Pesquisadora do Pecege é a única mulher entre seis brasileiros selecionados para relatório climático da ONU
Maria Alejandra Moreno-Pizani é uma das autoras principais do capítulo sobre agricultura, florestas e uso da terra do relatório do IPCC.
A Profa. Dra. Maria Alejandra Moreno-Pizani, gestora do Pecege Internacional e coordenadora do Centro de Pesquisa Ambiental e Gestão Integrada de Recursos (CEPAM), é a única mulher entre os seis cientistas do Brasil selecionados para elaborar o Sétimo Relatório de Avaliação (AR7) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), organismo das Nações Unidas responsável por avaliar o conhecimento científico sobre o clima.
De 28 de setembro a 2 de outubro de 2026, a pesquisadora participou da Segunda Reunião de Autores Principais do Grupo de Trabalho III, dedicado à mitigação das mudanças climáticas. O encontro foi realizado no Asian Institute of Technology (AIT), em Pathum Thani, na Tailândia.
O capítulo em que Maria Alejandra atua aborda setores que têm grande peso nas emissões brasileiras. Segundo o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima, o desmatamento e outras mudanças no uso da terra responderam por 39% das emissões do país em 2025, enquanto a agropecuária foi responsável por 30%. Juntos, os setores representaram quase 70% do total.
Em 2024, as emissões brutas do Brasil totalizaram 2,06 bilhões de toneladas de CO2e, representando uma queda de 6% frente a 2023 e o menor nível em oito anos, reflexo direto da redução nas taxas de conversão de vegetação nativa. Segundo o SEEG, o cumprimento das metas nacionais de mitigação para 2030 e 2035 demandará esforços integrados e multisetoriais, promovendo a descarbonização continuada e a adoção de práticas sustentáveis na agropecuária, energia e transportes.
Na prática, o relatório do IPCC funciona como um mapa das opções para reduzir emissões. Governos, empresas e produtores rurais podem recorrer às suas avaliações para analisar medidas que vão de práticas no campo, como o manejo de pastagens e os sistemas integrados, a mudanças nas cadeias produtivas. A longo prazo, essas decisões também influenciam como os alimentos são produzidos e quanto cada setor precisa reduzir suas emissões.
Com atuação científica vinculada ao Brasil e à Venezuela, Maria Alejandra representa os dois países no processo do IPCC. Ela também integra a Academia Nacional de Ingeniería y Hábitat (ANIH), da Venezuela.
Maria Alejandra foi escolhida Autora Principal (Lead Author) do Grupo de Trabalho III para o AR7. A seleção é feita por meio de um processo internacional, com indicações de governos e organizações observadoras. Entre os critérios estão experiência científica e técnica, diversidade de conhecimentos, representatividade geográfica e equilíbrio de gênero.
Considerando os três grupos de trabalho do IPCC, foram nomeados 3.771 especialistas; 664, de 111 países, foram selecionados. O Grupo de Trabalho III recebeu 1.211 nomeações e escolheu 222 especialistas para os 15 capítulos de sua contribuição. Do Brasil, foram selecionados seis pesquisadores, Maria Alejandra é a única mulher entre eles.
A pesquisadora atua no Capítulo 13 do relatório, dedicado à agricultura, às florestas e a outros usos da terra (AFOLU, na sigla em inglês). O capítulo avalia emissões e remoções de gases de efeito estufa, manejo sustentável da terra, sistemas produtivos e possibilidades de reduzir emissões nos setores agropecuário e florestal.
“Participar da elaboração do AR7 é uma oportunidade de contribuir diretamente para uma das mais relevantes avaliações científicas globais sobre a mitigação das mudanças climáticas. No Capítulo 13, nosso trabalho enfoca a análise rigorosa e baseada em evidências sobre o papel da agricultura, das florestas, do uso da terra e da segurança hídrica, identificando avanços tecnológicos, condicionantes sistêmicos e lacunas de conhecimento para subsidiar a tomada de decisão”, destaca a Dra. Maria Alejandra Moreno Pizani, Lead Author do Capítulo 13 (AFOLU) do IPCC WGIII.
Na Tailândia, cerca de 200 especialistas de 79 países analisaram as versões iniciais dos capítulos, integraram evidências científicas e identificaram questões-chave para orientar a avaliação global das medidas de mitigação. Organizado pelo AIT, o encontro fez parte do processo de elaboração do relatório. Os autores seguem trabalhando no primeiro rascunho do documento do Grupo de Trabalho III, que passará por revisão de especialistas antes da publicação. O Relatório de Síntese do AR7 está previsto para o final de 2029.
A atuação de Maria Alejandra no IPCC também cria uma conexão entre a experiência internacional da pesquisadora e o trabalho desenvolvido no Pecege, instituto de educação, inovação e tecnologia. A troca entre pesquisa, ensino e desenvolvimento de soluções para o agronegócio e a gestão de recursos naturais pode contribuir tanto para a análise das evidências científicas quanto para a disseminação de conhecimento no Brasil.
“Estar no Pecege, um instituto de educação, inovação e tecnologia, me coloca em contato diário com quem ensina, pesquisa e desenvolve soluções para o agro e para a gestão de recursos naturais. Essa troca me dá insumos e ideias que levo para a análise das evidências no Capítulo 13. E o caminho inverso também importa: o que se discute no IPCC pode virar conteúdo, formação e inovação que chegam a quem está na ponta, no campo e nas empresas”, afirma a pesquisadora.
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