30 de dezembro de 2015
POR: José Lima Santana - jlsantana@bol.com.br
Fonte: José Lima Santana

Zé de Totico :: Por José Lima Santana


José Lima Santana(*)  jlsantana@bol.com.br


Último artigo do ano. Exatamente este. Fechando a conta e passando a régua. 2015 está se escafedendo. Já vai tarde. Não sei por que, eu não gosto de números ímpares. Todavia, eu nasci em um dia ímpar, mês ímpar e ano ímpar. Não gosto de ímpares. Pronto. Quem gostar, que goste! Não eu. Nesse ponto, eu sou igual a Zé de Totico, meu vizinho há muito tempo. E lá se vai um magote de anos. Mais de quarenta. Ora, muito mais... Éramos meninos quando fomos vizinhos. Zé de Totico detestava números ímpares. Ele não contava 1, 2, 3, 4... Ele contava de 2 em 2. Era uma mania lá dele, ou sei lá o quê.
Zé de Totico era, ou é, pois dele eu não tenho notícias, José Ferreira dos Santos Souza, filho de Antônio dos Santos Souza e de Maria Júlia Ferreira. Neto do velho Totonhão do Baburubu, povoado na pista que sobe de Dores para Glória e o sertão todo. Não sei qual a razão de os vereadores, um dia, desses dias em que os sujeitos amanhecem com as cuecas às avessas, terem mudado o nome do povoado para Bravo Urubu. Ôia! Eu nunca vi um urubu bravo. Dizia-se, no passado, que Baburubu era o nome de um antigo chefe indígena dali das bandas das terras extensas dos Enforcados, primitivo nome de Nossa Senhora das Dores. Quando eu era menino, as pessoas mais velhas não gostavam desse antigo nome. Eu ainda gosto. Totonhão, antigo cambalafoice de políticos do começo do século XX, era o avô de Zé de Totico pelo lado paterno. Diziam até que Totonhão andou matando uns sujeitos no Dandá e nas Caraúnas, que na boca do povo soa “Craúna”, povoados que foram fenecendo, a ponto de quase desaparecer. Do lado materno, ele era neto de “seu” Jaconias de Mané Pulo de Gato. Este, o Mané Pulo de Gato, era amansador de burros e cavalos brabos, como poucos foram vistos de Dores a Canindé.
Zé de Totico... Devia ser uns três ou quatro anos mais velho do que eu. Mas era mirrado, sonolento, parecendo um bem-te-vi com sono. Porém, quando se tratava de pular cerca ou valado de macambira para apanhar frutas em quintais ou sítios alheios, ele era um gato. Sujeito arisco danado. E quando ele encrencava com alguém? Não respeitava tamanho. Não tinha sobrosso de pernas de calça. De caqui ou de mescla. De nada. Mirradinho enxofrado da moléstia! Canela de sabiá, braço de graveto, mas tinha um soco certeiro e dolorido, diziam, possivelmente em face da mão ossuda. Vi Zé de Totico botar pra correr muito moleque mais velho do que ele. Devia ser o sangue azougado de Totonhão, o avô paterno. Não era de puxar brigas, mas era turrão. Se mexessem com ele, o pau quebrava.
Festa de Ano Novo em Dores. Festança afamada, que batia de longe a festa de Natal, ambas na Praça da Matriz. A praça cheia. Entupida de gente. Gente de todo tamanho. Gente de vários lugares. Festa de amanhecer o dia fervilhando de gente, na praça e nas ruas. Muita gente voltando pra casa, nos povoados e nas cidades vizinhas. Como se dizia no vulgo, festa acabada, tabaréu na estrada. Pois foi numa festa de fim de ano que Zé de Totico fez história. Eu estava com ele. Eu e um magote de meninos da nossa idade, uns mais e outros menos, mas todos já adolescentes. É que os leitores não conheceram a casa da quina da Praça da Matriz descambando para a pracinha de “seu” Tota, onde ficava a casa de Valdete, irmã de Ismael, que era dono de um bem-te-vi que cantava o Hino Nacional. Valei-me! Diziam que ele tinha vendido o passarinho a um gringo, no Aracaju. Disso eu não dou prova. Vejam bem os leitores: eu sei de muita coisa da minha terra! E ainda dizem os meus amigos Artêmio Barreto, desembargador aposentado com raízes nos Enforcados, e Carlos Pina, conselheiro do TCE, que eu invento esses causos. Eles não sabem o quanto eu sei! Das coisas da minha terra, claro. E só. De outras coisas, sim, eu não devo saber mesmo não.
Pois bem. Só conheceu a tal quina quem era de Dores. Hoje, é a casa de dona Ivanilde do finado Berilo. A casa é outra. Foi ali, na quina. Descendo rente à casa de Valdete ia-se dar num beco, que ainda existe, pra onde vão dar os fundos de algumas casas da Praça da Matriz, do lado em frente à igreja e das casas da Rua da Prefeitura. Nesse beco, os meninos e os homens se desapertavam, quando tinham necessidade de fazer um pipizinho. Pois naquela noite de Ano Novo, uns adolescentes tomaram a direção do beco para despejar um tanto das bebidas ingeridas: jade, gasosa e refresco de tintura de groselha, que eram adquiridas nos botecos de guloseimas. Coisas que as crianças e os adolescentes adoravam. Foi na quina que os adolescentes pararam para uma conversa. Bem no meio da calçada de Valdete, Zé de Totico estava parado, dizendo coisas pra os outros rirem. É que ele também era dado a contar lorotas, piadas, e o fazia com uma graça inigualável. Quando ele fazia aquilo, nem parecia que tinha aquela cara de bem-te-vi com sono. Animava-se todo e animava os companheiros. Então, estava ele contando uma léria quando Bertino de Sá Florinda de Pedrinho da Maria do Ó, que já devia ter bebido umas cinco ou seis doses de erva cidreira no boteco de Poin Quente, pediu passagem. Zé de Totico fez que não ouviu. Os outros se afastaram, pois Bertino era dado a malvadezas. Não era um cabra valente. Não. Era malvado. Ele insistiu: “Vai sair da frente, ou quer levar pancada?”. Zé de Totico parou. Olhou pra cara do malvado e soltou essa, fazendo um gesto de giro com a mão direita: “Tu tá avexado? Arrodeie!”.
Dito isso, Zé de Totico fechou o punho esquerdo, que ele chamava de cemitério. O direito, menos potente, ele o chamava de hospital. Imaginem! Um sujeito seco, um varapau desses que uma boa ventania seria capaz de tanger lá pras bandas do Ceará de um tanjo só. Porém, disposto quando era preciso ser. Bertino, o malvado, fez que ia agarrar Zé de Totico pelo pescoço, quando recebeu um direto de esquerda no nariz achatado. Pancada seca, certeira. O sangue desceu. Um dos outros adolescentes catou logo uma pedra que se achava ali perto e ficou com a mesma na mão, caso fosse necessário ajudar o companheiro. Ninguém correu. O malvado urrou e praguejou: “Fio do cabrunco da peste. Vou comer seu ‘figo’ cru!”. E foi então que recebeu uma pedrada no quengo. Cambaleou zonzo. Já não praguejou. Só urrou. Nisso, o pai de um dos adolescentes voltava do beco onde fora despejar a cerveja consumida e tomou conta do pedaço. Ciente do ocorrido, o recém-chegado deu uns chutes no traseiro gordo de Bertino e o mandou dormir mais cedo: “Se eu ainda lhe encontrar por aqui, vou lhe dar uma surra de botar salmoura no seu lombo, cabrunquento. E se mexer com os meninos, eu vou vazar seus olhos”. Não era ninguém não: era o cabo Fortunato, pai de Janjão, o que tinha atirado a pedra. Êh, cabo Fortunato! Dizia-se que ele tinha dado conta de uma família inteira de ladrões de gado na Boca da Mata. Ele sozinho. Matou um por um.
Que Ano Novo inesquecível! A partir dali, quando a gente queria encarnar em um dos companheiros de folguedos e traquinagens, dizia: “Tu tá avexado? Arrodeie!”. Era gargalhada na certa.
Bem. Para todos os leitores, um Ano Novo arretado de bom!


 


(*) Advogado, professor da UFS, membro da ASL e do IHGSE


Publicado no Jornal da Cidade, edição de 27 de dezembro de 2015. Publicação neste site autorizada pelo autor.


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