Aracaju (SE), 08 de agosto de 2020
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 13/06/2020 às 11h12
Pub.: 15 de junho de 2020

Messianismo político e jingles eleitorais :: Por José Lima Santana


José Lima Santana*


José Lima Santana (Foto de arquivo: Click Sergipe)

José Lima Santana (Foto de arquivo: Click Sergipe)

Nos embates político-partidários, apresenta-se, infelizmente, o chamado messianismo político. O messianismo é, restritamente, a crença na vinda - ou no retorno - de um enviado divino libertador, um messias [mashiah, ou meshiha, em hebraico, christós em grego], com poderes e atribuições que aplicará ao cumprimento da causa de um povo ou um grupo oprimido.


Alguns estudiosos têm dito que a política latino-americana vive um dos seus maiores dilemas, apesar da ascensão de políticos liberais-conservadores nesses países. Perguntam: “Como evitar que o messianismo político, tão explorado por populistas e socialistas, possa atrapalhar os novos governos”? O problema é que os liberais-conservadores, ou ultraconservadores, são tão ou mais populistas, abraçados ao mesmo messianismo. Mas, isso não é de hoje.


Há quem diga que temos uma herança da cultura monárquica vinda de Portugal e Espanha, que tinham como política real uma medida que fazia com que o rei virasse uma espécie de “salvador da pátria” para evitar que danos maiores acontecessem. Um exemplo prático disso, no nosso país, foi a campanha da maioridade que pedia que Dom Pedro II tivesse a sua maioridade antecipada, tentando conter o caos gerado pelo governo regencial de Diogo Feijó, período marcado por algumas insurreições populares, como a Revolução Farroupilha, a Balaiada e a Sabinada.


A figura de um “messias político” ficou no imaginário da população como um homem bom, abnegado, que poderia fazer tudo pelo bem-estar de todos, unindo o país em torno de um objetivo comum. Ingenuidade, lavagem cerebral, sei lá o quê! 


O filósofo inglês Roger Scruton, em recente entrevista, alertou para o fato de que o messianismo político na América Latina se desenvolva de maneira muito fácil e que esses países deveriam cultuar o governo das leis, em vez de se cultuar ideologias, pessoas ou famílias. Outro pensador, o americano Russell Kirk, diz em sua obra “A Política da Prudência” que “o conservadorismo e o liberalismo eram a negação da existência das ideologias políticas, afirmando que as ideologias favoreceriam apenas a demagogia e o populismo”. Ledo engano. O conservadorismo e o liberalismo têm se mostrado tão ou mais populistas, messiânicos, quanto as vertentes populistas e socialistas. Todos bebem na mesma fonte, só que uns apanham a água com um caneco, outros, com a concha da mão. 


Quero mostrar como o messianismo está presente nos jingles das campanhas eleitorais para a presidência da República, através dos tempos. Salvo uma exceção, que me parece didática e oportuna, vou me circunscrever aos jingles dos candidatos vitoriosos. Esclarecendo que tais jingles eram versados em sambas e marchas.


Começo pela eleição de 1930, quando Júlio Prestes (PRP), candidato situacionista, obteve 59,39% dos votos (1.091.709 votos) contra o candidato da Aliança Liberal, Getúlio Vargas. O jingle de Prestes dizia assim: “Eu ouço falar / Que para nosso bem / Jesus já designou / Que seu Julinho é quem vem”. Puxa! Jesus designou que Júlio Prestes era o salvador da pátria. Muita pretensão, não era mesmo? Porém, do outro lado, a revolução de 30 já estava, antecipadamente, preparada. Eis, pois, o jingle de Getúlio: “Só mesmo com revolução / Graças ao rádio e ao parabelo / Nós vamos ter transformação / Nesse Brasil verde-amarelo”. O rádio representava a agitação das massas, enquanto o parabelo (pistola parabellum de uso do exército alemão) simbolizava a própria revolução, dada a não aceitação do resultado adverso que poderia vir das urnas, como deveras veio. A revolução nasceu antes da revolução. 


Na eleição de Dutra (PSD), em 1945, com 55,39% dos votos (3.251.507), contra o Brigadeiro Eduardo Gomes, o jingle era um apelo populista, na esperança de herdar os eleitores de Vargas. Dizia: “Marmiteiro! Marmiteiro! / Todo mundo grita / Porque lá na minha casa / Só se papa de marmita”. Era uma espécie de convocação dos pobres para o lado do marechal. Dizia mais: “Vamos entrar pro cordão dos marmiteiros / E quem não tiver pandeiro / Na marmita vai tocar”.  Dutra era, assim, apresentado como o candidato que iria resolver o problema dos marmiteiros, dos pobres sofredores. 


Mas, em 1950, o velhinho voltou. Getúlio de novo. O jingle: “Bote o retrato de velho outra vez / Bota no mesmo lugar / O retrato de velhinho / Faz a gente trabalhar”. Lá vinha o velho outra vez. O grande populista, “pai dos pobres”, “Chefe da Nação”, enfim, ditador. O povão o amava. Muitas lágrimas derramadas com a sua morte. Nas ruas, os udenistas se ferraram. Em Aracaju, até um radialista apanhou de sombrinha. 


Em 1955, eis Juscelino Kubitscheck, eleito com 35,68% dos votos (3.077.411), candidato do PSD em aliança com vários partidos, derrotando Juarez Távora (30,27%) e Adhemar de Barros (25,77%). Dizia parte do jingle: “Aparece como estrela radiosa / Neste céu azul de anil / O seu nome é uma bandeira gloriosa / Pra salvar este Brasil. / Juscelino Kubitscheck é o homem / Vem de Minas, das bateias, do sertão / Juscelino, Juscelino é o homem / Que além de patriota é nosso irmão”. “Estrela radiosa...” “É o homem...”. “Patriota” e “irmão”. O messianismo se agarrava como podia e em quem o queria. 


1960. “Depois de JK só mesmo JQ”, dizia um dos jingles de Jânio Quadros. Candidato do PTN com apoio da UDN e de outros partidos, o homem da vassoura assanhou o país. A minha família votou em Lott, do PSD. Mas, eu, com cinco anos de idade, cantava o refrão de um dos jingles de JQ: “O homem da vassoura vem aí...”. Levei alguns cascudos de minha dinda Carminha, alegando ela que se me ouvissem cantar a musiquinha de Jânio, meu pai seria preso. Que mentira! Até eu, com cinco anos, me deixei levar por JQ. Jânio vassourou com 48,27% dos votos (5.636.623 votos). Derrotou o marechal Henrique D. Teixeira Lott, candidato de Juscelino. Jânio tinha jingles sequenciais: “Varre, varre, varre, varre, varre, varre vassourinha / Varre, varre a bandalheira / O povo já está cansado / De sofrer dessa maneira”. Ou, a minha preferida: “O homem da vassoura vem aí / Já sei pra onde vou com a família / Eu só queria, eu só queria / Ver o homem da vassoura em Brasília”. Outro jingle, na voz de Luiz Gonzaga: “Chegou a hora / Da revolução / A vassoura é o fuzil / O voto, a munição”. Messiânico. 


O fuzil de Jânio não disparou. Faltou munição. Foi-se, atabalhoadamente. Disse o poeta Manuel Bandeira, seu eleitor: “Durante seis meses, / O eleito governou com honestidade, / Com desvelo, / Com bravura. / Mas, um dia, / De repente, / Lhe deu a louca / E ele renunciou”. Pois foi. Deu a louca em Jânio. Ele jogou para o alto, o que estava no penico. E o país, coitado, acabou nas mãos de milicos. Os novos messiânicos. Oh, desventura! Pobre e mal concebida democracia, essa nossa! 


Anoto que transcrevi apenas partes dos jingles. Continuarei a desventura messiânica no próximo artigo.


*Padre, advogado, professor da UFS, Membro da ASL, da ASLJ, da ASE, da ADL e do IHGSE

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