Casamento no sertão :: Por José Lima Santana
José Lima Santana*
O sol abrasador espalhava brasas no sertão. No Fórum sem ar-condicionado, as audiências eram feitas com todo mundo – juiz, promotor e advogados – entretelado de paletó e gravata, o suor escorrendo pelo rosto e pelo pescoço, chegando a fazer, nalguns casos, uma espécie de lama, dada à poeira avermelhada, misturada ao suor. Um horror!
Acabada a última audiência daquela manhã de terça-feira, uma criminal com réu preso, um sujeito que matou o vizinho de terras, que tinha mudado a cerca de arame farpado do lugar, avançando duas braças de terra para o seu lado, num verdadeiro despautério, o jovem juiz abriu a porta do gabinete improvisado para atender a um cidadão, que tinha uma reclamação a fazer, buscando a providência da autoridade.
“Seu doutor, minha filha está perdida. O senhor precisa chamar a polícia”. Inocentemente, o juiz replicou: “Mas, meu senhor, a cidade é tão pequena! Ela deve estar por aí, na casa de um parente, de uma pessoa conhecida, de uma coleguinha”. Aflito, o pai disse: “Doutor, ela foi deflorada pelo namorado. Só não fiz ainda uma desgraça, porque não quero ir para a cadeia. Tenho mulher e sete filhos para dar de comer”. Aí o juiz caiu em si. Perdida era deflorada. Era ter perdido os três vinténs, como se dizia por ali.
O magistrado, cioso de suas funções, mandou chamar o pai do deflorador, que era pessoa muito conhecida, um comerciante da cidade. Muito cordato, o pai do moço concordou em que o filho deveria reparar o mal feito à mocinha de 16 anos. Casamento, sim senhor!
No cartório, Dona Prazeres cuidou da papelada. Casamento marcado para os próximos dias. No dia e na hora marcados, eis os dois jovens diante do juiz e da parentela. Ao perguntar se o rapaz, de 18 anos, queria casar de livre e espontânea vontade, o mesmo respondeu que não. Era o primeiro casamento a que o magistrado assistia naquela condição. E um “não” era um “não”. Sem casamento, pois. O juiz olhou para a carinha sem graça da mocinha perdida, para as feições carregadas do pai dela, para a cara lisa do jovem e para as caras meio que assustadas dos demais. Passou a mão esquerda no queixo. Um desmantelo diante de si.
Passados longuíssimos três ou quatro segundos, o juiz mandou chamar o delegado, um sargento da polícia, comissionado. Pouco tempo demorou a autoridade policial. “Sargento Pedro, o senhor leve esse povo todo para o quartel. Abra um inquérito. Crime de sedução. Ouça todo mundo.
Antes da providência ser tomada pelo delegado, o pai do rapaz pediu para falar. “Pois não. Tem a palavra”. O comerciante disse que um vereador da cidade teria dito ao rapaz que se ele dissesse que não queria casar, ficaria o dito pelo não dito. O juiz, porém, não se deixou levar pela conversa. Mandou o delegado tocar adiante. E mandou chamar o vereador Tonho Beiçudo, para saber com qual autoridade ele orientou de forma desarrazoada o sedutor.
Não se passou uma hora, eis que o delegado procurou o juiz na Pensão Come e Bebe, de Dona Caçula de João Tamborete, onde as autoridades do Fórum costumavam se regalar com bons pratos sertanejos. Naquele meio-dia, havia uma panelada de carne frita de porco com fígado de boi, galinha de capoeira em cabidela, lombos de boi e de porco recheados, feijão novo, arroz temperado, farofa d’água e salada à vontade. Sim, um regalo digno das autoridades.
“Doutor, o moço quer casar. Tá com medo da peia”. Bem, se era assim, o crime de sedução rolaria por terra. A desgraça feita seria reparada com o casamento. Tudo na santa-paz. Faltava dar um bom esporro no vereador. Este chegou ao Fórum por volta das 16 horas, conduzido por Pinga, quer dizer, Jailton, o oficial de justiça.
Tonho Beiçudo chegou mais amarelo do que o amarelão da Bandeira Nacional. “O senhor, além de vereador, tem qual tipo de autoridade nesta cidade? O senhor é aconselhador de rapazes defloradores? O senhor tem irmãs, tem filhas”? O sujeito gaguejou. Deu lá nele um nó na garganta e uma frouxidão nas pernas. “No dia que alguém chegar aqui, dizendo que o senhor deu um conselho desse a outro rapaz, que basta dizer um “não” para ficar tudo bem, o senhor vai se ver com a Justiça, vai se ver comigo”. Coitado. Saiu da sala se batendo contra o portal. Lição aprendida.
Dias depois, o mesmo pessoal e mais algumas pessoas estavam diante do juiz. A mocinha sorridente, os pais satisfeitos, todos parecendo animados. Ao indagar o juiz se o rapaz queira casar de livre e espontânea vontade, nem bem acabou de perguntar, ele respondeu um “sim” tão audível, que provavelmente foi ouvido fora da cidade.
Anos depois, segundo Dona Prazeres contaria ao juiz, já desembargador, o casal tivera dez filhos. Raça de preás.