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Aracaju (SE), 12 de maio de 2026
POR: Shirley Vidal
Fonte: Shirley Vidal
Em: 09/05/2026 às 20:14
Pub.: 09 de maio de 2026

Carta às Mães: descansar é revolucionário :: Por Shirley Vidal

Carta às Mães: descansar é revolucionário - Imagem: Estúdio Ficus

*Shirley Vidal

Os mitos e crenças de uma sociedade são moldados e reformulados de tempos em tempos. Mulheres crescem embalando bonecas, recebendo panelinhas de presente e sendo orientadas a ser mocinhas obedientes e, principalmente, a silenciar os instintos. Cultura milenar enraizada no subconsciente, à mulher foi dada a missão de povoar e perpetuar a espécie humana. Mas uma coisa é a reprodução, outra, é o cuidado.

As mães serviram muito ao modelo de capitalismo, predominantemente masculino, que aí está. A função de cuidar, sem hora e sem medidas, foi atribuída ao reduto feminina. Ao homem, que até pouco tempo saía para trabalhar e sustentar esse padrão, seria igualmente servido de cama, mesa e banho desta mulher desnutrida de si mesma. Sem forças e sem condições para arbitrar, as mães trabalhadoras se veem em uma jornada tripla. Tem a casa, os filhos, o marido e até os pais à mercê dos seus cuidados. É a cuidadora oficial.

Enquanto escrevo isso, estou com um skincare no rosto, máscara hidratante nos cabelos, pés na bacia com água de cheiro quente e um chá com bolo que eu mesma me servi. A minha geração, das 40 e sacudidas para mais ou para menos idade, tiveram opções que talvez nossas mães e avós não puderam ter. Minha avó teve 6 filhos. Minha mãe, uma. Eu, um. As estatísticas comprovam: a tendência é aumentar a população idosa e reduzir o número de crianças e jovens. Na última Pesquisa Nacional por Domicílio - PNAD, o IBGE divulgou em 17 de abril de 2026 que houve uma redução significativa de pessoas com menos de 30 anos entre 2012 e 2025. A queda foi de 49,9% para 41,4%, ou seja, de 98,2 milhões para 88 milhões, um saldo de 10 milhões de jovens a menos. A faixa de 0 a 13 anos repete a tendência. Recuou de 22% para 18%. A amostra do envelhecimento populacional é notória e com predominância do sexo feminino. A população 65+ tem uma proporção de 79,5 homens a cada 100 mulheres.

Seriam os 40 os novos 20? Procedimentos estéticos e o aumento do cuidado com a saúde alargam a qualidade de vida e a autoestima.

Mas voltemos às famigeradas Mães. Lembro-me quando pari Matheus, o qual balanço até hoje após 17 anos. Fiquei uma semana com um torcicolo tenebroso. Quando falei ao médico ele riu: “o peso da responsabilidade foi para o seu músculo”. É ruim, mas é bão! De onde veio essa bochecha rosada e esse olho brilhando ao me ver descabelada na madrugada? 

Dizem que a ocitocina, conhecida como o hormônio do amor, só é acionada em alguns momentos singelos como esse. Este neurotransmissor é liberado por exemplo na amamentação, como um estímulo de confiança e afeto para mãe e filho. Paçoca, a vira-lata que resgatei nos festejos juninos de 2025, pariu uma ninhada de bebês na minha casa após duas semanas do resgate. Encomendas do Céu. Os Paçoquitos se aninhavam nela e a cadelinha os lambia tirando os restos do parto. Não tem como ser uma criação divina, pois comove de verdade os nossos sentidos.

Contudo, quando deu o período do desmame, não teve choro e nem reza, como diz o matuto. Paçoca fugia dos pobrezinhos que corriam desgarrados, atrás dos peitos dela. A natureza tem os seus ciclos e seus limites. Nós, seres humanos, é que ainda não sabemos como lidar ou romper com essas amarras. Temos muito o que aprender com os animais. O desapego, o “se vire para caçar a sua minhoca”, não foi ensinado para os bichos. Eles seguem fielmente aos seus princípios e ao que o corpo comunica. Se o leite avisou a Paçoca: “vou acabar, se esses bebês sugarem mais, você ficará subnutrida!”. Ao se sacrificar, alguma parte sua vai morrer. Entende? 

A nós, mulheres ocidentais, nos foram concedidas algumas graças depois de muita luta e queima de sutiã. Adentramos às escolas, conseguimos votar, umas foram para o conventos para não casar. Outras, para os “bataclans” para não casar também ou porque foram expulsas de casa por cometer pecados mortais e intocáveis para a família “de bem”.

Algumas abortaram, outras se suicidaram. Mulheres foram queimadas por lerem demais, essas “bruxas”. Saber demais não é permitido. Outras tomaram pílulas para não engravidar do cara que a família arrumou para um casamento de negócios e fachada. Tem de tudo no baú de histórias femininas ao longo de séculos de desconstrução.

Das capas de playboy ao calendário da oficina. Da propaganda da loira gelada à acompanhante do velho da lancha. De produtos de prateleira ao consumo publicitário. Das novelas de Instagram que não se persevera a míseros 24h. “Uma verdade chinesa”, cantaria Emílio Santiago. A verdade é que a maternidade nos arrebata e nos resgata, mas sem autoconhecimento, também aprisiona. A prisão é o modelo falido onde fomos condicionadas a estar. Que para ser mãe precisa estar casada. Que, implicitamente, a mãe é a responsável por todo o cuidado. “Ser mãe é padecer no paraíso”. Vai nesta!

A esta altura da escrita onde meu bolo já foi comido, para a mulher que materna, estuda e ganha suas moedas, para às que ganharam independência financeira no meio do caos, nos foi permitido o ato mais revolucionário de todos: o de escolha.

Não que a gente vá fugir da responsabilidade nevrálgica como Paçoca. Tem dias que eu bem queria sair rosnando e latindo como ela. A mulher e mãe sobrevivente precisa mesmo é de uma rede de cuidados. Não só servir, mas ser cuidada e servida igualmente. Frequento uma tribo quadragenária que tem uma diversidade incrível. Tem as mães de Pets, as mães das mães, as mães dos afetos que adotaram, as pessoas do coração. Elas maternam projetos incríveis. De danças ciganas; De clubes de leitura de livros; De vinhos e rock, não necessariamente nessa ordem. Essas mães-mulheres devem muito às suas antecessoras. Elas podem descansar e ligar para uma amiga que não vai lhe julgar.

Ela pode viajar, viver um romance e acabar com o mesmo quando deixar de ser romance. Essas mães constroem e desconstroem diariamente a si mesmas. Elas se permitem sonhar e realizar. É bem verdade que ainda estamos aprendendo com Paçoca e Nina (minha gata) sobre as cláusulas de limites deste contrato que assinamos sem ler. A gente tá recriando a forma de gerar ocitocina sem dar leite a ninguém. É aprender onde se fortalecer.

Encontra-se prazer na roda de amigos. Na música nova que acabou de descobrir. Tenho um grupo de jovens senhoras chamado “cine amigas”. A gente assiste filmes e comenta tragédias cômicas da nossa própria vida. É um grupo de apoio e de plano de aposentadoria subversivo. Falamos coisas do tipo: "temos de ir logo enquanto temos joelho!".

Minha avó encontrava prazer na culinária e ficava o dia todo na cozinha. Mas não era hobby, não foi escolha, foi saída de emergência. Ela adorava passear comigo e conhecer sabores novos em restaurantes que eu lhe apresentava. Agradeço em sua memória pois preparou o meu alicerce para esta maternidade com liberdade que vivo hoje.

As mães não precisam estar enquadradas em nada que uma sociedade prega. A nós, apenas resta saber se estamos seguindo o nosso coração ou a multidão. A história nos conta o quanto fomos apedrejadas, castradas, perseguidas e encaixadas em papéis perversos. Roteiros previstos apenas para sermos bem vistas a um público que não se importa em nada se você está bem, apenas se está seguindo a bendita fórmula do que é ter sucesso e ser bem-sucedido(a).

O único indicativo que dou é o quanto de paz você usufrui pelas suas escolhas do aqui e agora. Longe dessa performance desumana, permita-se descansar. Mães, este é o seu ato revolucionário e a contribuição que deixa para as gerações futuras.   


*Shirley Vidal é escritora, jornalista, designer gráfico e atua como assessora de comunicação e imprensa na agência @vipconecta. Pós-graduada em Comunicação Organizacional (Unit/SE), MBA em Marketing Digital (ESPM/SP) e MBA em Psicologia Positiva (PUC/RS). Lançou em out/2021 o livro de crônicas 'Reflexões da Pandemia'. IG e LinkedIn: @shirley_vidal

 

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