10 de janeiro de 2017
POR: José Lima Santana - jlsantana@bol.com.br
Fonte: José Lima Santana

TITO DE ZÉ RUFINO E O DEMÔNIO SEM CABEÇA :: Por José Lima Santana


José Lima Santana* - jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana (Imagem: Arquivo Pessoal)

José Lima Santana (Imagem: Arquivo Pessoal)

Noite escura. Noite de breu. Noite de arrepios. Na escuridão do mundo há de tudo. Até demônios os há. Na escuridão dos corações sem fé não há nada. É puro breu. Nenhum sentimento de luz. Treva. Treva. Treva. Naquela noite de sexta-feira, 13 de agosto de 1948, Pedro Chape-Chape deve ter visto o tinhoso. Ele apareceu morto sem nenhum ferimento feito à bala, faca, foice ou pauladas. O corpo estava intacto. Os olhos esbugalhados, como se ele tivesse visto mesmo o capeta, senhor dos infernos. A expressão dos olhos vitrificados era assustadora. Coisa boa ele não devia ter visto antes de morrer. Pedro bateu as botas – e de botas ele estava, sim! – no Baixio das Quenturas, lugar assim chamado porque, segundo se dizia e se provava, em certas horas incertas do dia ou da noite uma quentura subia da terra como uma fornalha invisível capaz de assar quem por ali passasse. Muita gente, aliás, evitava aquele lugar, que era um trechinho de pouco mais de vinte varas, no comprido. Ali já tinham sido rezadas missas com acompanhamento de imagens de santos em charolas. Gente como um formigueiro nas missas celebradas. Mas, a quentura continuava. Ali era a boca do inferno. Dizia-se. 


Também foram feitas benzeduras de mães e pais de santo tidos como sabidos nas coisas dos encantamentos do outro lado do oceano. É preciso falar sobre a saia branca de Maria do Timbó, uma antiga escrava que muito mal aprendera a falar a língua da gente, pois viera para cá ainda menina, nascida para chefiar terreiro, e se recusava a deixar para trás a língua iorubá de sua origem. Pouco arranhava o português. Viveu mais de cem anos, falando a língua enrolada dos orixás. Numa sessão de sacudimento, foi feito um ebá, para espantar o mal que ali no Baixio fazia morada, e eis que a saia branca de Mãe Maria do Timbó, que, na roda do abassá, ou terreiro, era chamada de Ashia Koffi, pegou fogo do nada, quase assando viva a preta velha. Mais que depressa, ela se atirou no charco do Baixio e o fogo foi debelado. Aquele lugar parecia ser mesmo o esconderijo do zambeta, do pé de bode. Seria um balê, na língua iorubá, um antigo cemitério que servia de morada a espíritos sujos. 


Tito de Zé Rufino era funileiro. Na sua tenda, ele fazia de tudo que se referisse a ferro, cobre, zinco e flandres. Chaves para todo tipo de fechadura, ralos para coco e milho, candeeiros, funis para bebidas e querosene. Afiava facas e tesouras, consertava vasilhames e muito mais. Casado com Rosa Amélia, flor desabrochada no mais belo jardim que um homem poderia pisar, ela morreu de parto e com ela foi-se aquele que seria o primeiro filho do casal. Alegava-se um erro da parteira, no tempo em que médico era luxo de poucos ricos da cidade. Desde então, o mais afamado funileiro dos Grotões da Zabelê, uma porção de terra de cerca de cinquenta léguas em quadra, tornou-se um pau d’água. Um alcoólatra. Tito bebia por meses a fio. Fazia uma pausa de outros tantos meses e trabalhava como se o mundo fosse se acabar. Voltava a beber por meses a fio. Vivia num desconsolo sem fim. Não conseguiu sobreviver a contento à morte da mulher e do filho recém-nascido, que morreu horas depois da mãe. Um golpe tão profundo nas entranhas de Tito, que o levou ao vício do álcool, que ele jamais tinha ingerido até então, nem uma gotinha sequer para remédio. Mente e coração dilacerados. 


A família de Tito de tudo fazia para recuperá-lo. Em vão. Os ciclos alternados de sobriedade e bebedeira continuavam. Não havia explicação para essa alternância. Quando ele estava sóbrio, trabalhava como um condenado. Não parava. Encomendas não faltavam. Mas, quando ele fechava a tenda, era capaz de consumir toda a água das bodegas, que passarinho não bebia. 


Em janeiro de 1955, o padre Montes levou para a cidade um frade capuchinho para pregar uma Santa Missão. Era um frade de idade avançada, mas muito ativo. Foi uma semana de rezas e cantorias, que arrastou gente de todos os lugarejos do Grotão da Zabelê e de muito além. Uma festança religiosa de fazer frente às famosas festas de Nossa Senhora do Ó e de Senhor dos Passos, no Lagamar e na Gameleira, cidades que não comportavam o número de fieis que acorriam para as duas festas. 


Julinha de Zé Rufino, irmã mais nova de Tito, devota de São Francisco de Assis, adquiriu um terço que tinha uma medalha com a imagem da Virgem das Dores de um lado e a imagem do santo de Assis do outro. Ela, zeladora do Apostolado da Oração, conseguiu que o frade missionário benzesse o terço, que ela o deu ao irmão, na esperança de que ele se livrasse de uma vez por todas do mal da cachaça. Tito era apegado à irmã caçula. Embora não fosse dado a litanias de igreja, ele aceitou de bom grado o presente da irmã, muito mais para não a desgostar do que por outro motivo. Todavia, não se afastaria do terço, que o manteria sempre no bolso direito da calça. 


Após um ciclo de quatro meses trabalhando em perfeita sobriedade, Tito retornou ao ciclo etílico. Sexta-feira. 13 de agosto. Fazia já um lote de anos desde a morte de Pedro Chape-Chape, no Baixio das Quenturas. Noite. Tarde da noite. Tito vinha do povoado Ranchinho e passava pelo Baixio. Havia tempos que não se falava numa presepada ali ocorrida. Nem para tanto Tito estava ligando, no estado de embriaguez em que se encontrava, acostumado a varar caminhos e veredas, quer de dia, quer de noite. Ao chegar ao meio do Baixio, que era um pedaço de chão muito pequeno, como já descrito anteriormente, sentiu como se uma fornalha tivesse sido aberta à sua frente. Uma lufada de ar quente parecia queimar-lhe o corpo inteiro. O chapéu voou da cabeça. Ele se viu jogado ao chão. Ao tentar levantar-se, deparou com um bicho, um monstro parecido com um grande macaco, mas não era um macaco, sem cabeça e com uma boca enorme de fogo em brasa, abaixo dos ombros, no lugar do coração, como se fosse lhe engolir. Tito tentou arrastar-se no chão em marcha ré. As pernas não lhe obedeceram. Quis gritar, mas a voz ficou presa na garganta. Pavor! 


Um cheiro de enxofre rescendeu no ar, como se uma barrica do produto tivesse sido aberta bem na sua cara. Era o cheiro do coisa ruim, do inimigo. Ao menos, era como se dizia. Tito chegou a pensar que a cachaça o estava fazendo ver coisas que não existiam. Mas, não era isso não. O monstro avançou para ele a passos lentos. A agonia e o horror cresceram em Tito. O calor do inferno estava ali. Ele o sentia. Com as mãos no solo, tentando, sem conseguir, se arrastar para longe do bicho, eis que o terço saltou do bolso da calça e caiu bem em cima da mão. Tito o segurou. Apertou-o. Enfim, o nó da garganta foi destravado. Ele gritou: “Valei-me meu Pai do Céu!”. Foi no exato instante em que o demônio sem cabeça do Baixio das Quenturas estava a um palmo de Tito. Sem largar o terço, ele tornou a gritar: “Vai-te por inferno, satanás!”. Eis que ele ouviu um estrondo, muito mais forte do que o mais barulhento dos trovões. Uma bola de fogo consumiu o bicho e desfez-se no ar. Foi a última imagem que Tito viu.


Pela manhã, Tito de Zé Rufino foi encontrado morto. O terço estava em sua mão direita. Ao seu lado, quatro garrafas de aguardente, vazias. O seu semblante estava sereno como se ele tivesse encontrado a paz. A partir dali, nunca mais ocorreram presepadas no Baixio das Quenturas, que não esquentou mais como antes, nem de dia, nem de noite. No lugar, a família de Tito fez levantar uma santa cruz. Já no ano seguinte, uma romaria se fez. Hoje, é a maior romaria que se conhece para além do Grotão da Zabelê, num raio de umas duzentas léguas em quadra bem medidas.


Ah, quase ia me esquecendo: na mão esquerda de Tito foi encontrada uma “perna” parecida com a pata de um bode. Nela, o cheiro de enxofre era muito forte. Vôte! 


*PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE


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