25 de janeiro de 2019
POR: Clóvis Barbosa
Fonte: Blog do Clóvis Barbosa
Em: 24/01/2019 às 00h00

Carta de Araripe :: Por Clóvis Barbosa


Por Clóvis Barbosa


Araripe Coutinho (Foto: Via Blog do Clóvis Barbosa)

Araripe Coutinho (Foto: Via Blog do Clóvis Barbosa)

No dia 22 de maio de 2011, às 13 horas e sete minutos, recebi um e-mail do poeta e jornalista Araripe Coutinho. Era um texto sobre as fotos que ele tirou no museu do palácio Olímpio Campos quando do seu processo de restauração. As fotos de Araripe, em poses sensuais, bombou nas redes sociais com as piores maledicências e carregadas de preconceitos, ironias e zombarias. Li alguns dias depois e me impressionei com o seu teor, não só pela riqueza do estilo, mas, principalmente, pela qualidade das informações contidas. Não sei se ele publicou em vida. Se o fez, vale a pena rever esse talento que transportava para a prosa toda a essência de sua poesia: “As fotos no museu. Durante a apresentação da peça Tristão e Isolda em 2003, Gerald Thomas não gostou das vaias do público e respondeu mostrando a bunda e simulando uma masturbação. O fato chocou a plateia e rendeu um processo para o diretor. O Supremo Tribunal Federal decidiu que Gerald não cometeu nenhum crime, seus atos mesmo que obscenos fazem parte da liberdade de expressão, ainda que em um espaço público. As fotos que tirei no museu Olímpio Campos, nem a bunda eu mostrei.  Fotos meramente artísticas e poéticas – uma visita à Botero, Modigliani e Caravagio. Não houve propósito em macular a imagem do local, - uma vez que eu o usei com uma orquestra para lançar meu livro há 10 anos, ali. Algo tão devastador, tão simulacramente divino, que todos poderiam deixar o prédio vir ao chão, menos eu, que o amo – desde quando Eurico Luiz, que foi quem primeiro começou a restaurar no Governo Valadares, e morreu à míngua sem nenhum apoio.


Não pude acreditar em tudo que aconteceu: fotos nos sites, montagens, histórias em quadrinhos, ofensas, e-mails enviados a milhares de pessoas, notas oficiais e etc. Do alto dos meus bem 42 anos, vendo a arte sempre como algo que tem que tirar as pessoas da poltrona, caminhei pelo corredor da minha casa dando explicações aos radialistas por mais de duas horas. No mesmo mês em que John Lennon é a capa da Rolling Stonnes, completamente nu, de cabeça para baixo, em cima de Yoko Ono, de calça jeans. E Caetano com a mulher e o filho nu na capa do vinil, quase foram queimados. Que mal poderia haver naquelas fotos, por ser em palácio-museu? Mas não estava abandonado, detonado, fechado, sem segurança, totalmente destituído de qualquer cuidado? Como eu não poderia fazer as fotos renascentistas para o meu livro, guardadas para uma futura exposição, e detonadas na net com tamanho furor? Qualquer pessoa ao olhar para as fotos, não vê absolutamente nada de vulgar, infame, imoral. A verdade, mesmo o episódio tendo me levado à nocaute, à cama, eu pude ver como a sociedade de uma maneira geral tem sede do novo, do inusitado, do grupo galpão, do Imbuaça em alguns espetáculos, das peças que vão de encontro ao establishment. Comumente, as pessoas aproveitam fatos assim para expor suas complexidades internas, traumas infantis, preconceitos vários e defesa do patrimônio que é do povo, mas que nesta hora é sacralizado como algo intocável, santo.


No meu girar de percepções acreditei mais uma vez em Marcelo Déda, governador do estado, que não emitiu opinião falso-moralista, mandando apenas apurar o que aconteceu à época. No fundo, ele percebeu que não havia nenhum tsunami vindo em direção ao nu artístico, perpetrado por um poeta em fim de carreira. Havia arte. Mexendo, aí sim, com a falta de coragem de uma sociedade conservadora e cruel. Se o fato não é o que mostrar, mas onde foi mostrado, que diferença há de haver se não feriu em nada, tais fotos, não mostram nada, não há ninguém, ao fundo, insinuando nada, apenas o poeta, deitado numa cheese long, mais comportado que os anjos da capela sistina, pintados por Leonardo da Vinci. A quem pedir desculpas, peço. Não houve desejo de afrontar nada nem a ninguém. Precisamos nos despir do nosso falso moralismo, abrir as mentes para que ‘afinal floresça’, algo novo. Destituído de qualquer capa de culpa, preconceituosos que somos com tudo que não conhecemos, ao fundo. Desconhecemos nossos próprios monstros e apontamos o desconhecido como legítimo demônio. Água para elefantes. Quando Galileu Galilei, Joana D´arc, Giordano Bruno foram levados à fogueira a Igreja eximia-se da culpa no famoso caça às bruxas e morte na fogueira. Muito contrário do que as pessoas pensam, a morte na fogueira já existia na Roma e na Grécia antiga. Foi abolida com a ascensão do Cristianismo, mas retornou na idade Média não por ação da Igreja, mas pela ação do rei Roberto, o Piedoso, que mandou queimar 14 cátaros no ano de 1022 na cidade de Orleans (França) e também pela ação de reis como Raimundo VIII e Raimundo V. Hoje ainda mandamos sempre alguém para a fogueira.


Assim, como ensina Sartre comparando a vida humana a um jogo de rúgbi a que se assiste sem conhecer as regras: ‘Vi alguns adultos se golpeando uns aos outros e derrubando-se para fazer passar uma bola de couro entre dois paus. Recapitulando o que vi, não lhe alcancei o sentido, parecendo-me tudo uma piada. Não há dúvida de que, se a vida do homem se resume a um jogo em que se luta para alcançar uma meta, a custa de golpes e empurrões, ainda que o êxito seja obtido, uma hora acaba a partida, como termina a vida. Quando o entusiasmo do campo já não tem valor algum, foi porque aquele jogo nunca teve algum sentido.’ Despojemos nossas vestes rotas, caminhemos sobre trigais amarelecidos e plenos como dizer ‘olhais os lírios do campo, eles não tecem nem colhem...’ Aviltados, sonhamos com um mundo ideal mas nascemos imperfeitos e morremos sós. No começo do século XX, Marcel Duchamp resolveu enviar a uma exposição de arte um mictório deitado ao contrário e pintar bigode e cavanhaque sobre uma cópia barata da Mona Lisa, mudando o nome do famoso quadro de Da Vinci para “LHOOQ” (uma brincadeira com os sons dessas letras que, em francês, significa “ela tem fogo no rabo”). Por que esses dois atos se tornaram famosos e até hoje são discutidos em rodas intelectuais e aulas de belas-artes é justamente a razão pela qual se discute a função da obra de arte. De modo subversivo e ao mesmo tempo iconoclasta, isto é, com desejo de ver a obra de arte livre do ambiente fechado em interesses mercadológicos e conceituais, Duchamp reinventava a questão “o que é arte”, propondo que mesmo os objetos já prontos (os chamados ready made) podem ser vistos como artísticos.


A partir de Duchamp, como classificar o que é um objeto de arte? Ligar arte à subversão não é um privilégio, nem mesmo uma primazia de Duchamp. Hieronymus Bosch e Pieter Bruegel, nos séculos XV e XVI, já traduziam em suas pinturas a vontade de se rebelar contra normas estéticas e sociais. – diz Alexandre Amorim em belíssimo ensaio. Quando teremos, afinal, um Botero em praça pública, um gay assumido na Academia de Letras, ou na reitoria do Campus? Não há como prever. Hitler está vivo. Ele caminha desesperadamente entre nós, com sua câmara de gás, seu kit-mídia, sua internet de leprosos. Somos aqueles, que assistem calados, o inocente que vai ao cadafalso. A cada hora, a cada minuto, matamos o Deus que nos deu a vida. Destituídos de qualquer misericórdia, confundimos sexo com religião, saúde pública com plano particular, arte com puritanismo. Quando Gerald Thomas mostrou a bunda no teatro, ao ouvir “mande esse judeuzinho de volta pra casa”, ele estava certo. Não esperava que depois de tantos anos, em pleno século XXI, mesmo depois da queda impossível do muro de Berlim, com uma mulher na Presidência do Brasil e um negro na dos EUA, pudéssemos continuar os mesmos e vivendo como nossos pais.


Post Scriptum
A desmunhecada baiana

Jorginho, Luizinho e Paulinho - um deles já avô, os demais pais de família com filhos adolescentes - na sua juventude, tinham um sonho que era o de conhecer a bela capital baiana. Faziam teatro no início da década de 70 movimentando a ambiência cultural de Aracaju. Juntaram os trocados e resolveram conhecer a metrópole. Nunca tinham viajado. No máximo, São Cristóvão, Estância e Propriá. Luizinho sempre ia ao Riachão do Dantas, sua terra natal. Estavam ansiosos. Paulinho, no entanto, exagerou. Levou uma mala gigantesca para uma viagem tão breve. Na mala apenas duas cuecas, três camisetas, um suspensório, uma pasta dental, escova, um sabonete phebo e um Lancaster, perfume da moda à época. Tudo caberia numa pequena sacola. Os três apenas levaram uma calça jeans. Saltaram na rodoviária das Sete Portas em Salvador e foram caminhando pela Baixa dos Sapateiros, Pelourinho (na época era também conhecido como Maciel de Cima e Maciel de Baixo, zona do baixo meretrício), até chegar no Terreiro de Jesus, onde se hospedaram na pensão do sergipano Gonorreia. Eles ficaram impressionados ao passar pelo Maciel com as putas oferecendo seus serviços. Teve uma que, para mostrar a sua expertise na arte secular da prostituição, pegou uma banana de uns 40 centímetros e, num movimento de vai-e-vem na boca, engoliu a fruta totalmente. Uma espécie de garganta profunda que abismou a meninada. Fizeram os planos para os locais que desejavam conhecer. Luizinho, a praça Castro Alves e a Lagoa do Abaeté; Paulinho, a Igreja do Bomfim; e Jorginho,  o teatro Vila Velha e o Instituto Cultural Brasil-Alemanha, o ICBA, no Corredor da Vitória. Paulinho tinha ouvido na música de Caymmi que pra ir ao Bonfim tinha que ter balangandan. Encheu o saco de Gonorreia para saber o que era aquilo e onde se comprava tal apetrecho. Gonorreia, que não era besta, vendeu uns colares velhos do afoxé “Mercadores de Bagdá”, dizendo que ele estava pronto para conhecer a Igreja do Bonfim, na sagrada colina. No dia seguinte, seguiram pela rua Chile, o point de Salvador. Iam conversando amenidades, como as 365 igrejas, uma para cada dia do ano, os novos baianos, Paulinho Boca de Cantor, Pepeu, Gil, Caetano, Gal, Bethânia, cinema baiano, quando, de repente, Jorginho, que era o mais animado, vestido à la Fred Mercury, com suspensório e camisa colante, pegou nas mãos dos dois colegas, olhou de soslaio para um lado e para outro e não se conteve: “Gente, já que estamos em Salvador, a terra libertina, des-mu-nhe-que-mos! Uau!!!”. E desceram saltitantes a ladeira que dá acesso à praça Castro Alves.


Publicado no Jornal da Cidade, Aracaju-SE, edição de 17/01/2016, caderno A-7.


Clóvis Barbosa é Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Sergipe. Foi Presidente da Ordem dos Advogado do Brasil, seção de Sergipe OAB-SE), por duas vezes, Conselheiro Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Secretário de Governo e Procurador-Geral do Município de Aracaju-SE, Procurador-Geral da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e Secretário de Estado de Governo do Estado de Sergipe.

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