Nordeste ganha nova agenda de desenvolvimento com a China: da agricultura familiar inteligente à bioeconomia da Caatinga
Missão do Consórcio Nordeste à China avança na cooperação em inovação em saúde, energia solar integrada à agricultura, financiamento climático para transição ecológica e combate à desertificação
Mais estados do Nordeste irão receber máquinas agrícolas de médio e pequeno porte e equipamentos de monitoramento de fabricação chinesa para uso na agricultura familiar. Da mesma forma, a cooperação em intercâmbio clínico, pesquisa e cooperação tecnológica existente entre o Ceará e o Hospital Cardiovascular da Universidade de Xiamen ganhará escala regional. E a Caatinga deve receber projeto-piloto de combate à desertificação como acontece no deserto de Kubuqi, que integra geração de energia solar, produção agrícola e aquicultura; além de ser campo para cooperação científica e tecnológica para o desenvolvimento de produtos medicinais.
Os movimentos estão entre os resultados da missão do Consórcio Nordeste à República Popular da China, realizada entre 29 de agosto e 4 de setembro, que também avançou em agendas de financiamento climático, transformação ecológica, desenvolvimento sustentável, biodiversidade e inovação em saúde.
“Retornamos ao Brasil com uma agenda concreta de cooperação China–Nordeste, que reúne desde a mecanização da agricultura familiar e a formação de profissionais de saúde até o financiamento climático, o monitoramento da desertificação, a biodiversidade e o desenvolvimento tecnológico e de novas energias. Agora iremos trabalhar para que essas frentes gerem mais conhecimento, investimentos, inovação e novas oportunidades de desenvolvimento para o Nordeste”, afirma Carlos Gabas, secretário executivo do Consórcio Nordeste.
Mais maquinário adequado para potencializar a produção da agricultura familiar
A expansão do acordo de cooperação entre o Consórcio Nordeste e a Universidade Agrícola da China (CAU) para mecanização da agricultura familiar é fruto dos expressivos resultados obtidos pelo projeto-piloto iniciado em 2022, com a disponibilização de 62 máquinas, drones pulverizadores e mais de 60 conjuntos de sistemas de Big Data, com sensores de campo e estações-base para monitoramento, testados em propriedades de agricultores familiares do Rio Grande do Norte, Ceará, Maranhão e Paraíba. Segundo levantamento apresentado pela diretora do Centro de Pesquisa em Desenvolvimento da Mecanização Agrícola da China, Yang Minli, a produtividade de hortaliças aumentou de seis a sete vezes e os custos com mão de obra caíram 80%. A eficiência na colheita de arroz aumentou quase sete vezes, enquanto a renda das famílias, em geral, cresceu entre 80% e 90%.
Os números mostram o potencial de transformação para o Nordeste, região que concentra quase metade da agricultura familiar do país, mas onde apenas 1,3% das propriedades são mecanizadas. Para chegar aos 70% de mecanização determinados pela nova política de industrialização nacional, a demanda é estimada em 1,2 milhão de equipamentos.
A proposta do Consórcio Nordeste é avançar da transferência de tecnologia para um modelo de produção conjunta entre empresas chinesas e brasileiras localmente. “Não estamos buscando apenas importar maquinário chinês. Queremos co-desenvolver tecnologia com as empresas chinesas e iniciamos o diálogo para elas investirem e fabricarem no Nordeste. Este projeto fortalece a segurança alimentar e impulsiona o desenvolvimento sustentável em toda a região”, explica Gabas.
A cooperação prevê ainda uma rede contínua de intercâmbio entre a CAU e as equipes estaduais, com integração de soluções de agricultura inteligente a ações conjuntas em laboratórios e nos chamados “Quintais de Ciência e Tecnologia”, além de capacitação mútua e fortalecimento da cooperação Sul-Sul.
Cooperação verde para conectar produção de energia e de alimentos ao combate à desertificação
A agenda ambiental na China incluiu uma visita ao Deserto de Kubuqi, em Ordos, na Mongólia Interior, que é referência na recuperação de áreas degradadas e desertificadas por meio da integração entre geração de energia solar, produção agrícola e aquicultura. A visita avançou para a proposta de um acordo de "cidades irmãs" entre Ordos e um município nordestino, para criar uma cooperação direta para testar e adaptar tecnologias chinesas de convivência com o Semiárido às condições do Nordeste. Na ocasião, o Consórcio foi convidado a participar do 11º Seminário sobre Desertos, que será promovido pelo município no próximo ano.
Inovação em saúde e hospitais inteligentes
Na área da saúde, a missão avançou na perspectiva de ampliar para os demais estados a cooperação já existente entre o Hospital Cardiovascular da Universidade de Xiamen e o Hospital de Messejana, no Ceará, que envolve formação de profissionais, intercâmbio clínico, pesquisa e cooperação tecnológica.
“A proposta é estruturar, com participação do Consórcio Nordeste, um modelo institucional que permita transformar a experiência bilateral em uma plataforma de cooperação China–Nordeste na área cardiovascular”, destaca Gabas.
A delegação também conheceu experiências chinesas de hospitais inteligentes, com uso de inteligência artificial, automação, dados e equipamentos de alta tecnologia integrados à gestão e aos processos assistenciais. A participação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) acrescentou à agenda a dimensão regulatória, contribuindo para avaliar a adoção dessas soluções no SUS sob critérios de qualidade, segurança e proteção à saúde.
Biodiversidade da Caatinga entra na agenda de cooperação científica
Outra frente da missão foi a aproximação com instituições chinesas voltadas à Medicina Tradicional Chinesa, como o Parque Científico e Industrial de Medicina Tradicional Chinesa Guangdong-Macau (GMTCM Park) e o Hospital de Medicina Tradicional Chinesa de Xiamen. A partir dessas experiências, foi discutida a possibilidade de cooperação científica e tecnológica envolvendo a biodiversidade da Caatinga, com participação de universidades, instituições de ciência e tecnologia, governos estaduais e parceiros chineses.
A cooperação deve envolver pesquisas com espécies e conhecimentos associados ao bioma, observando a legislação brasileira sobre patrimônio genético, conhecimento tradicional e repartição de benefícios.
“A perspectiva é construir uma agenda que conecte biodiversidade, conhecimento tradicional, ciência, regulação, inovação e desenvolvimento, de modo a transformar ativos próprios do Nordeste em conhecimento científico, capacidade tecnológica e oportunidades de desenvolvimento econômico e social, com preservação ambiental e repartição justa dos benefícios”, afirma Glauber Piva, chefe de Gabinete do Gabinete do Consórcio Nordeste.
Financiamento climático e transformação ecológica
Além dos avanços no campo e na saúde, a missão do Consórcio Nordeste à China abriu caminhos estratégicos para o financiamento climático e a transição ecológica da região. Reuniões com o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB) e com o Centro Global China-Banco Mundial para Sistemas Ecológicos e Transições (CWGC) aprofundaram as tratativas para viabilizar o financiamento de projetos do Plano Brasil Nordeste de Transformação Ecológica e estruturar parcerias para o Fundo Caatinga, mecanismo financeiro criado para captar recursos globais e direcioná-los a ações de combate à desertificação, recuperação de áreas degradadas, preservação da biodiversidade e fortalecimento da bioeconomia no Semiárido.
Da mesma forma, a visita à Aliança Internacional para o Desenvolvimento Verde da Iniciativa Cinturão e Rota (BRIGC), que é o braço ecológico da Nova Rota da Seda, criado para garantir que os grandes projetos da China sejam sustentáveis, resultou no início da construção de uma agenda de cooperação verde. A direção da BRIGC sinalizou disposição para analisar projetos do Plano Brasil Nordeste e auxiliar na identificação de caminhos para sua implementação em áreas como energia renovável, agricultura ecológica, governança ambiental e conservação da biodiversidade.
Cooperação ambiental e tecnologias para o Semiárido
A missão também deu início a acordos de cooperação técnica com instituições governamentais chinesas. Foram encaminhadas tratativas de cooperação técnica com o Centro de Cooperação Econômica Estrangeira (FECC), divisão do Ministério da Agricultura da China voltada à cooperação agrícola internacional, e com o Centro de Cooperação Ambiental Estrangeira (FECO), instituição vinculada ao Ministério de Ecologia e Meio Ambiente responsável pela gestão de fundos ambientais e acordos globais.
Os diálogos envolvem intercâmbio de pesquisas e a aplicação de tecnologias chinesas de monitoramento da degradação do solo na Caatinga. Na reunião com a FECO, ficou sinalizada a realização de um seminário conjunto no Nordeste em abril de 2027.
A delegação foi composta por gestores e corpo técnico do Consórcio Nordeste e de governos estaduais, dirigentes do Banco do Brasil, representante do ICLEI América do Sul e integrante da Embaixada do Brasil na China. Nas agendas de saúde, um representante da Anvisa acompanhou a delegação nordestina.