22 de maio de 2016
POR: José Lima Santana - jlsantana@bol.com.br
Fonte: José Lima Santana

Frei Antônio e as mulheres grávidas :: Por José Lima Santana


José Lima Santana(*)  jlsantana@bol.com.br


Frei Antônio. Frei Antônio de Lalande. Português do Ribatejo. Na verdade, ele era de Torres Novas, no distrito de Santarém, ao norte do Ribatejo. Ali, apresentam-se duas regiões geomorfológicas distintas. Ao fundo, o cenário da Serra de Aire, de característica acidentada e de formação calcária. Ao noroeste, contrastando com o cenário anterior, aparecem as regiões planas do Ribatejo, formadas pelos rios Tejo e Almonda, cujas enchentes alimentam as terras circundantes, fertilizando-as. O rio Almonda e a Serra do Aire são os fatores mais marcantes da paisagem natural de Torres Novas, cujo clima é favorável ao cultivo da figueira e da amendoeira. A região também é rica em pinheiro bravo, não esquecendo os olivais e os laranjais. Riquezas da terra.
Foi, pois, daquelas terras lusitanas que, aos trinta e poucos anos de idade, frei Antônio de Lalande arribou para o Brasil. Instalou-se, de princípio, numa grande capital. Logo depois, bandeou-se para o Nordeste, a fim de formar nova comunidade com dois outros frades franciscanos menores. Aquele jovem filho de Francisco de Assis, ou Chiquinho de Assis, para os mais íntimos como eu (que petulância, hein?) não gostou da cidade grande. Na quentura nordestina, no meio do povo pobre, porém, ele se deu muito bem. Era um guapo português com provável ascendência visigótica e moura, numa mistura tão comum em Portugal. Um tipão de frei bem apanhado, como dizia Dona Carmelita de ‘seu’ Jerônimo do finado Aristides do Campo Grande. Um incansável batalhador para a afirmação da nova comunidade religiosa e, também, para lutar ao lado dos pobres. Os jovens o adoravam. Ele tinha um jeito especial para a catequese da juventude. Infiltrava-se no meio dos jovens, cantando e tocando violão, que era uma graça. Um ano, dois anos, três anos, e frei Antônio de Lalande ardia debaixo do sol inclemente do Nordeste. Chapelão de palha na cabeça, ele subia e descia morros, levantava a poeira avermelhada das estradas, no período abrasador do verão e salpicava a veste marrom com a lama que subia das sandálias, no tempo de chuvas. Nunca se ouviu um boato sobre algo que desabonasse o trabalho e a pessoa de frei Antônio de Lalande. As velhas beatas tinham-no como um jovem santo. Prestativo como ele só. Homem de oração e de ação. Metido com o povo.
Meter-se com o povo podia ser perigoso naqueles anos quentes dos meados da década de 1960. Qualquer um poderia ser tido como comunista. Bastava estar ao lado dos pobres. Frei Antônio sempre estivera ao lado dos pobres. Ajudando-os. Incentivando-os. Fazendo-os descobrir as maravilhas do Evangelho. Todos aprendendo a se ajudarem mutuamente. Isso haveria, um dia, de desgostar alguém. Quem sabia se não seria o prefeito local, que já tinha passado pela Prefeitura três vezes. O pai tinha sido prefeito. O avô também. Dizem até que o bisavô tinha sido barão do Império. Na Monarquia muitos tabacudos chegaram ao baronato, sabe Deus como! Se os barões se foram, os coronéis teimavam em não ir. Eles continuavam dando as cartas. Cartas marcadas de um baralho sebento.
Numa tardezinha ensolarada, frei Antônio cuidava da papelada da comunidade franciscana, para a devida prestação de contas semestral à sua Província. Alguém bateu à porta. Surpresa. Era o prefeito. Frei Antônio cuidou em acomodar a autoridade. E que autoridade! Tomando assento numa velha poltrona, o prefeito foi direto ao ponto que lhe interessava. Tinha gente falando mal do frei. Tinha uns maridos desconfiados com as gravidezes de suas mulheres. Eram três. Todas casadas há um bom tempo, mas que não tiveram filhos até então. Queria dizer, até conhecerem o frei. Até se aconselharem com ele. Era o que se dizia nas casas e nas ruas. O frei sabia como era a língua do povo. O frei sabia muito bem que, para o povo dali, onde havia fumaça, havia fogo. Ele, João Fulgêncio, homem temente a Deus, não seria capaz de imaginar nem de apoiar o que se dizia por ali. Ora, dizer que três mulheres casadas, que tinham os órgãos da gestação destrambelhados, engravidaram depois de tanto se ajoelharem aos pés do frei, era um disparate. Mas, o frei sabia como era a língua do povo. Por outro lado, o Espírito Santo não devia ter-se bandeado para aquelas terras, para fazer tantos milagres. Embora ele, o prefeito, não concordasse com o que diziam, não era um despautério afirmar que um homem naquela idade, que pouco passara dos trinta anos, bem fornido e descansado, não pudesse ser nas cabeças das pessoas, um motivo para certos desarranjos com as mulheres. E ainda tinha o falatório do frei em favor dos pobres, que assustava alguns.
Frei Antônio de Lalande ouviu tudo, calado. Sem pestanejar. Não parecia ter-se afligido com a lenga-lenga do prefeito. Ao contrário, deixou sempre à mostra um sorriso suave, enquanto o político dizia o que queria. Quando João Fulgêncio parecia ter-se dado por satisfeito, frei Antônio disse: “Senhor prefeito, eu não sou um santo, como, por exemplo, São Francisco de Assis, o nosso fundador e patrono. Na verdade, eu sou um pecador. Todavia, eu dobro os meus joelhos diante do Cristo Eucarístico, todos os dias. Eu invoco o fogo abrasador do Espírito de Deus, para que Ele me dê sabedoria e discernimento. Eu louvo o Santo nome do nosso Criador e o do nosso Salvador. Eu rezo o rosário da Mãe de Jesus. Todos os dias. Só assim, eu encontro firmeza nos meus propósitos de testemunhar Jesus Cristo. De anunciar o seu Evangelho. E de denunciar, quando é preciso. Eu oro com fervor, embora seja ainda dono de um fervor tão pequenino, de uma fé que procura se afirmar, para atender aos pedidos das pessoas em suas agonias e em seus desejos mais íntimos e mais puros. Saiba o senhor, que para Deus nada é impossível. E que o tempo de Deus não é o tempo dos homens. Eu orei muito por quatro mulheres que tinham ânsia de serem mães. O senhor está vendo aquele monte?, indagou-lhe, apontando a silhueta do cume de um pequeno monte que aparecia através da janela, que o frei tinha aberto tão logo o prefeito chegara. Nele eu subi de joelhos várias vezes, ao alvorecer. Eu pedi a Deus por aquelas quatro mulheres. A três delas, Deus já atendeu. Espero, em nome de Jesus, que a quarta mulher receba logo a sua graça e a sua bênção. Senhor prefeito, eu sou um pecador, mas, para a sua ciência, eu jamais pequei contra a castidade. Jamais contradisse os meus votos. Disso Deus é sabedor. Vá em paz, senhor prefeito, que Deus também vai abençoar a sua casa”.
Foi-se o prefeito. Frei Antônio de Lalande, mais uma vez, dobrou os joelhos. Orou até que a noite se fez. Meses depois, Aparecida de Epitácio, carroceiro, Maria Célia de Pedro Oliveira, dono do armazém de secos e molhados, e Aninha de Cecílio, um pequeno sitiante, deram à luz. Três menininhos. Cada um tinha uma característica do respectivo pai. Um tinha a mesma mancha vermelha do pai, na testa. Outro tinha um sinal acima do olho esquerdo, igualzinho ao pai. E o terceiro tinha um sinal em forma de “v”, no tórax, como o pai também o tinha. E seis meses depois daqueles três nascimentos, a mulher do prefeito, que era a segunda esposa, pois ele viuvara há uns dez anos, também ela daria à luz. A um menino. Antes, ela passara pelo dissabor de três abortos involuntários. Sofreu muito. Os médicos aconselharam que ela não tentasse mais engravidar. Corria riscos. E eis que o menino nasceu com o olho esquerdo semiaberto como o prefeito.
Os quatro meninos foram batizados com o nome de Antônio. Igual ao jovem frei, cujas orações foram ouvidas por Deus. Um daqueles meninos é, hoje, bispo. E frei Antônio de Lalande, que já passa dos oitenta anos, é o seu confessor.


 


(*) Advogado, professor da UFS, membro da ASL e do IHGSE


Publicado no Jornal da Cidade, edição de 22 de maio de 2016. Publicação neste site autorizada pelo autor.


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