Trajetórias de mulheres negras no audiovisual brasileiro marcam programação da EGBÉ em Aracaju
Mesa reuniu pesquisadoras e cineastas e integrou programação da mostra, que segue até este sábado (18)
A presença, os desafios e as estratégias de permanência de mulheres negras no cinema brasileiro foram tema do debate “Mulheres Negras construindo o audiovisual brasileiro”, realizado em Aracaju dentro da programação da 9ª EGBÉ – Mostra de Cinema Negro. A atividade reuniu a crítica e curadora Kênia Freitas, a pesquisadora e cineasta Naira Évine e a diretora Everlane Moraes, com mediação da roteirista e curadora Ângela Alekole.
O encontro integra uma edição dedicada à contribuição das mulheres negras no audiovisual e reforça o papel da EGBÉ como espaço de formação e pensamento crítico, além da exibição de filmes, com programação em diferentes pontos da capital sergipana.
Ao longo da conversa, Kênia Freitas destacou que a história do cinema negro brasileiro é marcada por lacunas e apagamentos. “Quando a gente olha para a história do cinema negro brasileiro, percebe que ela é fragmentada e marcada por apagamentos. Muitas dessas mulheres não foram reconhecidas no seu tempo, e só mais recentemente começam a ser incorporadas a esse debate”, afirmou.
No campo da realização, Everlane Moraes chamou atenção para as condições materiais que atravessam a produção audiovisual. Segundo ela, o tempo de desenvolvimento de um longa-metragem pode ultrapassar uma década, exigindo permanência e atravessando a vida pessoal das realizadoras. “Faço do cinema a minha própria vida”, disse, ao refletir sobre a escolha de seguir no ofício apesar das dificuldades estruturais.
A pesquisadora e cineasta Naira Évine ampliou o debate ao deslocar o foco das funções mais visíveis do cinema. “Ainda existe uma tendência de focar muito na direção, em quem está mais visível. Mas esquecemos de todas as outras mulheres negras que também contribuíram para o cinema: atrizes, preparadoras de elenco, secretárias, cozinheiras, motoristas. As mulheres negras sempre construíram o cinema, assim como sempre construíram o Brasil”, afirmou.
Na mediação, Ângela Alekole destacou que o acesso aos meios de produção segue como um dos principais pontos de desigualdade no setor. “O cinema passa pela questão do poder de produção: quem tem acesso à fala e quem tem acesso à produção de imagens. Assim como vemos precarização em áreas como educação e saúde, o cinema também passa por esses processos. E, dentro desse contexto, mulheres negras acabam sendo ainda mais afetadas”, pontuou.
Outro eixo central da mesa foi a construção de redes entre mulheres negras como estratégia de permanência no audiovisual. A diretora-geral da mostra, Luciana Oliveira, destacou a importância dessa articulação coletiva. “Há uma consciência de estarmos em rede, com mulheres negras atuando na pesquisa, na curadoria, na produção e em diferentes áreas da cadeia do cinema, fortalecendo esse lugar dentro do audiovisual brasileiro”, afirmou.
A relação com o território também atravessou o debate, com trajetórias marcadas por deslocamentos e escolhas sobre onde produzir. As falas apontaram o Nordeste como espaço ativo de criação e circulação de cinema, tensionando a centralidade histórica dos grandes centros.
A 9ª EGBÉ segue até este sábado (18), com sessões gratuitas, debates, atividades culturais e a Feira do Mangaio Negro, reunindo público, realizadores e pesquisadores em torno dos cinemas negros contemporâneos.