Por que a costura voltou a conquistar mulheres jovens?
De vídeos tutoriais a peças autorais, as redes sociais transformaram a costura em tendência
Durante muito tempo, a costura foi vista como uma atividade ligada principalmente às gerações mais antigas. Agora, a máquina de costura volta a fazer parte da rotina de mulheres jovens, impulsionada por uma combinação de criatividade, desejo de personalização, novas formas de consumir moda e interesse por atividades que podem gerar renda.
A designer e empreendedora Priscila Azevedo, criadora da escola Vestida de Sonhos observa esse movimento de perto. Segundo ela, uma das principais mudanças está na relação das jovens com as próprias roupas. Elas não querem apenas escolher entre as opções disponíveis nas lojas, mas também experimentar, modificar e criar peças que tenham relação com seu estilo e sua personalidade.
“Quando uma mulher aprende a costurar, ela passa a olhar para a roupa de outra maneira. Ela entende que pode criar uma peça de acordo com o próprio corpo, escolher o tecido, mudar um detalhe e construir algo que tenha a identidade dela. Existe uma sensação muito grande de autonomia nesse processo”, explica Priscila.
As redes sociais também contribuíram para tornar esse universo mais próximo. Conteúdos que mostram customizações, transformações de peças, criação de roupas e processos de modelagem despertam a curiosidade de quem nunca teve contato com a atividade. No TikTok, a hashtag #costura já reúne mais de 600 mil publicações, com tutoriais e vídeos que mostram o passo a passo de diferentes projetos. A costura deixa de aparecer como algo distante e passa a ser apresentada de maneira visual, prática e acessível, facilitando o primeiro contato e incentivando cada vez mais pessoas a experimentar a atividade.
Para essa nova geração, aprender a costurar pode significar muito mais do que reproduzir uma peça. É uma oportunidade de testar ideias e descobrir possibilidades que não aparecem necessariamente nas araras das lojas. Uma roupa antiga pode ser modificada, uma peça pode ganhar novos detalhes e uma referência encontrada na internet pode se transformar em uma criação própria.
Um levantamento da escola Sigbol apontou aumento de 55% na procura por cursos de costura no primeiro bimestre de 2026. Os jovens de 19 a 35 anos representaram 31% das matrículas, sendo a faixa etária com maior participação. A procura se concentrou principalmente em cursos básicos de corte e costura, ajustes e reformas de roupas.
“Existe uma geração que quer usar a roupa para contar quem ela é. E a costura permite justamente isso. A pessoa não precisa encontrar uma peça perfeita em uma loja, ela pode aprender a construir essa peça”, afirma a especialista.
Esse interesse também pode ultrapassar o universo pessoal e chegar ao empreendedorismo. Ajustes, consertos, produção de roupas sob medida, customização e criação de uma marca própria estão entre as possibilidades para quem decide transformar o conhecimento adquirido em atividade profissional.
“A costura pode começar como uma curiosidade e terminar como profissão. Muitas pessoas chegam querendo fazer uma peça para elas mesmas e descobrem que têm uma habilidade que pode gerar renda”, conta.
A aproximação com a costura também acontece em um momento de questionamento sobre a maneira como as pessoas consomem moda. Reformar uma roupa, fazer ajustes ou transformar uma peça que já existe são alternativas para prolongar sua utilização, em vez de simplesmente descartá-la.
Na avaliação de Priscila, esse aspecto ajuda a explicar por que a atividade encontra espaço entre as jovens. “A costura dá uma segunda vida para a roupa. E, ao mesmo tempo, dá uma nova possibilidade para quem está costurando. Você pode transformar uma peça, mas também pode se transformar por meio dela.”
O retorno da costura entre as mulheres jovens, portanto, ganha novos contornos. A atividade passa a se relacionar com identidade, criatividade, personalização, consumo consciente e empreendedorismo, deixando de ser percebida apenas como uma habilidade doméstica.