Aracaju (SE), 27 de outubro de 2020
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 22/08/2020 às 23h29
Pub.: 24 de agosto de 2020

As perícias médicas de Tuninho Cheira Peido :: Por José Lima Santana


José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

José Lima Santana*


Ora, deu-se o ocorrido em 1974. Por que eu lembro tão bem do ano? Porque trabalhava na Prefeitura Municipal da minha cidade, aos dezenove anos de idade, no pomposo, mas pouco rendoso, cargo de diretor do departamento da fazenda do Município, equivalente, hoje, a secretário municipal de finanças. Para se ter uma ideia de quão pouco rendoso era o cargo, ao deixá-lo, em março de 1977, eu ganhava, bruto, Cr$ 900.00 (novecentos cruzeiros), ao passo que, nomeado, após aprovação em concurso público, para o cargo de auxiliar de controle externo do Tribunal de Contas do Estado, por portaria do então presidente conselheiro Manoel Cabral Machado, meu mestre de Direitos Reais, na Faculdade de Direito da Av. Ivo do Prado, em julho daquele ano, eu passei a ganhar Cr$ 4.680,00. Mas, os 900 da Prefeitura representavam o maior vencimento de um servidor daquela municipalidade. Logo, não era rendoso, mas era, sim, grandioso para mim. O salário mínimo de março de 1977 era de Cr$ 768,00. 


Pois bem, pois bem. A perícia de Antônio dos Santos, trabalhador braçal da Prefeitura, da turma de “seu” Bonifácio, velho e operoso cabo de turma, a dirigir parte do pessoal que cuidava das estradas vicinais, roçando, consertando valetas, espalhando piçarra etc., eu mesmo marquei no INPS. Era assim naquele tempo: INPS. Ele andava cheio de dores. Pobre trabalhador de sol a sol, de chuva a chuva, como tantos outros. Vivia reclamando que não aguentava mais trabalhar, com dores nas pernas, nos braços e “nas cruz”. Socorri-me de um fiscal do INPS, “seu” Eutímio, que, prestimoso, conseguiu abreviar a data da perícia médica. 


No dia marcado, lá foi o colega Antônio dos Santos, vulgo Tuninho Cheira Peido, porque diziam os seus colegas de eito, que ele tinha a mania de passar a mão no para-choque traseiro e levá-la ao nariz. Eu pessoalmente jamais o vi fazendo esse ato anti-higiênico. O carro da Prefeitura foi buscá-lo em casa, logo cedo, no Acoita Manhoso, lá para as bandas do Cruzeiro das Moças. Para acompanhá-lo ao local da perícia, no prédio da esquina da Rua de Geru com Itabaianinha, foi a porteira da Prefeitura, Maria Nicolina de Menezes, filha de Januário Bispo de Menezes, oficial de justiça que, em dezembro de 1931, recebeu o encargo de intimar Lampião, em face do assassinato de Elpídio José dos Santos, morto com requintes de crueldade pelo bando do afamado cangaceiro, na madrugada de 16 de outubro de 1930, na fazenda Candeal. Naquele tempo, Dores era Termo da Comarca de Capela.  
Apenas para informar, a denúncia contra Lampião foi lavrada pelo adjunto da Promotoria, cidadão Artur Dias de Andrade, pai de José Barreto de Andrade, da loja “A Suprema”, já falecido. O juiz municipal do Termo era Nicanor Oliveira Leal e o titular do Ministério Público era Joel Macieira Aguiar. Ambos acabariam desembargadores. 


E lá se foram Nicolina e Tuninho à capital, numa manhã chuvosa. Na época, ainda não havia asfalto da BR-101 para Dores, que só viria no ano seguinte, no segundo governo do Dr. José Rolemberg Leite. A estrada de rodagem era muito ruim de Dores para Maruim, passando por Siriri e Divina Pastora. No caminho havia a ladeira dos Cinco Paus, temida pelos viajantes, local da ocorrência de vários acidentes, especialmente de caminhões. Faltar freio naquela ladeira, era fatal. E isso ocorria com certa frequência, porque os veículos tinham deficiências de fábrica ou porque não recebiam a devida manutenção. Nicolina, que chamávamos de Nicola, só viajava de terço na mão, o trajeto todo. 


Não sei o que aconteceu com Tuninho diante do perito médico. O que ele revelou foi que o médico o auscultou e, segundo suas próprias palavras, “fincou o dedão na minha barriga, na minha caixa dos peitos e nas minhas costas”. E mais: “Perguntou se doía aqui e ali, mas eu disse que não”. Pronto. Estranho, pois naquele dia, nada doía. O perito mandou que ele aguardasse em casa uma carta do INPS. A carta chegou duas semanas depois, pelas mãos do carteiro Germínio de “seu” Juviano. Negada a pretensão de Tuninho, para “se encostar”. Decepção. Pobre homem, que continuaria no eito, na labuta semanal, sofrendo com dores, tomando pitadas do mal-cheiroso. Putz! 


As reclamações de Tuninho continuaram. Eram dores e mais dores. Chegava a não ir ao trabalho, algumas vezes. Um colega dizia que ele tinha era “mais preguiça do que uma preguiça de verdade”. Palavras de Zé Labisone, assim mesmo pronunciado, tido e havido, este, sim, como um contumaz preguiçoso. 


“Seu” Bonifácio, preocupado, informava ao prefeito Paulo Garcia que a situação de Tuninho era cada vez pior. Faltava, e quando ia, pouco rendia no serviço. Seria preciso dar um jeito de “encostar” Tuninho. Passados uns meses, eis “seu” Eutímio de volta para auditar a Prefeitura, analisando as folhas de pagamento, os recibos de prestação de serviços de terceiros e os recolhimentos ao INPS. Tornei a falar com ele sobre Tuninho. Pelo tempo decorrido, ele já poderia retornar à perícia médica. Foi marcada.


Dessa vez, quem acompanhou Tuninho foi Marilene, também nossa colega. Ela, porém, avisou: “Como esse peste disse que não reclamou de dor nenhuma ao médico, e, por isso, a perícia não deu em nada, eu vou dar umas porradas nele, antes dele entrar no consultório do doutor. Só assim, ele vai gemer quando o doutor tocar o dedo nele e a perícia vai dar positiva”.


Não sei se ela deu as prometidas porradas. Não lhe perguntei. Mas, presumo que não. Claro que não. O certo mesmo foi que, dias depois – oh, glória! –, chegou a informação de que Tuninho Cheira Peido estava “encostado”. Com porradas ou sem porradas. Seis meses depois, ei-lo devidamente aposentado por incapacidade para o trabalho. Não demorou muito e acabou morrendo da coisa braba, da doença que, muitos se escusavam de pronunciar o temível nome: câncer. Nos ossos. Ajudei a viúva, Maria Angélica, a pleitear a pensão para si e para os oito filhos, quase todos de cobrir com um cesto. 


Na cova de sete palmos de Antônio dos Santos, no cemitério municipal, alguém escreveu uma troça. Na cruz, até então sem inscrição, passou a constar o seguinte epitáfio, em letras miúdas: “Aki Discansa Tunio Xêra Chão”.


*Padre, advogado, professor da UFS, Membro da ASL, da ASLJ, da ASE, da ADL e do IHGSE

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