27 de março de 2016
POR: José Lima Santana - jlsantana@bol.com.br
Fonte: José Lima Santana

Bala perdida :: Por José Lima Santana


José Lima Santana(*)  jlsantana@bol.com.br


Bala perdida (Foto: Reprodução/Internet)

Bala perdida (Foto: Reprodução/Internet)

Ladeira dos Tabajaras. Copacabana. Rio de Janeiro. Pouco passava das 15 horas. Um grito. Um filete de sangue. A camisa branca tingida de vermelho. Ali mesmo, no meio da rua estreita e tortuosa, o rapaz caiu. Não gritou mais. Os olhos esbugalhados davam-lhe um ar de horror. Dezoito anos mal e mal completados. Ele era o terceiro a morrer assim naquele lugar em menos de sessenta dias. A mãe do rapaz era dona de um pequeno ponto de venda de doces ali perto. Avisada, correu como uma desesperada. Amparou em seu colo o corpo do filho. A dor lancinante de uma mãe que perdeu o seu primogênito. Dor sem consolo. Estava no segundo período de Medicina. Conseguiu aprovação no sistema de cotas na UFRJ, mas os seus pontos o colocariam entre os primeiros colocados dos que estavam fora das cotas. Estudioso desde muito pequeno. O orgulho da família pobre de nordestinos, como muitos que ajudaram a erguer a riqueza do sul/sudeste. Uma mãe com o coração trespassado de dor no meio da rua. O filho inocente no colo, morto.
Antônio Varjão, ou Toinho Alagoano, enterraria o neto. Ele jamais poderia esperar por aquilo. Na casa do seu filho e pai do rapaz assassinado, Pedro Henrique de Souza Varjão, motorista de ônibus, da linha 474, Jacaré/Jardim de Alah, cujo itinerário começa na Rua Álvaro Seixas, no Engenho Novo, e culmina na Av. Afrânio de Mello Franco, no Leblon, o pranto não cessava. Pai, mãe e irmãos, todos mais novos, pranteavam o rapaz de 18 anos que caiu sem vida na ladeira. Toinho Alagoano era assim chamado por ter desposado uma filha das Alagoas, embora piauiense ele fosse. A mulher, Dona Inocência, era do sertão alagoano e mudara-se para o Rio de Janeiro, ainda criança, quando a família arribara após mais uma seca. O seu pai, Sebastião Peixoto de Souza, era sanfoneiro. Logo, chegando ao Rio, arranjou o que fazer, tocando na feira de São Cristóvão, a famosa feira dos nordestinos. Até que não era ruim interpretando as músicas de Luiz Gonzaga. Num sábado, em 1971, o próprio Gonzagão foi vê-lo tocar. Gostou do que viu. Deu-lhe de presente uma sanfona novinha em folha. O velho Luiz tinha o costume de dar sanfonas de presente a quem sabia tocar. Naquele caso, em bom tempo, aliás. O fole de Sebastião andava caindo aos pedaços. Folezinho surrado da moléstia! O sanfoneiro alagoano ainda trabalhava de pedreiro durante a semana, de segunda a sexta-feira. Longe, ficou a cidadezinha do sertão alagoano, bem como a seca e a vida incerta. Por vida incerta entenda-se uma vida de trabuco na mão. Bastião do Fole, como era conhecido em Jirau do Ponciano, tivera seu tempo como matador de aluguel. Vida incerta... Regenerou-se.
Um irmão de Antônio Varjão também tombara uns sete ou oito anos antes, varado por um tiro de fuzil, disparado por um policial, na Baixada Fluminense. O inquérito policial apontou que Severino Varjão atentara contra o policial com um revólver calibre 38. As testemunhas não viram isso. Contudo, o inquérito fora arquivado. A mulher de Antônio Alagoano sempre quis voltar para a terra natal. Para Alagoas, mas não para Girau do Ponciano. Ela sonhava com uma casinha pintada de branco, de portas azuis, para ela e o marido, com craveiros no oitão e roseiras no terreiro da frente. De preferência, numa região praieira. Uma casinha simples, para os dois. Muito bom seria se o filho motorista de ônibus e a família os acompanhassem. Sair do Rio. Deixar para trás a violência que tomara conta da Cidade Maravilhosa, que, dia a dia, perdia o encanto para muitos moradores e turistas. Era uma pena. Nenhuma cidade, para Dona Inocência, era mais bela do que aquela cidade. Mar e montanhas. Belezas indescritíveis. Mas a violência chegara ao limite do suportável. Aliás, ela via nos telejornais que a violência estava braba em todos os lugares. Na terra dela não era diferente. Porém, num lugarejo qualquer, à beira mar, devia-se viver bem melhor do que no Rio.
Antônio Varjão e a mulher conversaram com o filho, a nora e os netos. Ninguém quis saber de arribar do Rio. Ir para o Nordeste, fazer o quê? Não. Melhor, apesar de tudo, seria ficar mesmo no Rio. Ali, o campo de trabalho era melhor do que em Alagoas, do que no Nordeste. Se os pais resolvessem ir embora de verdade, eles os visitariam, nas férias, quando a situação permitisse. Talvez, ano sim, ano não. Já seria alguma coisa. Daria para matar a saudade. Balas perdidas havia no Rio, em São Paulo, em Alagoas, em todo lugar. As fatalidades sempre ocorriam. A violência fazia parte do mundo. Infelizmente.
Antônio Alagoano, que o era só no nome, como já foi dito, vendeu o pequeno apartamento. O dinheiro daria para comprar a casinha com a qual Dona Inocência tanto sonhava. Já tinham um negócio em vista. O casal conhecia Piaçabuçu, na foz do rio São Francisco. Ali, ela tinha uma prima. A mesma encontrara uma casa na medida certa para o casal. Casa com varanda, sala, cozinha, banheiro e dois quartos. Ah, e um arremedo de jardim, que Dona Inocência haveria de revitalizar e cuidar muito bem! O dinheiro da venda do apartamento daria para comprar a casa e ainda sobrariam alguns torçados. Antônio era aposentado como garçom e Dona Inocência, como merendeira de uma escola pública. O que ganhavam sempre deu para viver. E colaborar com os netos, quando era preciso.
Malas arrumadas. Na rodoviária, os netos não paravam de chorar. Eram por demais apegados aos avós. Maykon Clay, o neto de dezoito anos que fora varado por uma bala perdida na Ladeira dos Tabajaras, era o neto mais apegado aos avós. Basicamente, morava com eles. O desalento maior de Antônio e Dona Inocência era justamente a falta do neto, companheiro do avô nas tardes domingueiras de jogo no Maracanã. Nunca mais Antônio haveria de ir ao Maraca. Não. Sem o neto, ele não iria mais. Esperava descansar em paz em Piaçabuçu. Quando sobrasse algum dinheiro, mandaria buscar os netos no período de férias, no ano em que os pais não pudessem ir. Despediram-se. Todos com lágrimas nos olhos. Não há nada mais difícil do que uma separação, qualquer que seja. Como dói!
Arribaram. O ônibus leito varou a estrada. Cruzou alguns estados. Enfim, eis o casal na nova morada. Boa vizinhança. Aposentados jogando baralho, damas e dominó debaixo de frondosas amendoeiras. Diversão de velhos. Perto da casa havia uma igreja e Dona Inocência já fazia parte do Apostolado da Oração. No Rio, o filho continuava se virando com a família. Não houve mais nenhum sobressalto, mas balas perdidas continuavam cortando os ares cariocas.
Numa tarde de verão, Antônio Varjão conversava animadamente com o vizinho, Zeca Pombo. O telejornal do meio-dia mostrou mais uma vítima de bala perdida na Cidade Maravilhosa. Antônio falou do neto morto no meio da rua. Os seus olhos marejaram. Oito meses haviam se passado.
Zeca Pombo, sem pensar direito e sem maldade, disparou: “Por aqui, ‘seu’ Antônio, ninguém morre de bala perdida. Aqui ninguém erra o alvo”.
É cruel. Ponto final.


 


(*) Advogado, professor da UFS, membro da ASL e do IHGSE


Publicado no Jornal da Cidade, edição de 20 de março de 2016. Publicação neste site autorizada pelo autor.


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