Projeto Povos das Águas e IFS impulsionam a meliponicultura em comunidades tradicionais do Baixo São Francisco
Uma iniciativa conjunta entre o Projeto Povos das Águas e o Instituto Federal de Sergipe (São Cristóvão), através do GEA - Grupo de Estudo de Abelha, está promovendo novas possibilidades de geração de renda no Baixo São Francisco. A ação aconteceu na Aldeia Fulkaxó (Pacatuba) e no Território Quilombola Brejão dos Negros (Brejo Grande), e aposta na criação e no manejo de abelhas nativas, prática conhecida como meliponicultora, como alternativa sustentável, alinhando conservação ambiental, valorização dos saberes tradicionais e fortalecimento da autonomia comunitária.
A formação com as comunidades é mais uma ação proposta pelo Projeto Povos das Águas, realizado pela Associação dos Pequenos Agricultores do Estado de Sergipe (APAESE), em parceria com a Petrobras, através do Programa Petrobras Socioambiental.
A proposta surge em um contexto em que comunidades tradicionais enfrentam desafios históricos relacionados ao acesso a políticas públicas, renda e permanência nos territórios. Ao investir na meliponicultura, o projeto busca não apenas diversificar as fontes de sustento, mas também estimular práticas que contribuem diretamente para a preservação da sociobiodiversidade local, especialmente dos manguezais e áreas de vegetação nativa.
Abelhas indígenas
As atividades incluem formações teóricas e práticas sobre o manejo adequado das abelhas sem ferrão, construção do meliponário comunitário, cuidados com as colmeias e potencialização da produção de mel e derivados. A iniciativa também dialoga com o conhecimento já existente nas comunidades, promovendo uma troca entre saberes populares e técnicos.
O curso começou em outubro de 2025, dentro do território indígena na Aldeia Fulkaxó, em Pacatuba, de forma representativa tanto para a aldeia, como para o professor de Apicultura e Meliponicultura do IFS São Cristóvão, Wilams Gomes.
“É um resgate das abelhas indígenas, para os povos originários porque a abelha nativa, elas são genuinamente brasileiras. A abelha apis, com ferrão, foi introduzida pelos europeus quando invadiram nosso território. E quem dominava o conhecimento dessas abelhas nativas eram os indígenas. Inclusive quase cem por cento dos nomes das abelhas nativas são de origem indígena de diversas etnias. Por exemplo, iraí é a ‘abelha do rio doce’, ‘rio do mel’. E nada mais justo que a Aldeia Fulkaxó ter esse resgate, já que eles são indígenas em retomada. E eles podem ser novamente os guardiões dessas abelhas nativas”, apontou o professor.
Novos meliponicultores quilombolas
Maria Iracema cria abelhas com ferrão há quatro anos e decidiu fazer o curso de abelhas nativas para agregar conhecimento, mas se surpreendeu com a variedade de abelhas sem ferrão que existem na natureza.
“Meu marido e eu começamos a criar abelhas com ferrão por acaso, tomando conta das abelhas de um colega dele. No início eu tinha medo de entrar no apiário, mas agora eu consigo entrar e fazer o meu trabalho certinho. As abelhas mudaram muitas coisas na minha vida, tive que aprender mais sobre elas, sobre o manejo, sobre como elas produziam o mel e como coletar. Agora com esse ensinamento das abelhas sem ferrão, eu espero ter ainda mais conhecimento e ter uma nova oportunidade de sustento pra minha família”, destacou Maria Iracema, do Quilombo Santa Cruz.
Para o professor Wilams, essa nova forma de atividade no território quilombola pode fortalecer ainda mais a comunidade e oportunizar outras fontes de renda.
“Quem trabalha com abelha nativa, não trabalha com veneno. Conservar e resgatar essas abelhas, tanto aqui no território quilombola como na aldeia, vai servir para polinizar, vai servir para o turismo ecológico, vai servir para mulheres e crianças poderem se envolver com esse manejo. Há uma diversidade de oportunidades surgindo para esses territórios que já preservam ancestralmente a natureza”, finalizou Wilams.
Além do impacto econômico, a ação tem forte dimensão educativa e política, ao envolver jovens e lideranças locais no processo formativo, fortalecendo o protagonismo comunitário e a permanência das novas gerações no território. A parceria com o IFS contribui com suporte técnico e científico, garantindo a qualidade da formação e ampliando as possibilidades de continuidade da iniciativa no médio e longo prazo.
A expectativa é que, ao longo dos próximos meses, a prática da meliponicultura se consolide como uma alternativa viável de geração de renda nos territórios, fortalecendo a economia local e reafirmando a importância da preservação ambiental como caminho para o desenvolvimento sustentável.