23 de janeiro de 2017
POR: José Lima Santana - jlsantana@bol.com.br
Fonte: José Lima Santana

MORTE POR ENCOMENDA :: Por José Lima Santana


José Lima Santana* - jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana (Imagem: Arquivo Pessoal)

José Lima Santana (Imagem: Arquivo Pessoal)

Mariozinho de Zé de Guguio comprou um carro. Um fusquinha. Do ano. Portanto, novinho em folha. Totonho de  ngelo Galego disse que fusca era como chifre: um dia na vida, todo mundo teve um. Danou-se. Mas, Marinaldo de Zé de Guguio, irmão de Mariozinho, rebateu: nem todo mundo teve um fusca, nem todo macho era corno. Não ali no sertão de Cajazeiras. Podia ser que ele tivesse razão. 


Mariozinho deveria ser Mariozão. Alto, forte, era um tipão de sujeito que destoava da maioria dos rapazes dali. Vistoso e bem quisto. Era o mais novo de doze irmãos, todos eles homens. O pai, Zé de Guguio, não era femeiro, como se dizia dos homens que só procriavam filhas. Era um pai d’égua. Igualzinho ao pai, Guguio do Pau d’Arco, pai de duas dezenas e pouco de filhos e filhas, cujas mães foram as três mulheres com as quais ele casou. Viuvou por duas vezes. Com todas, ele casou na Igreja e no cartório, como mandavam as leis de Deus e dos homens. 


Mariozinho deu para arrastar asas ao redor de uma neta de Jaconias Reis, chefe político há mais de quarenta anos, maior fazendeiro da região e maior matador de gente. Matava com as próprias mãos ou por mãos alheias. Era um homem endiabrado, do tempo do carrancismo. Um dinossauro da velha política. Um sobrevivente dos tempos das tocaias. Para ele, “trabalharam” os piores facínoras do sertão de três estados.


O neto de Guguio namorando a neta de Jaconias? Um despropósito! Os dois avôs eram antigos adversários. Eternos adversários, que se perpetuariam nos filhos e netos. E nas demais gerações. Como era a lei nos sertões bravios. A lei de homens que tinham sangue nos olhos e pelos nos buracos das ventas. Jaconias e Guguio eram de partidos diferentes. Até morrer, e morreu de morte morrida, Guguio do Pau d’Arco foi o calo no pé de Jaconias, que ele chamava de Cobra Enroscada. Pronta para dar o bote. Bote mortífero. Muitos tombaram sob os seus botes, as suas tocaias. Porém, o velho pai d’égua escapou ileso de várias daquelas tocaias. Milagre. Anjo da guarda forte e de plantão. Corpo fechado.  


“Neta minha não bota os olhos em neto de cabra safado, de ladrão de bode”, vociferou Jaconias Reis, ao saber do arrastar de asas. Mariozinho era bancário. Ele tinha, na década de 1960, um empregão: era caixa do Banco do Brasil. Emprego de tinir. Logo, logo chegaria a gerente. Um pequeno barão. Guguio era criador de bodes, talvez o maior do sertão. Daí a ser ladrão, com certeza, ele jamais fora. Chamar alguém de “ladrão de bode”, naquelas lonjuras, era pior, muito mais baixo, do que chamar de ladrão de galinha. Bodes e jegues eram bichos sagrados no sertão. Não se roubava, a não ser que o sujeito fosse um herege, um ladrão da pior espécie. Uma ruma de estrume. Gente daquele tipo seria a escória das escórias. 


Jaconias procurava ferir Guguio, com quem ele não pôde, por várias vezes, com o dedo no gatilho. Dizia-se em todo canto que Guguio tinha o corpo fechado. Ele carregava no pescoço um patuá, que lhe fora dado por mãe Olindina da Gruta da Onça, quando ele a livrara de ser presa pelo sargento Belisário Faca Longa, numa alusão ao sabre, a mando de Jaconias, uns trinta anos atrás. Naquela época, ele era o intendente municipal e costumava mandar surrar e prender homens e mulheres que não votavam no seu partido ou dele falavam mal. Mãe Olindina tinha a língua solta.


No episódio, o sargento e dois soldados dirigiram-se de rota batida à Gruta da Onça, lugarejo esquisito e lúgubre, onde estava instalado o terreiro de Olindina. Na verdade, um casebre miserável de taipa e chão batido. Guguio “molhou a mão” do sargento e ele apresentou-se a Jaconias com os atabaques de Olindina mais furados do que urupembas. Boa artimanha. 


Guguio também carregava no bolso miúdo da calça, como se usava antigamente, uma oração poderosa, escrita num minúsculo pedaço de pergaminho sagrado da Terra Santa, que a sua santa mãe, Dona Izaldina, trouxera do Juazeiro do Padim Ciço. Assim, ele tinha o corpo duplamente fechado contra bala ou faca. Contra tudo. Contra todos. Forças benéficas do além o protegiam. 


Na última emboscada de que Guguio foi alvo, o mortífero Joca Bebe Sangue mirou a escopeta quase à queima roupa e disparou. No exato instante em que o dedo do matador de aluguel acionou o gatilho, um vento forte, um quase vendaval, tangeu Guguio para o lado, ao tempo em que desequilibrou Joca Bebe Sangue, que ficou com muitos ciscos nos olhos. Passaria mais de um mês sem nada poder enxergar. Mais uma vez, salvou-se o velho pai d’égua, avô de Mariozinho.


Jaconias encomendou a morte do rapaz. Mandou buscar no sertão de Alagoas o filho de um antigo matador, que muitos serviços ele lhe tinha prestado. Diziam que o sujeito era ainda melhor do que o pai, no ofício de matar. O contratado marcou Mariozinho, que arrastava asas para a neta de Jaconias. E esta também estava caída por ele, como fruta que cai de madura. 


Numa tarde de sábado, Mariozinho pegou o fusca e se mandou para a fazenda do irmão mais velho, Marinaldo. Estrada de chão, de piçarras soltas. O fusca desgovernou-se e, na curva do S, caiu no precipício. Joãozinho Cascavel seguia o moço do Banco do Brasil. Ele viu a pouca distância, o carro mergulhar no despenhadeiro, deixando atrás de si um rastro de poeira vermelha. Espatifou-se lá embaixo. De Mariozinho não devia ter sobrado nada. O matador parou o jeep. Desceu com cuidado o despenhadeiro. Acercou-se do fusca amassado. Pela porta aberta, ele viu o corpo do rapaz ensanguentado. Ouviu gemidos. 


O matador alagoano, com nome de cobra, conseguiu retirar Mariozinho das ferragens. Ele também era um tipão de homem. Carregou o moço a duras penas. Com muito esforço, subiu a ladeira. Botou o moço no jeep. Levou-o à cidade. Salvou-lhe a vida. Ao saber do ocorrido, Jaconias Reis mandou procurar o matador. “Seu Joãozinho, você, diferente do seu pai, que era um homem de verdade, acaba de me decepcionar. Salvou a vida de quem deveria matar. Você tinha que deixar aquele infeliz, neto de um ladrão de bode, que o diabo já carregou para o inferno, morrer no precipício. Você envergonha qualquer matador de meia tigela. Você é uma decepção. Nem merece o nome de Cascavel”. O velho Jaconias, do alto dos seus 88 anos de idade, espumava mais do que as águas do mar.


Calmo, muito calmo, o matador respondeu: “Seu Jaconias, o senhor não me conhece, mas conheceu o meu pai. Eu não sou nem um tiquinho assim melhor nem pior do que ele. Acontece, seu Jaconias, que se eu tivesse deixado o rapaz morrer daquele jeito, o senhor certamente não pagaria o acertado comigo. O senhor haveria de dizer que ele tinha morrido por causa do acidente, e não por minhas mãos. Nem eu poderia lhe cobrar vintém”.


Jaconias franziu as grossas sobrancelhas. Tossiu. Escarrou e atirou no chão do telheiro uma cusparada escura, fruto da nicotina ingerida por mais de setenta anos. Joãozinho Cascavel continuou: “Pode deixar, seu Jaconias. Quando o sujeito ficar bom, eu dou um jeito nele. Volto aqui e mato o dito cujo. E o senhor vai me pagar o combinado. Joãozinho Cascavel, filho de Trajano do Beiral de Cima, não falha nunca. Nem é burro para perder tempo e dinheiro”. 


Foi a vez de Joãozinho Cascavel cuspir. E cuspiu quase nos pés do velho Jaconias.


*PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE


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