23 de abril de 2016
POR: José Lima Santana - jlsantana@bol.com.br
Fonte: José Lima Santana

O juiz e as mulheres :: Por José Lima Santana


José Lima Santana(*)  jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana (Foto: Arquivo pessoal)

José Lima Santana (Foto: Arquivo pessoal)

Dr. Jean Carlos Moreira da Silveira Montes. Jovem juiz de direito, há pouco mais de três anos oficiando no sertão. Comarca nova, instalada há menos de cinco anos. Ele era o segundo juiz naquela jurisdição. Embora nova, os processos aumentavam a cada dia naquela comarca. Processos de todo tipo. Vara única. Trabalho em demasia. O promotor de justiça era diligente e isso concorria para o bom andamento dos processos.
O juiz e o promotor não eram do tipo que se recolhiam aos aposentos do Fórum, fora do expediente. Não eram do tipo que se sentiam semideuses. Mantinham relativa convivência social. E até mesmo jogavam futsal no time improvisado que um assessor formara. Sabiam, porém, o juiz e o promotor, manter a postura que os respectivos cargos exigiam de ambos. As autoridades municipais e as pessoas em geral louvavam a atuação prestimosa e eficiente de ambos.
O Dr. Jean Carlos mantivera um namoro de vários anos com uma colega de sua irmã, estudante de medicina. Casaram-se logo após ele ter sido aprovado no concurso para juiz substituto e após ela ter retornado da residência médica em São Paulo. Ela era cardiologista e mantinha uma clínica com boa clientela. Os dois formavam um casal apaixonado, cúmplice. Em pouco tempo, já eram pais de um garotinho, Jean-Pierre Albuquerque da Silveira Montes. A Dra. Mônica Albuquerque jamais teve motivos para sentir ciúmes do marido. O juiz era um homem devotado à esposa, ao filho, ao trabalho e ao estudo. Férias combinadas, viagens realizadas. Gostavam de desvendar novas plagas turísticas. Fugiam dos centros mais festejados pelos turistas.
O juiz Jean Carlos não era dado a farras nos fins de semana. Seus fins de semana eram dedicados à família. À sua e à de sua esposa. Era, por assim dizer, o filho predileto de seus pais. O outro irmão, John Alberto, trabalhava no exterior. E pouco dava notícias. Vivia de um para outro lado, de um para outro canto do mundo. Trabalhava com informática. Desde pequeno, ele era disperso em relação à família. Cedo, tornara-se um autêntico andarilho. Os sogros do juiz, também médicos como a filha, tinham o genro em grande consideração. E ele, Jean Carlos, era amável com todos. As luzes de sua vida eram a mulher e o filho. Por eles, ele vivia. Trabalhava. Esmerava-se. Por outro lado, ele era o marido que qualquer mulher desejaria ter. O pai que qualquer filho, de tenra idade ou não, poderia ter como o melhor dos pais. O seu filhinho, ainda tão novo, parecia-lhe um raio de sol, o mais dourado raio de sol. A brisa mais branda. O mais vivo e sublime lírio do campo. Mais branco. Mais perfumado.
Poderia haver casal mais feliz do que Jean Carlos e Mônica? Tão feliz, deviam ser poucos. Casal mais feliz, provavelmente, nenhum. Nunca se sabia ao certo. E a cardiologista era o sonho de mulher que um homem poderia almejar. Mulher de fibra. Autêntica. Dedicada ao trabalho. Atualizada. Bela. Contudo, a despeito de muito trabalhar, era uma esposa e uma mãe exemplar. A agenda profissional era limitada pela agenda familiar. Jean Carlos e Mônica eram um para o outro como o orvalho das madrugadas o é para a relva macia, que cresce nos prados e nos jardins. Eles empreendiam a mesma caminhada, mas cada um caminhando com os próprios pés. Respeitavam-se. Compreendiam-se. Amavam-se. Discordâncias? Sim, mas muito poucas. Nada que não pudessem resolver com o diálogo aberto e sincero que cultivavam desde o início do namoro. Embora seja uma afirmação do tipo que se diz ser “lugar comum”, a vida lhes sorria e eles sorriam para a vida.
Um fim de semana prolongado. Muito antes, Mônica planejara viajar. Jean Carlos concordou. Eles iriam a Belo Horizonte, alugariam um carro e fariam um tour pelas cidades históricas mineiras. Antes, porém, de adquirirem as passagens aéreas e tomarem outras providências, ele desistiu da viagem, alegando que precisava ajeitar as coisas na comarca, pois haveria uma visita do corregedor. Ela sentiu muito, mas compreendeu. A viagem ficaria para outra oportunidade. Passariam o fim de semana em casa. Ele levou alguns processos para despachar. Processos que requeriam um estudo mais aprofundado. Mandados de segurança. Professores em conflito com o poder público. Pensões alimentícias. Sentenças de pronúncia a serem proferidas. E muito mais.
No sábado à noite, o juiz demorou-se para se recolher. Ficara até o início da madrugada envolto com os processos. Mônica recolhera-se pouco depois do jantar. Tinham jantado fora. Comeram bons pratos e tomaram um bom vinho. Como sempre, um casal que exalava o inebriante perfume da felicidade. A licença poética é sempre cabível. O juiz Jean Carlos não teve um sono tranquilo. Aliás, nos últimos fins de semana, que era quando ele estava em casa, Mônica notou que ele dormia com alguns sobressaltos. Remexia-se muito na cama. Proferia baixinho, palavras sem nexo. Dentre essas palavras, ele parecia pronunciar alguns nomes de mulheres. Ao menos, foi o que ela pensou. Ela, porém, nada lhe disse. Ah, naquela noite ele explicitou os nomes! E eram, sim, nomes de mulheres. Ela os ouviu muito bem. “Marta”. “Ana Helena”, “Suzana”. Jean Carlos estaria tendo uma espécie de pesadelo. Ele balbuciava: “Marta... filhos...”. “Ana Helena... filho”. “Suzana... filha...”. E muitas outras palavras sem sentido. Mônica jamais poderia acreditar que seu marido a trairia. Não. Jean Carlos, não. Todavia, uma Suzana foi colega de turma dele e, antes dela, eles tiveram um flerte. Algumas amigas diziam que ela, mesmo casada, nunca o esquecera. Ela não acreditava. Ele tinha uma assessora chamada Marta. Muito saliente para o gosto dela, embora ela não acreditasse que algo pudesse acontecer entre eles. Não. Com Jean Charles, não. E Ana Helena, quem seria? Ela não conhecia nenhuma Ana Helena.
Teria Jean Carlos filhos fora do casamento? Com aquelas três mulheres? Por que em sonho, ou pesadelo, ele se referia a elas? Por que ao falar nelas ligou o nome de cada uma às palavras “filho, filha e filhos”? Rachel, sua irmã mais velha, cujo casamento que era tão ajustado, ou ao menos assim parecia, desmoronou quando ela soube que o marido tinha outra mulher com dois filhos, em Maceió, onde ele também trabalhava como engenheiro. Rachel sempre alertava Mônica: “Tenha cuidado! Com um juiz bonitão como esse deve ter um monte de mulher se jogando pra ele. Olho vivo, mana!”. Não poderia ser. Mônica afligiu-se de repente. Acordou Jean Carlos. Ele, aturdido, soava em bicas, embora o ar-condicionado estivesse ligado. Espantou-se com a cara de choro da mulher. Com a luz acesa. “O que foi? O que aconteceu?”. Ela lhe disse o que ouviu. Os nomes das três mulheres. A referência a filhos. “Eu acho que estou tendo um pesadelo, minha flor única!”. Era assim que ele gostava de chamá-la. “Minha flor única!”. Ele arrematou ainda espantado: “Eu com outras mulheres? E com filhos? Ah, meu Deus!”. Quis sorrir. Ela o conteve. “Jean Carlos, você não me deve uma explicação?”. E ele: “Sim, devo-lhe sim!”. Quase cambaleando, ele saiu do quarto e, logo depois, retornou com alguns processos nas mãos. “Aqui estão os processos. Ações de pensão alimentícia. Os requerentes são Ana Helena e seu filho, Suzana e sua filha, e Marta e seus dois filhos. Foram os últimos processos que eu despachei antes de dormir”.
O juiz, assoberbado de trabalho, tinha sonhado com os processos e proferido, no sonho, os nomes das partes. Nada mais. A mulher do juiz continuava sendo a sua única flor.


 


(*) Advogado, professor da UFS, membro da ASL e do IHGSE


Publicado no Jornal da Cidade, edição de 09 de abril de 2016. Publicação neste site autorizada pelo autor.


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