecadores, para os que precisavam ser curados dos seus males espirituais, embora Ele também tenha feito curas em muitas pessoas portadoras de males corporais. Jesus não abominou os ricos, tanto é que teve encontros com Nicodemos e José de Arimatéia, que faziam parte da elite de Israel. E foi sepultado no túmulo cedido por este último. Homem rico (Mt. 25,57) e membro ilustre do Sinédrio (Mc. 15,43; Lc. 23,50), José de Arimatéia tinha em Jerusalém um sepulcro novo, cavado na rocha, próximo do Gólgota, que cedeu para que o corpo de Jesus fosse sepultado. Era discípulo de Jesus, mas mantinha isso em segredo, tal como Nicodemos, por temor às autoridades judaicas (Jo 15,38). 


Jesus veio para todos. Não excluiu ninguém. Mas, viveu muito mais com os pobres, preferencialmente. Ora, o que tem dito o Papa Francisco? Ele tem propugnado por uma Igreja que se volte para os mais pobres. Preferencialmente. 
E, aí, recebe as “porradas” que tem recebido. Dos “velhos dogmatizantes”, de parte da imprensa que, nitidamente, se põe a favor destes “velhos” e das ideologias capitalistas mais selvagens, que nem sempre respeitam a dignidade das pessoas e a própria vida. E de líderes políticos que, por exemplo, temam em construir muros, ao invés de edificar pontes. E de tantos outros que chafurdam no lamaçal de suas inconfessáveis pretensões. 


Não abro mão de estar com Francisco desde a sua escolha. Por ele eu tenho orado todos os dias. Que Deus o ilumine em suas falas e decisões. Que ele não retroceda. Que não se curve aos “velhos”. Que siga em frente. Que continue reformando a Cúria Romana. Que continue reformando a composição do Colégio dos Cardeais. Que se inspire sempre na vida de Chiquinho de Assis. Que Deus o abençoe. Que o Santo Espírito o inflame. Que Jesus continue ao seu lado. 


Francisco já disse que dorme sem tomar tranquilizantes. Que assim mesmo ele continue. Que jamais se sinta incomodado. E que continue incomodando. Incomodando aos passadistas, que adormeceram no século XIX, embora ainda não tivessem nascido naquele século. A Igreja não tem século. Não tem um tempo peculiar. O tempo da Igreja é o tempo de Deus, ou seja, a eternidade. 


*PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE

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