Prefeitura promove ação coletiva em defesa da luta antimanicomial e do cuidado em liberdade
“Saúde mental não se faz com muros, mas com vínculos.” A frase marcou a ação promovida pela Prefeitura de Aracaju, por meio da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), nesta quarta-feira, 20, em alusão ao Dia Nacional da Luta Antimanicomial, celebrado em 18 de maio. O evento aconteceu na Praça da Juventude, no Conjunto Augusto Franco, reunindo usuários, familiares e profissionais dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) da rede municipal.
A iniciativa teve como objetivo fortalecer a defesa do cuidado em liberdade, dar visibilidade aos direitos das pessoas com transtornos mentais e reafirmar a importância da atenção humanizada e comunitária ofertada pela Rede de Atenção Psicossocial (Reaps). Atualmente, Aracaju conta com seis CAPS, que funcionam como serviços de portas abertas, promovendo acolhimento, acompanhamento multiprofissional e reinserção social. A programação destacou o protagonismo dos usuários dos serviços, com apresentações culturais, oficinas, exposições artísticas, dança, canto, coral do Musicaps e desfile com camisas produzidas nas oficinas terapêuticas desenvolvidas nas unidades.
A consultora extraordinária da SMS, Iraneide Santos, ressaltou que o encontro fortalece a integração entre os CAPS e evidencia o potencial transformador do cuidado em liberdade. “Aqui a gente vê vida, arte e cultura. A saúde mental deve ser construída a partir dos vínculos sociais, do respeito às diferenças e da valorização da dignidade humana. O evento permite tornar visíveis pessoas e histórias que antes eram marcadas pela exclusão”, declarou.
A coordenadora da Reaps, Cristian Paula, destacou que a programação alusiva à luta antimanicomial seguirá até o dia 28 de maio, com diversas ações voltadas à conscientização e valorização dos usuários da rede. “É um momento de luta e de libertação. A gente proporciona protagonismo e autonomia para que eles existam dentro de uma sociedade ativa. Pessoas com transtornos mentais têm direito à convivência social, à dignidade e à liberdade”, reforçou.
Para a gerente técnica do Projeto Redução de Danos (PRD), Keila Costa, a ação é reflexo do trabalho desenvolvido diariamente pela rede municipal de saúde mental. “Nós trabalhamos nessa perspectiva do cuidado e liberdade, de atuação de cuidado construída com o sujeito. Esse momento representa a luta constante de usuários e profissionais por um cuidado compartilhado, onde se promova a saúde mental de forma humanizada e comunitária”, pontuou.
Entre os participantes, histórias de superação emocionaram o público. Acompanhado há três anos pelo CAPS Liberdade, José Hamilton contou que encontrou no serviço um espaço de acolhimento e pertencimento durante o tratamento da esquizofrenia. “Passei a integrar a quadrilha junina da unidade e me tornei o puxador. As atividades fortalecem os vínculos entre os participantes e é onde eu me sinto livre, um ser humano normal”, relatou.
Há 17 anos acompanhada pelo CAPS Jael Patrício, Edleuza Melo descreveu o serviço como um espaço de acolhimento, cuidado e reconstrução da própria história. “Foi no teatro que eu encontrei meu passado, que estava morto, e renasceu”, relatou. Ela também destacou que o CAPS ajudou a desconstruir preconceitos sobre o tratamento em saúde mental e mostrou que o cuidado psiquiátrico pode ser ofertado com respeito, dignidade e humanidade. “Antes eu tinha muita resistência, porque achava que era lugar de doido. Depois que passei a frequentar, participando do teatro, das oficinas, tendo psicólogo conversando com a gente, entendi que estava em sofrimento agudo e que eu poderia retomar minha vida”, revelou.
Usuária do CAPS Liberdade desde 2021, Denilza Santos afirmou que as oficinas terapêuticas transformaram sua forma de enxergar a vida após enfrentar um quadro de depressão profunda decorrente da perda da filha recém-nascida. “Comecei a me abrir mais e meus pensamentos invasivos foram diminuindo aos poucos. As atividades culturais e o acolhimento da equipe se tornaram fundamentais em meu processo de recuperação emocional”, disse.
Também acompanhado pelo CAPS Liberdade, Adson de Morais relatou que chegou ao serviço após tentativas de suicídio e destacou a importância do acolhimento recebido pela equipe. “Foi onde começou a minha vida nova. O acompanhamento contínuo e o acolhimento contribuiu para retomar a vida e seguir adiante com o tratamento”, revelou.
Centro de Atenção Psicossocial
Em busca de uma sociedade sem manicômios, os CAPS vieram com o objetivo de serem serviços porta-aberta para cuidar da saúde mental. Nestes espaços, são ofertados serviços de tratamento e apoio a pessoas com transtornos mentais.
Caso tenha alguma necessidade, a população pode procurar uma das seis unidades disponíveis: CAPS Jael Patrício (Zona Norte), CAPS David Capistrano (Zona Sul), CAPS Liberdade (Zona Central), CAPS AD Primavera (para maiores de 30 anos com demandas relacionadas ao uso de álcool e outras drogas), CAPS AD Vida (para jovens até 29 anos com demandas relacionadas ao uso de álcool e outras drogas) e o CAPS Infantil, voltado ao público infantojuvenil.