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Aracaju (SE), 13 de fevereiro de 2026
POR: Jéssica França
Fonte: Ascom UFS
Em: 13/02/2026 às 08:21
Pub.: 13 de fevereiro de 2026

Operação Cajueiro é relembrada na UFS em noite de memória, resistência e defesa da democracia

Evento reúne ex-presos políticos, estudantes e gestores e reafirma o papel da juventude na construção da democracia
Operação Cajueiro é relembrada na UFS em noite de memória, resistência e defesa da democracia - Foto: Elisa Lemos/Ascom UFS

O auditório cheio, estudantes atentos e vozes que atravessaram a Ditadura Militar Brasileira marcaram a noite dedicada à memória da Operação Cajueiro na Universidade Federal de Sergipe (UFS). Organizado por estudantes do curso de Direito, com apoio docente e institucional, o evento transformou o espaço acadêmico em território de escuta, reflexão e compromisso democrático, na última quarta-feira, 11 de fevereiro.

A Operação Cajueiro foi um dos episódios mais duros da repressão em Sergipe durante o Regime Militar, resultando na prisão e tortura de jovens que defendiam uma sociedade mais justa. Relembrar esse capítulo da história, segundo os organizadores, é um exercício de responsabilidade coletiva.

“Eu fico bem contente de ver que os alunos tomaram a frente para organizar”, destacou a professora Andrea Depieri, que coordenou uma das atividades do evento. Para ela, o trabalho de memória é essencial para as novas gerações. “A democracia não vem de graça. É um esforço para conquistar e é um esforço para manter”.

Entre os convidados esteve o ex-preso político Marcelio Bonfim, de 82 anos, que falou com emoção e firmeza sobre sua trajetória. Preso três vezes durante a Ditadura, ele afirmou não ter perdido a disposição para defender a democracia. “Enquanto eu tiver um pouquinho de saúde, vou estar preparado para ir às ruas impedir que esse país retorne a uma Ditadura Militar. Eu não quero que os filhos e netos de vocês passem pelo sofrimento que os meus filhos passaram sem saber se eu voltaria pra casa”.

Ao lembrar a geração de 1968 e a repressão violenta enfrentada por estudantes e militantes, Marcelio evocou a música A Rapaziada, de Gonzaguinha, como símbolo de esperança. “Eu acredito é na rapaziada que segue em frente e segura o rojão”, citou, reforçando sua confiança na juventude presente no auditório. “É essa juventude que vai criar as condições para construir uma sociedade justa, livre, solidária e democrática.”

A presença massiva de estudantes foi um dos pontos altos da noite. Para Teófilo Carvalho, do Diretório Acadêmico de Direito, a proposta central do evento foi justamente aproximar os jovens de testemunhos reais. “Para nós, a Ditadura ainda é algo abstrato, limitado aos livros de história. Ouvir quem atravessou esses horrores é fundamental para compreender nossa trajetória histórica".

O presidente da Liga Acadêmica de Direitos Humanos e Democracia, Daniel Portilho, ressaltou a responsabilidade de promover um debate dessa natureza. “É um evento que carrega um peso muito grande para a história de Sergipe. Democratizar o acesso a essas vozes é essencial para construir um país mais justo, livre e solidário".

João Liparotti, aluno especial do curso de Cinema da UFS e pesquisador de produções audiovisuais sobre a Ditadura, destacou o papel da universidade pública no enfrentamento ao negacionismo. “É fundamental que a universidade abra espaço para essas discussões. Existe uma visão distorcida da história circulando, e a memória precisa ser reparada".

Para o reitor da UFS, André Maurício, a Operação Cajueiro representa um dos momentos mais tristes da história do estado. “Pessoas jovens que buscavam uma sociedade mais justa foram torturadas e presas simplesmente por seus ideais. Isso não pode se repetir. A democracia não é algo que se discute, é algo que precisa ser estabelecido sempre".

Ao final da noite, o que ficou evidente foi a potência do encontro entre gerações. Se a repressão tentou silenciar vozes no passado, a universidade reafirmou seu papel como espaço de memória, resistência e construção de futuros.

Como ecoou no auditório, nas palavras de Gonzaguinha lembradas por Marcelio: acreditar na rapaziada é acreditar que a manhã desejada continua sendo construída — com memória, coragem e democracia.


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